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Olho da História No. 3 Página Principal

 

Meus documentários sobre Canudos

Entrevista com Paulo Roberto Ribeiro (Pola)

Oficina Cinema-História: Por que a opção por realizar vídeos? E por que vídeos históricos?

POLA: Eu fui levado a fazer vídeo, cinema porque sempre gostei de estar em lugares diferentes; isso me dá prazer. Por essa razão, fui trabalhar com investigação: realizar vídeos históricos é um processo de investigação. Os vídeos que fiz foram, acima de tudo, investigação.

OC-H: Por que a escolha do tema Canudos?

POLA: Tenho um interesse muito grande pela história e, em especial, pelo tema Canudos. Fui instigado ainda jovem quando ganhei um exemplar antigo de Os sertões de Euclides da Cunha, grande referência sobre Canudos. Depois disso, fui a Canudos, a convite de um amigo, Jorge Alfredo (fotógrafo e roteirista) para fazer um trabalho sobre a história de Canudos para a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que se chamaria A República de Canudos. Então, juntamos fitas emprestadas e montamos uma equipe. Quando chegamos a Canudos, ficamos surpresos com a clareza e objetividade com que se expressavam as pessoas e fomos nos emocionando e nos envolvendo com o tema. Parecia que estávamos diante das pessoas que há cem anos haviam lutado ao lado de Conselheiro contra o Exército brasileiro. Isso modificou muito a nossa idéia original sobre o documentário, sobretudo, no que se relacionava à possibilidade de "ficcionar" com as pessoas. Também deflagrou um desejo imenso de conhecer mais a história de Canudos. A partir de então, começamos a pesquisar mais sobre Canudos (passado) através de Canudos (presente). De lá para cá, não paramos mais de filmar em Canudos.

OC-H: Por que o nome A República de Canudos?

POLA: A República de Canudos! Esse nome foi dado porque o vídeo seria exibido na TV Educativa como parte das comemorações do centenário da República, em 1989. Como estávamos falando da comemoração da República, decidimos fazer um trocadilho, um jogo de palavras: a República de Canudos compreende as pessoas que hoje vivem no sistema republicano e que moram em Canudos. Jogamos com a contradição existente entre República e Canudos.

OC-H: Quais foram os outros vídeos que você produziu sobre Canudos? E como você conseguiu colocar esses projetos em prática?

POLA: Na verdade, foram três vídeos. Mas ainda realizei um filme, um pouco depois. O primeiro, como já mencionei, era um projeto que a UNEB estava desenvolvendo. Era um trabalho para captação de recursos junto ao Canadá. O objetivo do vídeo era divulgar o Projeto Canudos. Era a universidade indo ao sertão! Com roteiro de Jorge Alfredo, A República de Canudos foi feito com recursos próprios, fitas emprestadas e foi editado na TV Educativa. Nós trocamos essa edição pela exibição a nível nacional.

No ano seguinte à sua conclusão, passamos a nos dedicar a exibi-lo para a comunidade local. Eles já tinham assistido o vídeo nas duas vezes em que foi exibido pela TV Educativa. Mesmo assim, nós o exibimos em um telão e depois participamos da comemoração que eles fizeram. E, ao passo que o exibíamos, filmávamos mais.

Numa outra oportunidade, fui convidado para participar de uma Semana de Cultura em Canudos, e levei um equipamento, meu mesmo, com o qual filmei, em S-VHF. Com esse material, editei outro vídeo, esse por minha conta, chamado Caderneta de campo, realizado sem roteiro. O título é uma referência a Caderneta de campo de Euclides. Esse vídeo é um pouco de tudo: o pensamento de professores e intelectuais que estavam discutindo Canudos; a participação da comunidade sertaneja; a presença do Exército que ali ainda era uma coisa muito forte (eu tive uma grande surpresa, pois, durante a Semana de Cultura, fiquei hospedado num acampamento do Exército).

No ano seguinte, retornei a Canudos para as comemorações do centenário de chegada de Conselheiro a Belo Monte. A UNEB fez uma concorrência para fazer um vídeo. A Trukec (uma empresa de produção de vídeos de um amigo meu) entrou na concorrência, ganhou e então fizemos um outro vídeo que se chama Utopia e que conta com a participação de diversos pesquisadores sobre Canudos e com imagens de várias manifestações artísticas.

Numa outra oportunidade, quando mostrei meu trabalho a Jean-Claude Bernadet, ele me falou de um projeto do Instituto Goethe que estava convidando pessoas para apresentarem roteiros de filme sobre Canudos. Eu fui lá e o meu foi selecionado. Era um trabalho para a televisão alemã.

OC-H: Que repercussões esses vídeos tiveram e como se deram os processos de divulgação e distribuição?

POLA: A República de Canudos teve repercussão nacional, pois, como já havia mencionado, foi exibido duas vezes pela TV Educativa, o que foi excelente. Na Bahia, pelo menos vinte mil pessoas assistiram ao vídeo. Além disso, realizamos um lançamento e ele foi exibido em muitas escolas e nas universidades. O próprio pessoal de Canudos ajudou a divulgá-lo. Quanto às vendas, vendemos em torno de quatrocentas fitas. Os outros tiveram uma repercussão menor.

OC-H: Mas, como você acredita que esses vídeos atuaram na população de Canudos?

POLA: As pessoas ficaram mais fortes. Você vai vivenciando os personagens e percebendo. Antes, logo que terminou a Guerra, as pessoas da região nem falavam no assunto. Falar que era um jagunço, que era um canudense, que tinha escapado da aldeia, era "confessar" ser um pária, era ficar sujeito a ser morto depois, ser delegado a um segundo plano, era ser um fanático, um dos loucos de Conselheiro. Então as pessoas não falavam. Logo depois, veio Os sertões que se tornou um clássico da literatura brasileira e amansou as possibilidades das pessoas falarem um pouco. Mas, durante cinqüenta anos, o que existiu sobre Canudos foi Os sertões, e, depois, as pesquisas do professor Calasans. Com o tempo, outros pesquisadores também foram se interessando pelo tema. Mas agora, com a possibilidade de realizar novas versões com a linguagem visual, essa história pode ser contada de uma maneira diferente e alcançar um número mais elevado de pessoas. Essa nova linguagem traz uma contribuição muito grande ao estudo e à divulgação da história de Canudos.

OC-H: Em sua opinião, um vídeo que se ocupa de fenômenos históricos tem mais comprometimento com a história ou com a arte?

POLA: Eu acho que os vídeos históricos têm o compromisso de jogar com informações de uma forma envolvente e criativa. Eu acho que a melhor maneira de realizar um vídeo histórico é ter um compromisso com o espectador. Não se deve mentir e nem tentar explicar tudo. O vídeo tem a função de discutir, de levantar questões e depois de incitar debates.

Eu acho que comprometimento é não se levantar suspeitas escandalosas, que não se acredita que sejam verdadeiras. Não acredito nessa coisa de "realidade". Cada historiador escreve o que pensa ser verdadeiro, dentro da sua crença, de acordo com o seu ponto de vista. Euclides foi fiel com a história: chegou perto do acampamento; viu como as coisas estavam acontecendo e contou a história de Canudos com veracidade, acreditando de fato no que contava. Então, eu acho que a história tem sempre essa coisa do ponto de vista de quem conta. Mas quando a gente se dispõe a fazer um vídeo, a arte exige sensibilidade. Mas essa coisa da arte é hoje muito questionável. Vídeo e cinema são processos muito industriais para serem apenas arte. Mesmo naqueles em que a arte parece estar presente, não dá para se ter certeza. Mas uma coisa é certa, para ser arte tem que haver sensibilidade, criatividade, linguagem verdadeira. Quando a linguagem se adapta ao desejo do cliente, aí, não tem arte mesmo!

OC-H: Você utiliza muito em seus vídeos o recurso dos relatos orais. Até que ponto, na sua opinião, esses relatos conseguem reconstituir a história de Canudos ao longo dos vídeos?

POLA: Eu acho que nenhum depoimento é real; para mim, todo depoimento é filtrado. As pessoas se expressam valendo-se de seus interesses. E eu não descarto isso. Geralmente, os relatos são maiores do que aquilo que se vê no vídeo pronto. Você fala com as pessoas às vezes dez minutos, meia hora e edita apenas quinze, vinte, trinta segundos. Muitas vezes, temos até vontade de colocar todo material bruto, em disposição da pesquisa. Para o historiador, não é apenas aquilo (o pequeno trecho) que interessa, mas tudo. Mas para o ritmo do meu vídeo, interessa só o cara dizer assim: "A guerra foi sangrenta demais"; daí eu pego a informação dele, decomponho e faço o meu discurso. Daí, a história que se reconstitui é aquela em que eu acredito.

OC-H: Você vê alguma ligação entre o movimento de Canudos do século passado e a situação do sertão de Canudos, hoje?

POLA: Sim. Apesar de achar que fazer ligação direta das coisas é meio complicado, eu vejo que o problema da terra não mudou. Se for comparar o movimento de terra hoje em Canudos com o daquela época, vemos que de fato há uma continuidade. Eu não consigo não ver semelhança, pelo contrário, vejo toda semelhança.

OC-H: Você acredita que seu trabalho tem alguma ligação com os seus posicionamentos políticos?

POLA: Tem. Eu acho que as coisas devem ser menos divididas, mais compartilhadas. Acredito em um mundo mais feliz, sem as pessoas estarem excluídas das possibilidades de prazer, de lazer, de conhecimento, de informação. Meus vídeos também se relacionam com isso. Quando eu me envolvo com um trabalho, esse trabalho tem a ver comigo, diretamente.

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