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Olho da História No. 3 Página Principal

 

Simba, o leão sanguinário:
Revolta dos Mau Mau, cultura de massa e marketing político

Por Renato da Silveira

"Na frente ficava a mentira inteligível, por trás, a verdade incompreensível."
(Milan Kundera)

Desde que o cinema tornou-se um grande espetáculo de massas, os povos do Terceiro Mundo passaram a ser representados nas telas como uma espécie de aberração humana. Sua cultura, suas religiões e seus movimentos políticos foram sistematicamente qualificados de inferiores e disformes, diante da superioridade racial, moral, cultural, artística, religiosa e política da Civilização Ocidental. Temas como a preguiça, a burrice, a falta de caráter e o gênio sanguinário de africanos, índios, árabes e orientais passaram a ser correntes em películas produzidas para divertir, mas subsidiariamente para orientar a opinião, principalmente do público jovem. Os filmes de aventuras coloniais, divertidos e emocionantes, rodados em mundos exóticos e perigosos, tornaram-se um poderoso auxiliar na manutenção da hegemonia ideológica do Ocidente. Eram geralmente filmes épicos e espetaculares, contavam histórias de heroísmos, mas eram simultaneamente romances e comédias de ação, com muitas brigas e cenas engraçadas, feitas para divertir o grande público. Eu próprio fui um adolescente apaixonado por esses filmes. Hollywood investiu muito no gênero e produziu filmes coloniais de grande sucesso, isto é, de grande eficácia política, como A patrulha perdida, de John Ford (1934), Três lanceiros de Bengala, de Henry Hataway (1935), A carga da Brigada Ligeira, de Michael Curtiz (1936), Gunga Din, de George Stevens (1939), entre outros, todos estrelados por grandes astros da época, como Olivia de Havilland, Gary Cooper, Errol Flynn.

Politicamente, esses filmes baseavam-se em uma fórmula muito simples: na exaltação do Império Britânico e de seu Exército colonial, com destaque para suas magníficas tropas e para o heroísmo, a lealdade e o humanismo dos seus soldados e oficiais; e na transmissão de uma imagem execrável dos movimentos de resistência anticoloniais, sendo seus atores apresentados como bandos de fanáticos sinistros, irresponsáveis e sanguinários. Segundo esta ficção, que já foi chamada de "solidariedade imperialista", os ingleses mantinham a ordem em regiões onde nativos massacravam-se furiosamente entre si por motivos fúteis, quando deixados à própria sorte, e levavam para eles a verdadeira religião, a ciência e o desenvolvimento econômico, quando eles eram finalmente "pacificados". As palavras-de-ordem anticolonialistas e os justos gritos de independência foram metodicamente desvalorizados, ao serem colocados na boca de bandidos e personagens repugnantes. Os únicos nativos apresentados como dignos de simpatia eram aqueles que aderiam à política e aos valores ocidentais. Esses filmes costumavam ter um personagem estereotipado, um nativo engraçado e muito simpático, geralmente um tipo simplório, falando um inglês de cais, amigo e protegido do herói britânico. No jargão dos produtores hollywoodianos era um gagman, mas no vocabulário da minha infância ele era chamado de "o doidinho". Talvez o melhor exemplo seja o aguadeiro indiano Gunga Din, personagem inspirado em um poema de Rudyard Kipling, cujo sonho era tornar-se um "verdadeiro homem", ao engajar-se como corneteiro nas tropas da Rainha Vitória. Gunga Din sacrifica a própria vida para salvar the British Army da derrota contra os tugues, partidários da terrível Káli, a deusa do sangue e dos assassinos, que ainda recentemente foi vista em uma aventura de Indiana Jones. Káli era a estrela hindu de um panteão imaginado pelos roteiristas de Hollywood, no qual só figuravam deuses monstruosos e sanguinários. A fórmula utilizada nesses filmes era portanto simples, mas funcionava muito bem.

A Inglaterra também realizou grandes filmes de aventuras coloniais como Simba, de Brian Desmond Hurst (1955), ou Sangue sobre a Índia, de J. Lee Thompson (1958), depois que a poeira da Segunda Guerra assentou. Os ingleses herdaram o know how dos americanos — muitas vezes sua produção e distribuição — mas procuraram fazer filmes politicamente mais maduros. No entanto, só conseguiram se livrar dos estereótipos hollywoodianos na década de 1960 com Lawrence da Arábia, de David Lean (1962), e principalmente com Zulu, de Cy Endfield, produzido em 1963. Simba é uma demonstração disso, e é o filme que vai ser analisado em seguida. Foi produzido por Peter de Sarigny, protagonizado por Dick Bogarde e Virginia McKenna, com roteiro de John Baines sobre uma história original de Anthony Perry, cenas e diálogos adicionais de Robin Estridge e música de Francis Chagrin. Foi lançado em videocassete no Brasil em 1993 pela Vídeo Nostalgia (VN), e pode ser encontrado em qualquer locadora. Hurst era primo do lendário John Ford mas, ao contrário do que diz a ficha técnica da VN, nunca trabalhou com ele. Pertenceu à equipe de Alexander Korda, que atuou no estúdio da Paramount instalado em Joinville, perto de Paris. Korda era húngaro mas atuava no cinema americano desde 1927. Fez este estágio na Paramount francesa antes de ir tentar a renovação do cinema inglês, quando então encontrou Hurst, tornando-se seu mestre. Antes de Simba, Hurst fez um grande filme de aviação encomendado pelo governo, The lion has wings (1939), nos primeiros meses da Segunda Guerra Mundial, além de alguns outros filmes inexpressivos.

Simba, um filme político

Simba conta uma história ambientada no Quênia, na década de 1950, quando este país ainda era uma colônia inglesa, pois só se tornou independente em 1963. O filme começa quando Alan Howard (Dick Bogarde), um jovem "almofadinha", rico e folgado (um imperial top boy with introspective intellect, na expressão de Kenneth M. Cameron), viaja para a África, onde seu irmão David tem uma grande fazenda de criação de gado. Encontra-o morto, cruelmente assassinado pelos Mau Mau, que tinham começado uma sangrenta rebelião. Mau Mau era uma sociedade secreta organizada principalmente por elementos da etnia kikuyu, nativos que os ingleses encontraram na região, no início do processo de colonização. Alan encontra também Mary Crawford (Virginia McKenna), com quem espera continuar um antigo romance. Mary é filha de grandes proprietários de terras, nasceu e cresceu no Quênia, fala um pouco a língua nativa e considera-se africana. É uma loura de olhos azuis, bonita, mas um tanto quanto "travada" e fria para nossos padrões tropicais. Não tem nenhuma formação profissional mas ajuda o Dr. Peter Karanja (Earl Cameron), filho do chefe dos kikuyu, no posto de saúde local. O médico e sua enfermeira são boas pessoas, íntegras e solidárias, e nutrem uma sincera amizade.

Alan naturalmente revolta-se com o assassinato cruel do irmão, que era uma pessoa cheia de ideais e que tratava os africanos com humanidade. Começa imediatamente a odiar os africanos, inclusive o próprio Dr. Karanja, de quem se sente um tanto quanto enciumado. Nesse meio termo, os Mau Mau continuam a disseminar o terror entre os ingleses, começando justamente por aqueles que têm uma boa relação com a população local. Não poupam ninguém e investem violentamente inclusive contra os próprios kikuyu que não aderem à revolta. Praticam atrocidades inomináveis, chegam a massacrar toda uma linhagem, duzentas pessoas de uma só vez. Dessa chacina só uma criança, Joshua, sobrevive, e é adotada por Kimani, um doméstico do falecido David, com o consentimento de Alan. Joshua, aliás, nome bíblico, quer indicar que a comunidade kikuyu massacrada era protestante; desse modo é insinuada no roteiro a idéia de uma guerra de religiões. Seguindo sua sina sanguinária, os Mau Mau em seguida matam covardemente os pais de Mary. É o chefe dos kikuyu e dos Mau Mau, o próprio pai de Karanja, intitulado de Simba, que executa a tiros, friamente, a velha e bondosa senhora. Em seguida, saqueiam e destroem a residência dos Crawford e pixam a palavra "Simba", em vermelho, na parede da sala devastada. Karanja, diante disso, denuncia o pai às autoridades militares. Os Mau Mau atacam então a fazenda dos Howard, e Alan, abandonado por todos os seus empregados africanos, arma-se e enfrenta-os acompanhado apenas por Joshua, por Mary e pelo Dr. Karanja, que vêm ao seu socorro. Karanja vai então, desarmado, ao encontro dos Mau Mau, que estão incendiando e saqueando a sede da fazenda e tenta convencê-los a abandonar sua estúpida rebelião. Simba, seu pai, chega; eles discutem, o pai renega-o, diz que ele é um homem branco e levanta o facão para matá-lo. Alan alveja então Simba, que morre no ato, mas os demais rebeldes ferem mortalmente Karanja, antes da chegada da tropa britânica que derrota os malfeitores.

Moderados e extremistas

Estabelecida a sinopse, vamos entrar nos detalhes para compreendermos melhor o que, politicamente, está em jogo neste filme. Simba tenta mostrar a trajetória de um rapaz irresponsável que penetra em um território do qual desconhece os atores e as regras, é envolvido pelo amor e pelo ódio, pela morte e pela guerra, e amadurece no processo, aprendendo a amar Mary e a respeitar os africanos. A narração, que tem um objetivo explicitamente político, apresenta-se entretanto como objetiva, neutra, descrevendo detalhadamente todas as tomadas de posição e as razões de cada um. Assim, inicialmente, são mostrados os dois grandes grupos que dominam a cena, os britânicos e os nativos da etnia kikuyu. Os ingleses são os quadros superiores da administração e os oficiais das forças armadas coloniais, mas são principalmente os colonos, proprietários de imensas fazendas modernas que têm todos os confortos e privilégios, vastas e confortáveis residências, carros esporte, telefones e sininhos para chamar a criadagem. Os kikuyu, povo rústico e pobre, compõem a massa dos empregados domésticos e dos trabalhadores braçais a serviço dos colonizadores; também são os soldados e os quadros inferiores da administração. O filme não dá nenhuma informação mais objetiva sobre a trajetória histórica que levou a tal situação. Apenas usa a revolta como fio condutor para uma apresentação das diversas posições políticas e existenciais em confronto. A narração tenta mostrar as incertezas da luta armada e indicar uma solução moderada e satisfatória para todas as partes. Ou quase todas ...

Quando estoura a revolta, os colonos reúnem-se com as autoridades para decidir o que fazer. É aí que as diversas posições políticas se explicitam. Entrando no detalhe, temos o primeiro subgrupo, os britânicos honrados e bondosos, que tratam bem os africanos e confiam neles. Bwana Howard, falecido irmão de Alan, o velho Dr. Hughes, médico-chefe do serviço colonial, e a própria Mary são os melhores exemplos. Depois temos os outros, que consideram os africanos inferiores e os tratam com uma distância variável (mas sem violência, pelo menos o filme não mostra nenhum clima de opressão, nenhuma agressão de inglês contra kikuyu). O Dr. Hughes, que faz um longo e muito aplaudido pronunciamento na reunião, é contra qualquer resposta violenta, embora reconheça que os Mau Mau precisam ser neutralizados: "Não se pode argumentar com os Mau Mau, mas com os africanos é possível. Ou o faremos, ou eles se bandearão para o lado do inimigo. Precisamos aprender a viver neste país lado a lado, para construirmos um mundo melhor". Outros, igualmente moderados, afirmam que "os kikuyu correm mais perigo que nós. Para cada um de nós que os Mau Mau mataram, cem kikuyu foram assassinados por não aderirem".

Mrs. Crawford, mãe de Mary, também é uma dessas pessoas bondosas mas discorda do Dr. Hughes, talvez porque o discurso dele seja muito igualitário para o seu gosto. Sente-se ofendida e assume a defesa dos fazendeiros: "Eu não concordo, eu e meu marido sempre fizemos tudo para ajudar os africanos. Cuidamos de nossos criados como se fossem crianças. O senhor nos toma por monstros cruéis que não somos. Quando viemos para cá, depois da Primeira Guerra, não havia absolutamente nada por aqui; trabalhamos duro para construir esta fazenda. Nunca voltamos à Inglaterra, nem de férias!" Outros elementos completam o perfil de Mrs. Crawford. Ela é apresentada como uma mulher digna e calorosa; criou Mary, sua linda filha, corretamente, de modo que ela tornou-se um poço de virtudes. Além disso, Mrs. Crawford é conciliadora, sempre gentil e atenciosa, costuma falar com sentimento e sinceridade. Quando seu marido usa o termo racista "kukes" para se referir aos africanos ela o repreende: "Gostaria que os chamasse de kikuyu". Este é o seu retrato tal como pintado pela narração; então, tudo o que ela diz tende a ser considerado justo e verdadeiro pelo espectador. A função dramática deste personagem é, por conseguinte, valorizar a figura humana do colono britânico.

Em seguida, entram em cena os extremistas. Um louro furioso e de queixo duro exige massacres corretivos, incêndios de aldeias, uma guerra de religião contra os próprios kikuyu. Muitos apóiam, com gritos furiosos. A assembléia se agita. Um homem de tipo indiano, de terno claro, complementa:

"Estamos cheios da conversa mole de pessoas como o Dr. Hughes e David Howard. Eles são boa gente, mas David tinha sonhos perigosos. Foram os Davids deste mundo, com seu sentimentalismo barato, com seus 'não vamos maltratar nossos irmãos negros' que nos meteram nesta enrascada. Ou endurecemos para valer e esmagamos os pretos de modo que eles não se levantem nunca mais, ou teremos de deixar a África para sempre. Eu sei que é deselegante falar dos mortos. Desculpem se falei mais duramente, mas todos nós sentimos o mesmo."

Alan fica chocado com o discurso duro do indiano contra seu falecido irmão e retira-se da reunião. Mary o acompanha: "Desculpe-o, ele não é uma pessoa ruim, normalmente é gentil e atencioso, dá uma festa de Natal todos os anos para os totós, as crianças africanas". Por este diálogo ficamos sabendo que a violência dos Mau Mau radicaliza até os colonos de disposições pacíficas. A revolta, como diz Mary, "é como uma enchente, fomos todos arrastados por ela". Ainda sobre as polarizações políticas, uma discussão doméstica entre os Crawford é muito ilustrativa. Mrs. Crawford, sobre o irmão de Alan assassinado: "David era tão bom, ninguém fez mais do que ele pelos seus empregados!" Então por que os Mau Mau mataram David? Mary: "Porque ele era bom e os nativos gostavam dele e isto não faz parte do plano dos Mau Mau. Se cada europeu fosse como ele, não haveria africanos descontentes. E os Mau Mau não existiriam". Mr. Crawford, pai de Mary, discorda:

"Bobagem. Há sessenta anos, quando os primeiros europeus chegaram aqui, os africanos nem sequer tinham descido das árvores, como podem eles serem seres racionais, seres humanos adultos? O problema é que demos aos africanos os brinquedos errados, ideais de autodeterminação e nacionalismo. Agora os Mau Mau se apoderaram disso e podem tornar-se muito perigosos. O Chege (um criado uniformizado e sorridente na frente do qual este discurso é feito) nasceu aqui na fazenda. Ele e Mary costumavam brincar juntos. Agora, na primeira ocasião, ele cortaria nossa garganta."

Mrs. Crawford, sentida: "Oh, não, darling, Chege é da família!" Resposta: "Você acha que essa gente pode raciocinar, querida, mas eles não podem. Eles não passam de crianças retardadas (backward childs). Mary retruca, furiosa: "Você não pode colocar um rótulo em cinco milhões de pessoas!" Vemos, assim, que a narração se preocupa em mostrar as contradições existentes no interior da própria comunidade britânica, duas correntes de opinião bem distintas, que convivem até no seio de uma mesma família.

Bwana Crawford representa a posição doutrinária mais extremista que, internacionalmente, teve Gustave Le Bon e Lapouge, o teórico da superioridade da "raça ariana", entre seus prosélitos mais célebres. Esquematizando um pouco, segundo esta doutrina, a vida social seria um combate incessante e cruel. O livre arbítrio não existiria, nem tampouco a fraternidade. Como os direitos do homem também não existem, as "raças inferiores" devem ser submetidas, pois poderiam ser úteis apenas como mão-de-obra em trabalhos menos prestigiados. A elas deveriam ser ensinadas apenas técnicas e operações mais simples, pois não teriam capacidade de passar disso. Lapouge revelou preferência por uma sociedade de base dualista "com uma classe dólico-loura dirigente e uma classe de raça inferior, confinada à mão-de-obra a mais grosseira". Nessa linha de raciocínio, a democracia poderia ser um sistema político viável apenas entre as "raças superiores". Os "primitivos" deveriam ser mantidos segregados dos núcleos de colonizadores europeus, pois sua mentalidade retardada jamais poderia ser modificada a médio prazo. A crítica que Le Bon fez do liberalismo colonial é retomada integralmente na postura de Mr. Crawford. E as bases da política do apartheid estão aí colocadas. Por que mataram David? Resposta de Mr. Crawford: "Perguntar a um africano é o mesmo que perguntar a uma criança. Ambos agem apenas por instinto". No filme, esta animalização e infantilização do Outro é a posição majoritária entre colonos, militares e funcionários. Mas a narração parece tomar suas distâncias em relação ao racismo e aderir à posição moderada de Mary.

A péssima imagem dos africanos

A postura política assumida pela narração é moderada, está certo. Mas os africanos, como é que eles se comportam no filme? Muito mal. Uns são extremamente violentos, sanguinários; outros são submissos, dóceis demais; outros, ainda, parecem muito infantis, ou então são mentirosos, sonsos, interesseiros ... Por exemplo, Kimani, o criado de David/Alan, é uma pessoa dedicada, mas é sorrateiro e dissimulado. Nos momentos mais graves, comporta-se de modo covarde, nem consegue sustentar o olhar franco de Mary. Aliás, todos os empregados kikuyu abandonam David quando os Mau Mau o ameaçam; ele é morto por causa disso. Os africanos se comportam como uns oportunistas ingratos, sem ética nem dignidade e não demonstram nenhum sentimento humano senão o medo. Quando Alan, desolado, compreende que o irmão tinha sido abandonado sozinho para morrer e comenta: "Mas ele confiava neles!" — um oficial responde: "That’s the trouble, too much!". É como se a "prova dos fatos" demonstrasse que os africanos não são mesmo confiáveis.

A imagem dos africanos se degrada seriamente quando os famigerados Mau Mau afinal entram em cena e são mostrados em um rito de iniciação, um N’gongola (sacrifício). Aqui, os autores de Simba exageram na caricatura. O chefe Simba, que a essa altura do filme não se sabe ainda quem é, todo fantasiado, de cara pintada e dois penachos brancos na cabeça, excitado sob o som de tambores nervosos, entre tochas e fogueiras acesas, pergunta várias vezes gritando para um iniciado: "Você vai obedecer aos Mau Mau? Você vai matar pelos Mau Mau?" Em termos de discurso, é só isso que é dito. Além disso, o iniciado é obrigado a comer um pedaço de carne de gato (impureza) e a beber uma poção misteriosa, certamente muito maligna. Quer dizer, todos os espectadores ficam logo pensando em uma coisa satânica. A expressão facial de um iniciado é a de um dopado. Um segundo recebe ordens como um autômato. Um outro, que tinha sido recrutado à força, visivelmente aterrorizado, tenta fugir e é perseguido por três homens fortes, pintados para a guerra. Ouve-se um grito horrendo, e os três voltam com seus facões ensangüentados. Todos esses fatos são envolvidos por uma forte percussão hipnotizante. Então o filme "prova" que todos aqueles horrores que só se sabia de ouvir falar são verdadeiros, isto é, que os Mau Mau são mesmo uns fanáticos grotescos e sanguinários cuja principal vocação é oprimir e massacrar, pouco importa a quem.

Além disso, os africanos, segundo a narração, se por um lado são uns manipuladores, por outro, são completamente supersticiosos e, enquanto tais, altamente manipuláveis. Por exemplo, a seqüência da perseguição de Simba. Depois que ele é denunciado, foge através de uns belíssimos gerais muito férteis. Alan e a tropa estão para alcançá-lo quando ele é abordado por um leão. Acovarda-se, perde a pose, entra em pânico, apesar de levar um enorme facão em cada mão. A narração se esmera em mostrá-lo nitidamente, em primeiro plano, fazendo um papel totalmente ridículo. A intenção de desmoralizá-lo é muito evidente. Alan então vai alvejá-lo com uma carabina quando o inspetor Drummond (Donald Sinden) o impede com a seguinte explicação: "Você não entende a mentalidade africana. Segundo eles, se você matar Simba, seu espírito entrará no leão. Aí, sempre que um leão rugir na floresta, os agitadores (na fala original the trouble makers) diriam aos pobres coitados que Simba os está chamando para a ação". O inspetor já tinha explicado em outro momento que Simba em língua suaíli significa leão e é uma espécie de título do chefe dos Mau Mau. Concluindo a cena, um soldado ansioso precipita-se e atira, atingindo o leão, e Simba termina fugindo. Espalha em seguida o boato que as balas não o atingem, desviando-se para o leão mais próximo. Em outras palavras, a mobilização política dos poor fools não é considerada legítima pela narração, nunca se dá por palavras de ordem e reivindicações justas, mas pela manipulação e pela impostura de líderes fanfarrões e indignos.

O doutor Peter Karanja é, naturalmente, a honrosa exceção. É um educated native, formou-se em medicina no Makerere College, jamais tira o paletó e a gravata. Segundo Kenneth M. Cameron, um norte-americano apaixonado pelo continente negro que escreveu o excelente Africa on film, já citado, está implícito em Simba que foi a educação ocidental que deu a Karanja liderança e inteligência. A narração o apresenta como um homem honrado, dedicado a seu povo. Nós o vemos no seu trabalho, efetivamente é um excelente profissional, trata seus doentes com muito carinho. E trata os brancos de igual para igual, sem medo nem desejo. Não tem vida pessoal. Como é a convivência com a família, tem namorada? Ninguém fica sabendo, é mais um símbolo que um indivíduo. É injustiçado pelos próprios ingleses, pois só Mary e o Dr. Hughes confiam nele. Sente-se infeliz, incompreendido, imprensado entre duas civilizações. Sente-se injustiçado pelos kikuyu também, que o vêm muito próximo dos brancos. A uma certa altura, há um diálogo muito duro entre Alan e Peter Karanja. Karanja já estava "de saco cheio" da eterna implicância enfatuada de Alan e resolve dar uma bronca nele. Berra suas convicções:

"Estudei seis longos anos, Mr. Howard, seis longos anos. É um ótimo treino para fazer feitiçarias e beber sangue na floresta! Eu me formei em medicina para salvar vidas, não para destruí-las. Desprezo os Mau Mau e qualquer homem que pregar a violência e a intolerância!"

Em seguida, arranca a camisa para que Alan verifique por si mesmo se ele tem no corpo as cicatrizes iniciáticas dos Mau Mau. Alan se sensibiliza, começa a matizar seu ciúme e sua desconfiança. A narração, é verdade, valoriza o personagem Karanja; e poderíamos admitir que, sob uma certa ótica, valoriza o próprio africano. Ou, melhor dizendo, um certo tipo de africano, como salienta Cameron.

Na seqüência final, quando os Mau Mau atacam a fazenda dos Howard, a posição política de Karanja fica mais clara ainda. Antes, no diálogo duro com Alan, ele tinha afirmado: "Meu povo é simples, mas tem muito ressentimento. É fácil para os Mau Mau insuflarem seu descontentamento". Agora, para a turba Mau Mau que ataca a fazenda:

"Vocês são uns tolos, vão para casa! Vocês precisam decidir se vão fazer o que meu pai manda e como conseqüência trazer mais miséria e sofrimento para o nosso povo. Nós, kikuyu, somos homens de bem ... Todos os homens são iguais. Façam a paz, não há necessidade de ódio. O povo kikuyu é pacífico."

Chega Simba, o líder: "Ele não é meu filho, é um homem branco. Quem quer continuar sendo escravo? Matem-no!" Simba renega o próprio filho que é, como sabemos, um homem honrado, enquanto ele próprio, Simba, não tem nenhuma credibilidade diante do espectador! Karanja, mortalmente ferido, amparado pelo casal Mary/Alan, sussurra: "Eles não me ouviram. Meu pai fechou o coração deles para a verdade ..." Mary retruca: "Alguns ouviram, alguns compreenderam". E Alan complementa: "Eu ouvi, Karanja". A cabeça do médico negro tomba, uma lágrima rola sobre a bochecha rosada de Mary. O The End cai, interrogativamente, sobre o rosto de Joshua, a criança kikuyu que Alan adotara.

A lógica da colonização e a resposta rebelde

Antes de seguir em frente, vamos fazer uma síntese da história da colonização dessa região. Embora esquemática, esta explanação se faz necessária para não nos mantermos prisioneiros dos fatos tais como são narrados no filme. Os kikuyu são uma das várias etnias que ainda hoje vivem entre o Lago Victoria e o Oceano Índico. Há séculos, estavam estabelecidos na região ao sul do Monte Kenya, não muito distante de Nairobi. É um povo de pastores que fala um dialeto banto, aparentado ao suaíli, língua franca da região. São semelhantes aos Massai, seus vizinhos que habitam o Rift Valley, a sudoeste do Monte Kenya. É uma etnia que, em 1948, totalizava cerca de um milhão de indivíduos, 19,5% da população do país. Tradicionalmente viviam em aldeias de cabanas cilíndricas e estavam organizados em linhagens e classes de idade, sem Estado, nem nenhum tipo de centralização política. Até o final do século passado, os povos da região não participavam senão esporadicamente das trocas internacionais, muito ativas nas costas africanas do Oceano Índico. Na década de 1890, toda aquela região foi assolada por uma série de calamidades que a afetaram gravemente. A peste bovina, que dizimou 90% dos seus rebanhos, foi seguida pela varíola, pela doença do sono e outras epidemias, o que provocou a fome endêmica e um sério despovoamento de toda a África Oriental. Estas calamidades favoreceram a conquista colonial da região.

Nos anos de 1883-4, na Conferência de Berlim, as potências ocidentais decidiram dividir o território africano, que ainda permanecia majoritariamente livre de qualquer dominação estrangeira. Na virada do século, tropas britânicas invadiram a região a partir de Mombaça e chegaram ao território kikuyu em 1904-5. Organizaram ali uma zona de comércio diretamente controlada por uma empresa privada, a Imperial British East Africa Company, protegida por uma legislação imperial desde 1888. Sentindo a presença ameaçadora da Alemanha, os ingleses criaram então duas colônias vizinhas, Uganda e o Protetorado Britânico da África Oriental, o qual, depois da Primeira Guerra Mundial, passou a chamar-se de Quênia. Já no final do século passado, colonos ingleses, os settlers, estabeleceram-se no planalto do Quênia, os highlands, onde fundaram prósperas plantações de café, chá, sisal, algodão, e fazendas de criação de gado. Os nativos foram então expulsos das melhores terras cultiváveis, de solo fértil e de pluviosidade favorável, as quais foram distribuídas entre os ingleses. As populações locais foram submetidas ao recrutamento forçado enquanto força de trabalho dessas plantações. A administração britânica tomou então uma série de medidas administrativas, impôs pesados impostos em dinheiro, instituiu cultivos obrigatórios, para integrar os nativos pela força na economia monetária. As transformações sociais foram profundas e o desenraizamento afetou gravemente a sociedade tradicional. O processo de acumulação foi permanentemente controlado pelos settlers e capitalistas europeus e uma profunda desigualdade social tornou-se o fundamento da nova sociedade colonial.

Simba, repito, apresenta-se como um filme neutro, afastado do exclusivismo, das paixões, dos interesses mesquinhos e guiado unicamente pelo bom senso e pelo humanismo. Na verdade, a posição dos autores fica clara tanto pelo que revelam quanto pelo que omitem. Quando Mrs. Crawford afirma que "quando viemos para cá não havia absolutamente nada aqui", todo este pesado passado histórico de violência e expropriação é miraculosamente escamoteado. Ela, inclusive, sente-se ofendida; diz bondosamente ao Alan: "Não pense que somos severos com os africanos. Não consigo acreditar que isso esteja acontecendo aqui, depois de tudo o que fizemos por eles. Vivemos aqui há trinta anos sem nenhum sinal de descontentamento; agora nos sentimos traídos". A direção do filme é cúmplice desta mentira, exatamente porque a coloca na boca de uma personagem que tem credibilidade. Para o espectador, o que Mrs. Crawford diz é a expressão da verdade. Esta fala leva-o a pensar que os ingleses construíram o progresso em um lugar deserto e agora a cobiça dos Mau Mau quer expropriá-los, depois de todas as riquezas que eles criaram com o suor do próprio rosto. Mas as boas terras eram dos kikuyu e das outras etnias e eles foram encarregados das tarefas mais pesadas no processo de acumulação de riquezas; ficaram com as migalhas do banquete e, além do mais, desde o início do século, exprimiram o seu descontentamento, sim. E não poderia ser de outro jeito, depois de terem suas melhores terras roubadas e sua tradicional independência política aniquilada. Em um excelente panorama das lutas políticas e culturais dos povos colonizados intitulado Occidente e Terzo Mondo, seu autor, Vittorio Lanternari, fez um rápido histórico dos movimentos messiânicos organizados pelos kikuyu. Como muitos outros povos colonizados, eles aproveitaram-se das religiões impostas pelo opressor para organizar a resistência. Já em 1920, os kikuyu fundaram a AIPC, igreja pentecostal independente, que rejeitava qualquer controle estrangeiro, inclusive o de missionários negros da África do Sul. Na época da Segunda Guerra Mundial, a seita Arathi ostentava uma ideologia agressiva que terminou provocando o assassinato de três europeus, o que desencadeou a repressão e determinou seu rápido declínio. Atacavam as igrejas missionárias como hipócritas e cúmplices do colonizador, deixavam de pagar impostos, abandonavam o trabalho e consideravam-se os verdadeiros cristãos, apesar de preservarem o transe e os ritos públicos tradicionais. Depois da Segunda Guerra, houve, entre os kikuyu, uma proliferação dessas seitas, que prepararam a luta armada e o surgimento do movimento político dos Mau Mau. Um exemplo foi a seita Andu a Ruri, de ideologia emancipacionista, que prometia imunidade aos seus fiéis contra as armas de fogo dos europeus. Ou a Dini ya Msambwa, que chegou a travar uma batalha contra as forças armadas do Estado colonial em Rift Valley, com muitos mortos em ambas as partes.

Daniel Bourmaud, cientista político francês que viveu muitos anos no Quênia, dirigindo o Centro de Pesquisa e Documentação Universitária (CREDU) de Nairobi, escreveu um livro, intitulado Histoire politique du Kenya, no qual, baseado em abundante bibliografia e documentação oficial, se refere ao intenso movimento de resistência das etnias regionais, destacando o movimento dos Embu, em 1904-6, a resistência dos Gusii, em 1904 e 1908, a dos Kipsigis, em 1905, e, finalmente, as lutas dos Bukusu e dos Kabras em 1907. Bourmaud também faz referência aos squatters, nativos sem-terra, extremamente concentrados em suas reservas, que terminaram invadindo as vastas reservas européias, e que, em 1931, já cultivavam uma superfície superior à que os settlers eram capazes de cultivar. Bourmaud enumera ainda os diversos movimentos de resistência dos próprios kikuyu como a fundação, em 1921, da Young Kikuyu Association, a criação de uma rede de escolas independentes da Igreja e do Estado, a gestão dos local native councils instituídos pelo governo colonial mas que se transformaram em centros de contestação da política oficial, e, finalmente, a criação de uma organização que centralizava todas as iniciativas, a Kikuyu Central Association. As tímidas tentativas de democratização do governo colonial sempre ficaram no papel, sempre contaram com a mais intransigente oposição dos settlers — a resposta efetiva terminando sempre sendo a repressão. Assim, em 1940, a Kikuyu Central Association, cujos efetivos passaram, em três anos, de trezentos a sete mil membros, foi proibida. Simultaneamente, 184 escolas independentes foram fechadas, 149 das quais pertencentes ao Kikuyu Independent Schools Association. Apesar da repressão e de pequenas concessões formais, o governo colonial não conseguiria impedir o desenvolvimento do nacionalismo nativo, que reuniria diversas etnias em estruturas políticas comuns. Em 1944, é fundado o Kenya African Union (KAU), cujos efetivos chegam rapidamente a 150 mil membros. Paralelamente, reforça-se o movimento operário, com a fundação do sindicato dos doqueiros que é imediatamente proibido pelo governo colonial. Seus dois principais líderes, Makhan Singh e Fred Kubai, serão presos, enquanto que Tom Mbotela, vice-presidente da KAU, será assassinado em 1952. Toda essa agitação prepara o surgimento da guerrilha Mau Mau, em 1953. Este resumo mostra que as bondosas e sentidas falas de Mrs. Crawford ("depois de tudo o que fizemos por eles", "trinta anos sem sinal de descontentamento") estão muito, mas muito distantes mesmo da realidade histórica. O que dá direito ao crítico de desconfiar da própria idoneidade dos autores de Simba.

Dois extremismos, dois pesos e duas medidas

Mas não é só. A situação queniana, tal qual é apresentada em Simba, destaca uma polarização principal entre os Mau Mau e os colonos racistas da extrema direita. Mas o tratamento dado aos dois pólos é muito diferente. Neste tratamento diferenciado, verifica-se uma disposição que dificilmente pode não ser considerada tendenciosa. Os Mau Mau são os bandidões dessa aventura, não há dúvida. Tal como é mostrada na tela, a crueldade deles é totalmente irracional, atinge indiscriminadamente aos ingleses e aos kikuyu. Seus rituais são verdadeiras lavagens cerebrais — o líder Simba "fechou o coração deles", como diz Karanja agonizante; eles, portanto, não têm sentimento nem usam o raciocínio. São movidos apenas pelas ordens do "chefão". São considerados, portanto, pela narração, como marionetes que seguem um homem desequilibrado e sanguinário cujas motivações nunca ficam muito claras. Até mesmo o Dr. Hughes, conhecido pelo seu caráter benevolente, admite que eles têm de ser eliminados e nem sequer os considera africanos. O isolamento político dos Mau Mau, pelo menos no contexto ficcional do filme Simba, não poderia ser mais total.

A manobra de marketing político que consiste em desqualificar a liderança do adversário é certamente muito antiga. Já em 1565, o arcebispo de Goa, então florescente colônia portuguesa, publicou um panfleto destinado ao povo judeu no qual ele declara que este ainda segue o Talmud "por culpa dos erros e malícia dos seus rabinos". Mas a influência mais forte sobre os roteiristas de filmes políticos destinados ao grande público deve ter vindo de Rudyard Kipling, nascido na Índia de pais ingleses, primeiro autor britânico a ganhar o prêmio Nobel de literatura, em 1907. Muitas grandes produções cinematográficas foram inspiradas nos escritos de Kipling, que exerceu forte influência sobre a política de comunicação inglesa, chegando inclusive a trabalhar para os serviços de informação do Império Britânico. No final da Primeira Guerra Mundial, o governo de Londres criou um ministério da informação, encarregado de controlar a opinião estrangeira, chamado Imperial War Graves Commission. Kipling passou a dirigir o departamento encarregado da opinião americana e aliada. Mas mesmo antes disso, ele já era conhecido por colocar seu talento, que não era pequeno, a serviço da exaltação do Império Britânico e da difamação dos Estados nativos, cujos soberanos foram apresentados como "inimaginavelmente cruéis", bêbados e drogados. Mas Kipling foi além. Em uma história intitulada "A legião perdida", parte do livro de contos A mais bela história do mundo, ele desqualificou a liderança dos próprios movimentos de resistência contra a ocupação do Império Britânico, ao referir-se à insurreição que teve lugar em 1857, na fronteira da Índia com o Paquistão. Um sacerdote muçulmano, o Mollah de Gulla Kutta, é então caracterizado como um bandido sanguinário, apesar de apresentar-se "como chefe popular contra a agressão brutal de uma potência superior, em vez do vulgar assassino que ele realmente era". A novidade aqui é representada não apenas pela desqualificação da liderança rebelde, mas pela neutralização da própria palavra-de-ordem justa, que é contaminada ao ser colocada na boca de um cafajeste. Na história das grandes produções cinematográficas, os inimigos desqualificados vão mudando, mas o velho e eficaz truque continua sendo usado até hoje. Simba, o filme, lança mão do mesmíssimo recurso, ao colocar na boca de Simba, o bruxo, o protesto contra a opressão dos kikuyu.

Os autores, aliás, vão mais longe; não hesitam em lançar mão de uma pesada chantagem emocional na seqüência do massacre do casal Crawford. Os pais de Mary são assassinados logo após um momento de grande intimidade e ternura, quando então Mr. Crawford paternalisticamente decide que o casal vai passar um ano inteiro de férias na Inglaterra, para júbilo da bondosa Mrs. Crawford. Um grande prêmio para uma dura vida de labuta! É nesse momento de grande felicidade e enlevo que os Mau Mau penetram no doce lar dos Crawford, com a cumplicidade dos imperdoáveis criados kikuyu e, primeiro, retalham o velho a facão, depois assassinam a velha a tiros. Depois de uma dessas, a imagem deles não poderia senão rolar na sarjeta.

Já o tratamento dado à extrema direita é bem mais complacente. O fato de Mr. Crawford, por exemplo, ser um racista dos mais repugnantes não adquire, em Simba, a menor importância dramática. Ao contrário, ele é apresentado como bom pai, esposo dedicado e carinhoso, bom patrão, em suma, um homem "civilizado". Pela maneira com que é assassinado, aparece muito mais como vítima que como algoz. Além do mais, segundo a lógica da narração, seu racismo não tem nenhum desdobramento político-social, é muito mais uma questão doméstica, neutralizada pela bondade de sua esposa. O que conta mesmo é que, sob a orientação de Mrs. Crawford, eles "sempre fizeram tudo para ajudar os africanos". Quanto ao indiano de terno claro, que tomou uma posição extremista na citada reunião, já sabemos que ele é um homem de boa índole, "gentil e atencioso", apenas exasperado pela violência dos Mau Mau. Mais uma vez tem lugar uma falsificação que dificilmente pode não ser considerada intencional. Pois não apenas os africanos, mas também os asiáticos foram vítimas do exclusivismo dos colonos europeus que, só muito tardiamente, reconhecerão os direitos políticos dessa importante comunidade. Os indianos, durante décadas, boicotaram um sistema político injusto e arbitrário e só em 1938 puderam eleger, pela primeira vez, um representante na municipalidade de Nairobi, e dois em 1944, quando, na realidade, totalizavam um terço da população da capital. No filme, toda essa dolorosa discriminação é escamoteada, o indiano aparecendo como aliado natural das teses da extrema direita settler. Toda a responsabilidade sobre o conflito, é claro, recai sobre os Mau Mau. Eles, como vimos, são um movimento organizado enquanto a extrema direita é apenas uma vaga corrente de opinião. Assim, a posição racista é completamente esvaziada como fenômeno político, o que não corresponde à realidade histórica. Pois o racismo doutrinário, violento e sistemático nasceu com a colonização, desenvolveu-se com ela, criou políticas, tornou-se mais poderoso, estruturou a sociedade à sua imagem. Em Simba, este racismo militante se manifesta apenas como opinião inconseqüente de pessoas que, no fundo, são até bondosas e paternais. A polarização política principal é, portanto, neste filme, extremamente tendenciosa.

O médico e o monstro

Uma análise da relação entre Mary Crawford e Peter Karanja também é muito instrutiva sob o ponto de vista político adotado pelos autores de Simba. Mary representa o colono "africanizado". Brincou com os nativos na infância, sente-se africana, não discrimina ninguém, aceita até trabalhar sob a direção de um kikuyu (inversão de hierarquia). Karanja é seu aliado político natural visto que, no mundo cotidiano do trabalho, os dois constroem efetivamente uma nova nação. O acordo entre eles é explicitado em um diálogo, quando Karanja se queixa do seu isolamento e diz que o fato de Mary ajudá-lo "é um sinal para o meu povo". "E para o meu, perhaps", complementa Mary. Esta é, por conseguinte, uma aliança selada por uma amizade sincera, trabalho construtivo, valores humanos eternos e inalienáveis. Há diferenças entre os dois, isto é evidente, diferenças raciais, culturais: o estado de medo dos colonos, o "ressentimento" dos kikuyu, toda uma história da colonização tropegamente evocada pela narração. Mas há também outra identidade importante, além do companheirismo. Mary pertence à elite dos grandes proprietários de terra, a classe mais alta da sociedade colonial. Karanja é filho de chefe, pertence, portanto, à nobreza local, além de possuir status elevado por ter concluído seus estudos superiores em uma escola inglesa. Esta aliança é, não só a única possível, como estabelecida no mais alto nível. Mas esta aliança é desejável, em benefício de quem, satisfazendo a quais interesses?

Vamos tentar situar melhor a posição de Karanja. Uma das coisas que mais incomoda no personagem é seu discurso final, vazio e conformista. Resume-se a algumas generalidades pacifistas e definições genéricas sobre seu povo, que não são senão uma defesa do status colonial e dos privilégios estabelecidos. Karanja esvazia totalmente as razões da revolta, o conteúdo do descontentamento, salientando apenas a agitação em si e seus inconvenientes. Todo o peso do seu discurso é colocado nas ordens supostamente desvairadas dadas por um demente, seu pai, que levam unicamente a violências destruidoras. Este, aliás, é o cerne do discurso justificatório de qualquer "autoridade autoritária", que salienta na contestação apenas um caráter supostamente mal-intencionado da liderança do movimento de protesto. A injustiça social radical que a sociedade colonial instaurou nem sequer é levada em consideração no discurso de Karanja. Sua proposta, em resumo e sem caricatura, é que todo mundo volte para casa e que as contradições sociais sejam superadas pelo esquecimento.

E assim entramos nas contradições inerentes ao campo dos kikuyu. O personagem Peter Karanja representa a ruptura radical dos nativos enquadrados pela ideologia colonialista com a cultura tradicional. Esta oposição já fica explicitada na sua própria imagem e no seu próprio corpo, que não porta marcas iniciáticas, os códigos da identidade tradicional, para assumir o paletó e a gravata, uniforme oficial do poder ocidental. E fica igualmente clara no seu discurso, através da oposição "feitiçaria, beber sangue na floresta"/"eu estudei seis anos". Karanja avaliza a caricatura colonialista da cultura tradicional, reafirma o artifício que coloca de um lado a dedicação séria, a vocação científica e humanitária, e do outro as "superstições" e as práticas selvagens e aleatórias, como se não houvessem, nas milenares tradições africanas, práxis igualmente sérias, demandando longos anos de pesquisa e aprendizagem! Esta oposição, do modo como é colocada no filme, esvazia completamente o seríssimo problema político colocado para todos os povos do Terceiro Mundo: o aniquilamento das culturas tradicionais e a absorção massificante da cultura do colonizador.

Karanja é um personagem trágico, denuncia o próprio pai às autoridades britânicas, fornece a prova da culpa dele e termina praticamente sendo assassinado por ele. A oposição aqui se afunila: é a do médico contra o feiticeiro. Pois a narração insinua que a liderança política de Simba tem algum parentesco com a feitiçaria. Então temos que o médico é o que salva vidas e o feiticeiro Mau Mau que as destrói. E a oposição fica assim resolvida com uma petição de princípio em favor daquele que salva e contra o que destrói. Porém, o feiticeiro também é um médico tradicional que durante séculos cuidou do povo, lançando mão de técnicas e saberes que só recentemente começaram a ser reconhecidos. O valorizado médico, por outro lado, é um personagem básico na estratégia ocidental de dominação colonial. As populações locais desenraizadas social e culturalmente, afastadas das suas lideranças e tradições terapêuticas, obrigadas a fazer os trabalhos mais pesados e mais mal pagos, fragilizadas e doentes, passavam a depender da assistência dos metropolitanos, na figura da ajuda humanitária. O médico negro — como o militar negro, o pastor negro, o padre negro — desempenhou um papel fundamental no processo de institucionalização da sociedade colonial. Em Simba, é este contexto específico da tragédia que é escamoteado.

Karanja é apresentado como pessoa honesta e honrada, exatamente por isso tem a coragem necessária para denunciar o próprio pai. É apresentado como um líder que pensa sobretudo na comunidade, a grande família kikuyu, na sua paz e no seu progresso e a coloca acima de tudo, mesmo da lealdade natural ao próprio pai. Ele pode denunciar o pai porque ele é um falso líder. Karanja nos é apresentado, portanto, como uma pessoa autêntica: a liderança legítima do filho é a alternativa apresentada à liderança ilegítima do pai. Uma das preocupações centrais de Simba é este velho problema da substituição de lideranças. A insistência na dedicação e na honra de Karanja é uma maneira de deixar fora de foco a sua política cultural e o fato de que ele traiu um movimento do seu próprio povo. Karanja não diz abertamente: "Sejamos ocidentais!" Ele diz: "Sejamos sensatos". Mas, na prática, ou melhor, dentro do contexto do filme, ele está dizendo a mesma coisa. Em outras palavras, a figura de Karanja é despolitizada, caracterizada por um ângulo unicamente ético, mas uma ética totalmente desvinculada da política. E é justamente aqui que está a mistificação, pois para o unicamente ético ter alguma significação, seria preciso que houvesse igualdade política. É por isso que os roteiristas arriscam colocar na boca de Karanja a grande mentira: "Todos os homens são iguais". Do mesmo modo, a tomada de posição mais importante dos autores de Simba não se assume enquanto tal, mas disfarçada de discurso do distanciamento e do bom senso. Embora o recado militante seja claro: Simba, o pai, é como a velha África, que não presta mais e tem de ser eliminada. Não pelo fogo e pelo massacre, como querem os darwinistas sociais, mas pela arma mais eficiente da lavagem cerebral. A revolta dos Mau Mau, segundo a lógica que orienta a narração, é obra de dementes, mas é oportuna pois permite uma "limpeza" do terreno. Em seguida, basta tratar os nativos bem, para não haver mais revoltas. Alan aprendeu a lição de Mary e do Dr. Hughes: melhor esquecer o racismo e ser amigo de pessoas como Peter Karanja para não ter, em vez de alguns milhares, cinco milhões como inimigos.

A grande campanha contra os Mau Mau

Este, aliás, foi o objetivo de um outro médico, que não era uma figura de ficção, o Dr. L. S. B. Leakey, paleontólogo de fama mundial, em quem os autores do roteiro talvez tenham se inspirado para criar a figura do Dr. Hughes. O Dr. Leakey, um dos raros europeus a falar fluentemente o kikuyu, nasceu no Quênia e viveu muito tempo entre eles, tendo escrito um trabalho etnológico de grande envergadura. Entre 1952 e 1954, publicou dois livros que se tornaram referência obrigatória para o pensamento conservador, Mau Mau and the Kikuyu e Defeating Mau Mau, e o próprio título deste segundo livro, "derrotando os Mau Mau", não deixa nenhuma dúvida quanto às intenções do seu autor. Um outro médico, o Dr. J. C. Carothers, médico militar no Quênia de 1929 a 1938, psiquiatra no hospital de Mathari e na prisão de Nairobi de 1938 a 1950, também estava armado das mesmas intenções. Em 1954, a convite da Organização Mundial da Saúde, o Dr. Carothers voltou mais uma vez ao Quênia, daí resultando uma brochura intitulada The psychology of Mau Mau. Segundo o antropólogo holandês Robert Buijtenhuijs, em quem me apóio para escrever estas observações, ele era muito próximo dos círculos do poder oficial, portador da mentalidade racista imperante neste meio; sua obra, embora revelasse um certo progresso em relação às idéias correntes, ainda continuava impregnada de preconceitos. Pode-se mesmo dizer que o Dr. Carothers foi um combatente contra os Mau Mau, uma vez que suas teorias, em certa medida, influenciaram o pensamento oficial, tornando-o mais eficiente. Foi ele próprio quem retomou a proposta de certos políticos conservadores quenianos de criação de "aldeias estratégicas", utilizadas posteriormente pelos americanos no Vietname, cercadas e permanentemente vigiadas pelas forças armadas coloniais, o que tornaria a vida dos kikuyu e de outras etnias um autêntico inferno, mas isolaria mais facilmente os Mau Mau, aniquilando-os com mais rapidez.

O livro Defeating Mau Mau também pode ser considerando um livro de combate. Ele foi parte de uma "campanha antijuramento", na qual o próprio Dr. Leakey teve um papel destacado. Iniciada em 1952, dez meses antes do início da luta armada, essa campanha tentou arregimentar os moderados de ambas as partes. Vê-se, portanto, que a frente política que aparece em Simba existiu na realidade. Mas as idéias de Leakey sobre os Mau Mau não eram nada moderadas. E nem certas ações. Buijtenhuijs escreveu que "Carothers e sobretudo Leakey estavam profundamente convencidos que os Mau Mau eram essencialmente ruins e perversos e representavam tudo o que se opõe ao progresso humano e à civilização". Leakey acusou-os de serem impostores e falsos profetas. Basta ler algumas páginas nas quais ele comenta o juramento Mau Mau para perceber que não havia de sua parte nenhuma isenção. Termos como "sujo", "horrível", "anormal", "bestial", "infecto", "degradado", "nojento", "mentalmente avariado" e "diabólico", entre outros, alguns repetidos várias vezes, foram usados para qualificar os Mau Mau e seus atos, em apenas duas páginas do seu livro. Carothers usou palavreado semelhante para descrever as cerimônias do juramento Mau Mau. Leakey, etnólogo experimentado, tentou demonstrar que os Mau Mau alteraram o juramento tradicional em vários pontos, para indispô-los com os kikuyu. Buijtenhuijs escreve que este tema era importante porque eram estas cerimônias que conseguiam comprometer solene e permanentemente os militantes com a causa rebelde, daí sua centralidade no debate ideológico. Além do mais, Leakey agiu agressivamente, tentando provocar o confronto. F. D. Corfield, historiador governamental do movimento Mau Mau, reconheceu que Leakey, apesar de ter chamado sua cruzada de "resistência ativa ao banditismo e à intimidação", tinha objetivos ofensivos, queria provocar os Mau Mau e levá-los à insurreição, oferecendo um pretexto ao governo colonial para desencadear a repressão. Entre parênteses, em Simba, o que se vê é precisamente o contrário, isto é, um bando de rebeldes sanguinários que atacam pessoas pacíficas. Outras personalidades dispostas a tudo também participaram desta grande campanha de mobilização conservadora. Não nos esqueçamos de que o próprio filme Simba foi concebido a partir de um romance escrito por Anthony Perry. Um outro exemplo é a jornalista e romancista Mrs. Elspeth Huxley, robusta adversária do Movimento Mau Mau, cujos artigos publicados em jornais influentes chegaram a ser acatados nos círculos coloniais de Londres. Esta grande campanha passava a idéia de que os Mau Mau eram um movimento regressivo e atávico de selvagens retrógrados cujo objetivo era manter os kikuyu ancorados em perspectivas tribais. O clima era de tanta pressão que, até no relatório de uma delegação parlamentar queniana encarregada de investigar os acontecimentos, foi escrito que os Mau Mau "se esforçam deliberada e intencionalmente em levar os africanos para a floresta e a selvageria, e não em conduzi-los para o progresso". Este argumento, aliás, pode ser encontrado literalmente na boca do nosso caro Dr. Karanja o qual, em uma ríspida discussão com Alan, quando este diz que os africanos são uns selvagens, responde: "Eles não são, mas meu pai está fazendo com que eles se tornem selvagens!" De onde podemos legitimamente concluir que, se Simba não foi uma parte voluntária e consciente desta campanha, pelo menos seus autores foram fortemente influenciados por ela.

Ora, acontece que a campanha antijuramento simplesmente não deu o resultado esperado porque não teve nenhuma repercussão na sociedade kikuyu. E a explicação dada hoje, unanimemente, por todos os europeus do Quênia, segundo Buijtenhuijs, é que ela se baseou em uma visão totalmente falsa do juramento Mau Mau. Buijtenhuijs é uma pessoa indicada para falar do assunto. É um antropólogo holandês, um africanista da nova geração que não tem nenhum compromisso com o colonialismo, e que escreveu dois livros sobre o tema, The Mau Mau movement e Mau Mau twenty years after. Ele afirma que, hoje, se sabe "que o movimento Mau Mau só era um movimento tradicional na medida em que a tradição era viva, renovada e purificada, ou na medida em que ela podia ser utilizada como arma na luta por um Quênia independente e moderno". Era um movimento de renovação cultural, tentativa de fundir os quadros da tradição religiosa com as novas formas de ação, como o partido político, inspirando-se em idéias e ideologias modernas (os "ideais de determinação e nacionalismo" de que falou Mr. Crawford) e introduzindo algumas modificações no juramento que foram bem aceitas pela população. Tanto é que a campanha antijuramento do Dr. Leakey só conseguiu atrair, entre os kikuyu, alguns elementos tradicionalistas, chamados de "lealistas", por causa da sua acomodação à dominação britânica. Isto significa que um dos objetivos da campanha antijuramento era isolar os Mau Mau; significa, além do mais, que ela é que era retrógrada, pois não admitia nenhuma modificação na expressão política e cultural dos kikuyu. E que, conseqüentemente, o clima de terror e intimidação dos Mau Mau sobre os próprios kikuyu que vemos em Simba não passa de mais uma calúnia para desprestigiar e isolar o movimento, revelando, mais uma vez, uma grande sintonia entre os autores do filme e os animadores da campanha antijuramento.

Preconceito e cultura erudita

A pergunta que permanece no ar é a seguinte: como uma inversão, uma manipulação tão escandalosa como esta foi possível, como é que a opinião pública ocidental "engoliu" isso? Vamos considerar, em primeiro lugar, a conjuntura mundial. Depois da Segunda Guerra, movimentos importantes de libertação nacional só reapareceram na década de 1950. Os Mau Mau foram os primeiros, ao lado da luta armada na Argélia e na Rodésia. A Guerra da Coréia estava acabando em 1953, com a divisão do país, metade sob a influência do bloco socialista. A União Soviética, com efeito, começava uma expansão muito temida. O Ocidente capitalista precisava se precaver; era necessário isolar e derrotar rapidamente o movimento Mau Mau, colocar "ordem na casa". É preciso levar em consideração também os meios maciços utilizados para denegrir a imagem dos Mau Mau. Textos científicos, a imprensa, a literatura e o cinema; uma grande orquestração foi montada, com insistente repetição das mesmas acusações. Os Mau Mau, evidentemente, não tinham acesso à mídia, não poderiam fazer reparos à sua péssima imagem e provavelmente não estavam preparados para isso. A própria ciência, com todo o peso de sua autoridade, investiu abertamente e com a máxima virulência contra o movimento, sem prestar muita atenção ao problema da objetividade. O prestígio mundial de personagens de peso como o Dr. Leakey deve ter desempenhado um papel nada desprezível. Se ele não conseguiu convencer os kikuyu, pelo menos pôde consolidar a opinião dos colonos e formar uma opinião pública mundial favorável à repressão violenta ao movimento.

Mas é preciso considerar que já existia uma opinião pública formada sobre o tema desde muito tempo, uma espécie de ideologia baseada em uma tessitura de preconceitos, solidamente estabelecida entre as elites ocidentais. Frantz Fanon, em Les damnés de la terre, um livro que marcou época, escreveu que o colonialismo identificou a criminalidade exasperada como uma das características congênitas mais importantes dos africanos do norte. Juízes, policiais, jornalistas, advogados e médicos legistas estavam convencidos de que os magrebinos eram mentirosos natos, preguiçosos natos, ladrões natos e criminosos natos. A partir de "provas" científicas conseguidas com pesquisas e medições, uma teoria foi elaborada e ensinada nas universidades durante vinte anos, até 1954. Segundo esta teoria, argelinos, tunisianos, líbios e marroquinos matavam freqüentemente, matavam gratuitamente, matavam selvagemente. A modalidade preferida de assassinato seria a degolação. A arma preferida seria a faca porque permitiria ao criminoso ver o sangue da vítima jorrar abundantemente, sentir o calor do sangue, lambuzar-se no sangue. Esta característica principal seria complementada por outras como a impulsividade animal, a dificuldade de praticar a introspecção e a análise, a fragilidade moral, a credulidade, a infantilidade e a teimosia, além da forte tendência para a divagação e a fantasia descontroladas.

O nosso já conhecido Dr. Carothers foi um dos formuladores desta teoria. No quadro de certos estudos etno-psiquiátricos muito estimulados na virada do século, ele escreveu, em 1954, um livro intitulado Psicologia normal e patologia do africano no qual tinha a pretensão de traçar uma teoria unitária dos habitantes do continente baseada nas desmoralizadas hipóteses da antropologia física lombrosiana. Com efeito, toda uma avaliação global do comportamento do africano baseava-se na idéia de que o africano normal eqüivale a um "europeu lobotomisado", pelo fato de utilizar muito pouco seus lobos frontais. Esta "preguiça frontal", esta marginalização dos lobos na estrutura do cérebro provocaria, como reação neurológica, a preguiça, a lascívia e a prática corriqueira da mentira, roubos, crimes etc. Não é preciso acrescentar que o trabalho de todos esses especialistas baseava-se em uma condição prévia: na transformação de problemas políticos e sociais em problemas psicossomáticos natos. Ou, em outras palavras, na supressão do contexto colonial do seu campo de investigação e no escamoteamento sistemático dos graves problemas instaurados pela exploração e pela opressão colocadas em prática pelo colonialismo europeu.

Na verdade, antes mesmo que juristas e médicos legistas tivessem formulado essas teorias, a antropologia evolucionista, com uma outra linguagem mas com idênticas pretensões científicas, já tinha formulado teorias semelhantes, baseadas nas diversas doutrinas coloniais européias. Tomemos como exemplo Sir John Lubbock, para permanecermos no contexto britânico. Lubbock era o célebre Lord Avebury, homem muito influente no seu tempo, enquanto cientista e político. Ele era membro da Royal Society de Londres, a organização científica de maior prestígio em sua época, membro do Parlamento Britânico, e publicou alguns livros em que reafirmou as teorias e opiniões predominantes nos meios colonialistas e científicos, sobre os povos do Terceiro Mundo. Vamos tirar do seu livro The origin of civilization and the primitive condition of man, publicado em 1870, alguns desses julgamentos. Lubbock parte da idéia, muito comum na época mas hoje totalmente descartada, de que o estudo dos "selvagens modernos" e das contemporâneas "raças inferiores" permitiria estudar com maior exatidão os usos e costumes dos homens pré-históricos. Por isso seu livro é substancialmente dedicado ao estudo do "estado intelectual e social dos selvagens". Os selvagens, isto é, todos os povos extra-europeus, com poucas honrosas exceções.

Vamos listar algumas dessas características. Já na introdução, Lubbock nos revela que, "ademais, o espírito do selvagem, como o da criança, se cansa facilmente e então responde qualquer coisa para se ver livre do trabalho de pensar". Citando um certo Sproat, que estudou os índios do noroeste da América, complementa: "O espírito do selvagem parece então que vacila por pura debilidade, e responde mentiras e absurdos". O capítulo V, um dos dedicados à religião dos "primitivos", começa com a afirmação pudibunda de que o autor fará o possível para não ferir a susceptibilidade dos seus prezados leitores, tantas são as coisas "repugnantes" encontradas na religiosidade dos selvagens. A religiosidade deles seria semelhante ao sentimento experimentado por uma criança amedrontada em um quarto escuro e não passaria de um "triste espetáculo de grosseiras superstições e manifestações ferozes de culto". Por isso, Lubbock prefere afirmar que muitos desses povos não têm religião, pois não basta temer seu superior para constituir um sistema religioso. Encontramos aqui uma fórmula muito corriqueira entre os doutores dessa época: a de que a religião dos "selvagens" era baseada unicamente no medo. No mesmo capítulo, mais adiante, Lubbock afirma que os povos mais atrasados não sabiam nem contar nos dedos e não possuíam "concepções intelectuais bastante avançadas para constituir um sistema de crenças digno do nome de religião". No capítulo VIII, sobre a condição moral das "raças selvagens", ele reconhece que as informações disponíveis são contraditórias e insuficientes mas, mesmo assim, decreta que os selvagens são "desprovidos de qualquer sentido moral", criticando os viajantes que acreditaram encontrar algo semelhante entre eles. Explica que não se pode confundir afeto familiar com sentimento moral, convocando Darwin para estabelecer que o amor maternal existe também entre os animais. O que os viajantes teriam presenciado foi, portanto, mais uma demonstração da animalidade dos "primitivos". No final do capítulo X, Lubbock afirma que não existe liberdade entre os selvagens e no início da segunda parte do seu livro, complementa com a afirmação de que "os selvagens são mais inocentes e, entretanto, mais criminosos que os povos civilizados", reafirmando uma convicção generalizada entre as elites ocidentais e esboçando a tese da irresponsabilidade penal dos "primitivos", posteriormente burilada por Nina Rodrigues.

Todos os povos são espontaneamente etnocentristas. Se recuarmos mais no tempo, veremos que esta subestimação sistemática do Outro pelo europeu pode ser encontrada na mitologia grega, ou em textos históricos antiquíssimos, como os de Hipócrates e até mesmo de Aristóteles. Claude Liauzu escreveu que, na cultura religiosa medieval, o negro já era considerado um representante da natureza primitiva, mas também associado ao pecado e ao mal. O colonialismo ibérico deu, entretanto, ao etnocentrismo uma nova motivação. A idéia de que os Outros eram inferiores passou então a ser intimamente associada a uma outra, a de que era necessário usar a força para subjugá-los. Ou "civilizá-los", em uma versão mais hipócrita. Dentro deste espírito, o padre Francisco de Figueiroa escreveria, na segunda metade do século XVI:

"É um erro e uma imprudência afirmar, por falta de experiência, que ... alguma coisa de notável se conseguirá pregando e ensinando a estas gentes sem uma escolta armada de espanhóis, pois que a brutalidade inata e os costumes totalmente bárbaros destes índios, exigem, de justiça, que sejam primeiro dominados, disciplinados e subjugados."

"De justiça"! Tanto católicos quanto protestantes usaram a Bíblia para justificar não só a escravização como os preconceitos contra os negros que teriam sido supostos descendentes de Caim amaldiçoados por Deus, ou descendentes de Ham ou Cham, amaldiçoados por Noé. Charles Boxer afirmou, em A igreja e a expansão ibérica, que a convicção da superioridade moral e intelectual do europeu e o critério racial da "limpeza de sangue", como requisito essencial para ocupar qualquer cargo político ou eclesiástico, reforçaram-se mutuamente.

Convém lembrar que, em todas essas classificações raciais, fossem elas de natureza teológica, antropológica ou psiquiátrica, os negros africanos sempre receberam as notas mais baixas. Já no início do século XVI, o jesuíta José de Acosta tentou uma classificação das "raças inferiores", seguindo a opinião dominante entre os letrados da época. Afirmou que havia vários grupos com subdivisões, que poderiam contudo ser reduzidos a três principais: as civilizações asiáticas viriam em primeiro lugar, porém abaixo da inigualável cristandade ocidental; em seguida, viriam os aztecas, incas e maias do continente americano; os negros africanos ficavam no último lugar, acompanhados dos tupis, caraíbas e outros selvagens menos votados. Esta classificação, com algumas alterações aqui e ali, foi basicamente retomada pelos antropólogos evolucionistas do século XIX. Ainda em 1950, em seu livro L’Âme des peuples, o geógrafo André Siegfried retoma esta mesma classificação, reafirmando a distância "imensa" que separa os brancos dos negros e dos "vermelhos", acrescentando, porém, que, se os orientais são capazes de uma eficácia comparável à dos brancos, "eles sofrem tecnicamente de um atraso de três séculos". Vê-se, portanto, que os critérios justificatórios foram evoluindo através dos séculos, as linguagens e os métodos se alterando, mas os preconceitos permaneceram os mesmos.

Cultura de massa e marketing político

É preciso considerar, enfim, o papel do cinema e dos demais meios de comunicação de massa na formação da opinião pública e do imaginário ocidental sobre os povos do Terceiro Mundo. Durante décadas, o distinto público assistiu a filmes coloniais, nos quais os movimentos de resistência terceiro-mundistas eram convincentemente apresentados como obra de selvagens retrógrados, irresponsáveis e sanguinários. Não podemos nos esquecer da interminável e popularíssima série de filmes Tarzan, protagonizada pelo herói olímpico Johnny Weissmuller, na qual um lorde inglês reinava sobre africanos representados invariavelmente como idiotas supersticiosos e covardes. Quer dizer, a imagem dos africanos era péssima mesmo quando eles apareciam como aliados dos ocidentais. Um bom exemplo disso é Lothar, o ajudante de Mandrake, considerado por seu patrão "o homem mais forte do mundo", mas que sempre exibe uma expressão facial animalesca, ou debilóide, nunca raciocina, arregala os olhos o tempo todo, nunca toma iniciativas e sempre obedece cegamente ao seu senhor. Nos famosíssimos folhetins de Sax Rohmer, publicados em série nos grandes jornais ingleses e norte-americanos a partir de 1913, Dr. Fu Manchu, o sinistro megabandido chinês, e sua gangue internacional de perigosíssimos assassinos orientais, árabes, afegãos, xeques, mandarins e até monges tibetanos — sem esquecer, naturalmente, do africano enorme, burro e de olhos injetados de sangue — eram combatidos pelo "Defensor do Ocidente", o inteligentíssimo, distintíssimo e corajosíssimo lorde britânico, o agente da Scotland Yard Nayland, Smith. Algumas das histórias em quadrinhos mais populares no período também foram colocadas sob o signo do combate do Ocidente contra o obscurantismo de africanos, árabes e orientais. Em O Fantasma, publicada nos grandes jornais a partir de 1936, príncipes árabes mestres na arte de degolar, torturadores chineses e africanos "enlouquecidos pelo cheiro de sangue" eram combatidos por um nobre britânico, educado em Oxford, noivo de uma milionária americana, linda, gostosa, valente, generosa e solidária. Para não falar de Tin Tin, o jornalista adolescente que viaja pelo mundo todo com uma postura sempre francamente racista e arrogante, cujas aventuras foram publicadas a partir de 1929 em quase todo o mundo e hoje chegaram à astronômica marca de 120 milhões de álbuns traduzidos em quarenta e cinco idiomas.

A cultura de massa criou um mundo maravilhoso e exótico de grandes metrópoles, países distantes, florestas impenetráveis, esconderijos submersos, mulheres lindas e sensuais, homens dispostos a tudo. Lugares onde grandes fortunas se faziam e se desfaziam da noite para o dia, e onde o futuro do planeta Terra estava sendo permanentemente decidido. Desde que entrássemos naquele território, tudo seria possível, pois passávamos a viver em outras mil e uma noites, em países onde não havia lugar para o tédio. Ali, homens brancos brilhantes, heróicos, charmosos e generosos combatiam bandidos terceiro-mundistas cruéis, feios, horríveis, sanguinários, armados de suas taras atávicas, cultuando deuses hediondos, dispostos a estuprar as moças direitas, a destruir a ordem, a civilização e tudo o que existisse de bom e decente na face da Terra. No início deste ensaio, eu dizia que, desde que o cinema tornou-se um grande espetáculo de massa, os povos do Terceiro Mundo passaram a ser representados nas telas como uma aberração humana, e seus movimentos políticos e religiosos como uma ameaça para a humanidade. Na verdade, o cinema deu uma nova e vigorosa roupagem a uma imagem que as elites européias e suas filiais norte-americanas faziam de si próprias há muito tempo. O cinema reproduziu mentalidade, valores, sentimentos, convicções, criando uma cultura de massa que funcionou como um dos pilares de sustentação da hegemonia do Ocidente. Antes que a grande crise dos anos 60 viesse abalar todas essas certezas, essa mitologia reinou soberana. A revolta dos Mau Mau, tal qual é representada em Simba, encaixava-se perfeitamente neste quadro e correspondia exatamente à imagem difundida em todas as mídias. É natural que o movimento Mau Mau passasse a ser considerado mais uma tentativa funesta daqueles eternos selvagens, sanguinários e ignorantes, que qualquer um conhecia "de cor e salteado".

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