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ANTUNES, Ricardo. Resenhado por Rosa Maria Marques O livro de Ricardo Antunes é, sem dúvida, um sucesso de público. Lançado em setembro de 1995 com uma tiragem de 1.500 exemplares, encontra-se hoje já em sua terceira edição. Certamente, o interesse existente sobre o tema e a forma como o texto está estruturado, possibilitando sua fácil utilização em cursos de Sociologia, Economia e Política, entre outros, contribuíram para viabilizar sua rápida vendagem. Estará a classe-que-vive-do-trabalho desaparecendo? A retração do operariado tradicional, fabril, da era do fordismo, acarreta inevitavelmente a perda de referência do ser social que trabalha? Que repercussões as mudanças do mundo do trabalho estarão provocando nos sindicatos? A categoria trabalho não é mais dotada do estatuto da centralidade, no universo de práxis humana existente na sociedade contemporânea? Estas são as perguntas perseguidas pelo autor. O pano de fundo é formado pelo processo de globalização, pela difusão acelerada das novas tecnologias nos processos de produção e pela presença do toyotismo, que expressa a forma mais acabada da organização do trabalho almejada pelas empresas. O livro está estruturado em quatro partes. Na primeira, sob o título Fordismo, toyotismo e acumulação flexível, Antunes inicia recuperando a visão de importantes pesquisadores a respeito das experiências recentes do processo de produção e trabalho. Nesse ponto, a questão central é, mais uma vez, discutir se elas superaram a organização fordista e qual sua potencialidade de generalização. Para o autor, o toyotismo é a experiência com maiores chances de se propagar. Exatamente por isso constitui um grande perigo para os trabalhadores, especialmente para os europeus. Sua adoção coloca em questão, entre outras conquistas, o Welfare State, pois esse modelo está "muito mais sintonizado com a lógica neoliberal do que com uma concepção verdadeiramente social-democrata". Lembra também, embora rapidamente, que, para se estabelecerem as atuais relações entre capital e trabalho no Japão, foi necessário que as empresas empreendessem uma repressão feroz contra o movimento dos trabalhadores. Apesar de não explorar muito esta questão, fica claro que a introdução do toyotismo apóia-se numa correlação de forças desfavorável aos trabalhadores. Talvez, por isso, refute veementemente a possibilidade de modelos do tipo japonês, mesmo que revestidos de tintura social-democrata, poderem garantir, simultaneamente, eficiência e eqüidade. A segunda parte do trabalho de Antunes trata das metamorfoses no mundo do trabalho. Ao contrário de outros autores, defende que as alterações tais como redução do número de trabalhadores fabris, crescimento do emprego em serviços, qualificação, desqualificação e fragmentação da força de trabalho, entre outros não configuram uma tendência que pode ser generalizada e que caminha numa só direção. Para ele, trata-se de uma "processualidade contraditória e multiforme" que permite dizer que "nem o operariado desaparecerá tão rapidamente e, o que é fundamental, não é possível perspectivar, nem mesmo num universo distante, nenhuma possibilidade de eliminação da classe-que-vive-do-trabalho". A crise contemporânea dos sindicatos é o centro da atenção da terceira parte do livro. Antunes demonstra que o processo de fragmentação, heterogeneização e complexificação da força de trabalho questiona a permanência da organização sindical tradicional, construída com base no segmento estável dos trabalhadores. Dessa forma, as taxas cadentes de sindicalização, mais do que expressar o resultado do emprego, indicam a dificuldade de os sindicatos representarem um conjunto dos trabalhadores que têm em comum somente o fato de viverem do trabalho. Quais são os desafios que se apresentam para os sindicatos? Além de fazerem frente ao movimento do toyotismo, necessitam abandonar a estrutura verticalizada pela horizontalizada e, sobretudo, "avançar para além de uma ação acentuadamente defensiva e com isso auxiliar na busca de um projeto mais ambicioso, que caminhe na direção da emancipação dos trabalhadores". Talvez o aspecto mais questionável das idéias de Antunes, nessa parte, seja sua compreensão a respeito da possibilidade dos trabalhadores precários, parciais, temporários, a que chama de subproletariados, virem a se constituir num "sujeito social capaz de assumir ações mais ousadas, uma vez que estes segmentos sociais não têm mais nada a perder". Finalmente, Antunes pergunta de que crise da sociedade do trabalho se está falando. Dadas as conseqüências teóricas e políticas que derivam das possíveis respostas, certamente a última parte de seu livro é a mais polêmica. Ao mesmo tempo, é nela que o leitor sente o peso dos argumentos que fundamentam as principais idéias defendidas pelo autor. Inicia explicitando que é absolutamente necessário qualificar a dimensão que se está considerando quando se discute a questão da crise da sociedade de trabalho. Trata-se do trabalho abstrato ou concreto? Se a crise é do trabalho abstrato, não há novidade nenhuma, pois esta se traduz na redução do trabalho vivo e na ampliação do trabalho morto, indicado por Marx como tendência do capitalismo. O problema é que alguns autores confundem essa tendência como sinônimo de perda de centralidade do trabalho, o que, como lembra Antunes, não é possível numa sociedade produtora de mercadorias. Deixar claras essas questões é fundamental, pois elas balizam as tarefas que devem ser realizadas pelos trabalhadores na construção de seu futuro. "A revolução de nossos dias é, desse modo, uma revolução no e do trabalho. É uma revolução no trabalho na medida em que deve necessariamente abolir o trabalho abstrato, o trabalho assalariado, a condição de sujeito-mercadoria, e instaurar uma sociedade fundada na auto-atividade humana, no trabalho concreto que gera coisas socialmente úteis, no trabalho social emancipado". Integram ainda o livro de Antunes alguns outros artigos que foram objeto de publicação em anais de congressos ou em revistas especializadas. Vale a pena, em especial, ler sua resenha sobre o livro de Robert Kurz, O colapso da modernização. Enfim, Adeus ao Trabalho? é para ser lido e discutido. Às vezes, sente-se falta de um maior aprofundamento das questões tratadas em suas primeiras partes, e mesmo de uma identificação entre suas conclusões e as evidências empíricas que anuncia. Mesmo assim, isso não impede que os textos sejam de ampla utilização em sala de aula e na pesquisa, podendo ser discutidos de forma independente e servindo como referência para posteriores aprofundamentos. |
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