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Olho da História No. 3 Página Principal

 

Jenipapo

Por Cristiane Nova

A questão agrária volta a assumir um papel central nos destinos dos povos ditos subdesenvolvidos. Terra é como pão e liberdade. Sem ela, não pode existir humanidade. E isto não apenas como valor ético, mas pensando-se também pensando-se na existência física do ser humano. Desse modo, a questão da terra nunca deixou de ter centralidade para a reflexão sobre os destinos da história, mesmo se a sociologia acadêmica não atribui a ela o valor modístico que outros temas adquiriram nos últimos anos.

Se, nos países avançados industrialmente, a questão da terra não se coloca, hoje, com tanta ênfase, como a questão do trabalho, por exemplo, na América Latina, na África e na Ásia, ela permanece com uma importância muito acentuada, em alguns casos superior mesmo ao trabalho assalariado. Na América Central, a Revolução Sandinista, e, agora, a zZapatista, reacendem a problemática fundiária. E, no Brasil, a importância que vêm assumindo os "festejos" sobre Canudos é apenas emblemática da verdadeira questão camponesa de hoje. Há mais de uma década, milhares de brasileiros da zona rural, sem a posse de propriedades que lhe garantam o sustento, agitam-se e organizam-se em movimentos que objetivam a conquista da terra. Enfrentando a oposição, na maior parte das vezes violenta, dos detentores das terras e mesmo das autoridades governamentais, esses homens vêm desenvolvendo uma luta árdua e sangrenta, com avanços e muitos "recuos", e que, cada vez mais, ocupa um lugar central no seiointerior da nossa sociedade, a ponto de sair do "desconhecimento" público e penetrar, em cheio, no domínio da mídia. Todos os dias, os "sem-terra" fazem-se presentes nos principais noticiários da televisão, nos jornais das grandes capitais, nas revistas de grande circulação e, até mesmo, em novelas das grandes emissoras e nas telas de cinema. No entanto, essa presença nas "manchetes nacionais" não se dá de forma ingênua ou descomprometida. Os sem-terra são mostrados, na maior parte das vezes, como "invasores malfeitores", "usurpadores da propriedade alheia" que empreendem uma luta injusta, ilegal e irracional contra proprietários. Estes, diferentemente, com raras exceções — aqueles proprietários que comandam ações assassinas noticiadas nas mídias, como, por exemplo, a que ocorreu em Corumbiara — são apresentados como pessoas bem intencionadas e dispostas a negociar e "conceder", se for o caso, "em atos de "caridade", porções de suas propriedades. Praticamente, nenhum setor organizado da sociedade, nem mesmo os partidos de esquerda, teêm fornecido um apoio sólido a esses movimentos que são, na verdade, os únicos que, atualmente, se colocam contra a ordem vigente e empreendem uma luta efetiva, diferentemente, por exemplo, da atuação partidária e sindicalista que, cada vez mais, caminham no sentido da negociação, do "cupulismo" e das concessões, distanciando-se de suas bases e das aspirações do real movimento social.

Foi aproveitando-se da efervescência em torno do conflito dos sem-terra, que o diretor construiu o roteiro do filme Jenipapo, uma ficção, passada na região do recôncavo baiano, que narra a história de um jornalista que, durante todo o enredo, encontra-se em busca de uma entrevista com o padre Steven, eminente defensor — radical e assumido — da causa dos sem-terra.

Apesar da problemática dos sem-terra não ser abordada diretamente, seu tratamento é interessante porque coloca alguns pontos importantes para a discussão sobre o fenômeno. As causas do movimento não são discutidas, assim como também não o é a sua organização interna. Mas o movimento não é mais caracterizado de forma negativa, rompendo-se ainda a mística dos "proprietário" como vítimas de um processo de usurpação violenta e irracional. Pode-se afirmar mesmo que o movimento dos sem-terra é apresentado como legítimo em suas aspirações.

Jenipapo aborda um outro ponto pertinente da discussão que diz respeito à participação de setores da Igreja Católica no movimento, ofato que se verifica, de fato, sobretudo quando se pensa nas origens passadas do movimento, com as Comissões Pastorais da Terra ou mesmo as Ligas Camponesas. No entanto, a abordagem do filme, que atribui o papel de liderança do movimento a um padre — e, portanto, a alguém de fora do movimento —, não contempla totalmente a realidade atual que tem assistido aà emergência de lideranças que emergem doe dentro interior do próprio movimento. Estas, cada vez mais, propõem um avanço em relação à estratégia defendida, em geral, defendida pelos setores de esquerda da Igreja, e um enfrentamento radical dos problemas da terra, não dependendo apenas de processos jurídicos e parlamentares. Além disso, o filme passa — infere — a idéia de que a solução para os problemas dos sem-terra encontra-se nas ações institucionais que só se concretizarão por meio de pressões populares e dos setores que apóoiam o movimento e não nas ações diretas de ocupação das terras. A aprovação, pelo Congresso, da lei que _________________________, que é aprovada devido à repercussão da entrevista do padre Steven forjada por ___________, é um exemplo no filme do que falamos. Mas a realidade da participação dos defensores de uma mudança no Congresso Nacional ainda é pequena, e talvez se possa afirmar, nesse ponto, que o diretor toma seu desejo por realidade. Mesmo se esse desejo correspondesse ao processo do real institucional e constitucional, restaria ainda a demonstrar a capacidade legalista dos grandes proprietários de terra no Brasil, o que, de fato, até o presente, a história tem desmentido.

A história foi testemunha de casos nos quais ações institucionais foram encaminhadas em conseqüência de pressões provocadas por denúncias, por ações pacíficas ou mesmo por negociações. No entanto, nesses casos (poucos), as medidas tomadas se mostraram insatisfatórias, irrisórias, muitas delas não saindo sequer do papel. Obviamente, os setores dominantes da sociedade não estão dispostos a abrir mão, em hipótese alguma, dos "sacrossantos" direitos da propriedades — a não ser que sejam obrigados — em prol da satisfação das necessidades de parcelas pobres da população, seja por meio de denúncias ou de negociações. No máximo, alguns poucos serão beneficiados, através da "doação de migalhas" pela via da "caridade", via esta que se tem se mostrado bastante útil, ao longo da história: "matar a fome de alguns para conter a fúria de milhões". Mas o problema dos sem-terra e dos milhões de despossuídos, — sejam do campo ou da zona urbana — manter-se-á intacto. Esta na hora dos proprietários das terras enxergarem com outros olhos a grande parcela deos sem-terra que habita esse Brasil, que se encontra do lado de fora das suas cercas, visto que esta convivência realmente tem limites!

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