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Olho da História No. 2 Página Principal

 

0 Qu4trilho
(1995, Fábio Barreto)

Por Cristiane Nova

Trinta e três anos após a indicação de O pagador de promessas (1962, Anselmo Duarte) ao Oscar, novamente um filme brasileiro foi indicado para a Academia hollywoodiana. Seria o resultado de um ‘renascimento do cinema brasileiro’, como prognosticam diversos críticos e produtores cinematográficos do Brasil? De fato, para um cinema que, há pouco tempo, praticamente inexistia, trata-se de um renascimento. No entanto, tal fato não transforma essas recentes produções em obras-primas do cinema, mas pode vir a significar um bom começo. 0Qu4trilho é um bom filme que, dentro de uma estrutura linear, consegue alcançar resultados positivos (direção, fotografia, atuação dos atores, em especial de Glória Pires), não obstante não apresente nada de extraordinário. Mas, como diz o ditado popular, "em terra de cego, quem tem um olho é rei", para um cinema que hibernava há quase uma década, não se deve menosprezar um despertar às portas de Hollywood! Todavia, como não somos críticos de cinema nem pretendemos realizar uma avaliação estética e técnica do filme, essas questões tornam-se secundárias para a nossa análise que, fundamentalmente, concentra-se na relação cinema-história.

Seria 0Qu4trilho um filme histórico? Sim e não, poderíamos perfeitamente responder, sem, entretanto, entrarmos em contradição. Todo filme, seja ele de que natureza for, é histórico e, mais ainda, um documento histórico. Ele faz parte do processo histórico de seu tempo e reflete, mesmo que de modo indireto ou inconsciente, a história da qual é também sujeito. Por outro lado, ele não poderia ser enquadrado no ‘gênero’, se é que podemos chamar assim, de ‘filmes históricos’, visto que o que caracteriza tal ‘gênero’ é o fato de o objeto do enredo tratar diretamente de uma temática ou de um acontecimento histórico, mesmo que ficticiamente. Poderíamos aplicar tal ‘gênero’, em se tratando de cinema brasileiro, por exemplo, a filmes como Os inconfidentes (1972, Joaquim Pedro de Andrade), Os anos JK (1980, Silvio Tendler) ou mesmo Lamarca (1994, Silvio Rezende). No entanto, essa caracterização não poderia ser aplicada a 0Qu4trilho, visto que a história integra o seu enredo apenas como pano de fundo e não como motivação central. Esse também é o caso de diversos outros filmes brasileiros, como Tenda dos Milagres (1977, Nelson Pereira dos Santos), Xica da Silva (1976, Carlos Diegues) ou mesmo Deus e o diabo na terra do sol (1964, Gláuber Rocha). Isso, entretanto, não impede que a eles seja dada uma perspectiva histórica. Dessa forma, 0Qu4trilho, não obstante não se enquadre no ‘gênero’ de ‘filmes históricos’, pode ser analisado historicamente: primeiro como documento cinematográfico da atualidade e, em segundo plano, como documento do fenômeno histórico em que seu enredo se desenrola, ou seja, a imigração européia, em especial, a italiana, no sul do Brasil. Como afirmou uma reportagem da revista Veja, 0Qu4trilho, "para a platéia brasileira é irresistível: fala de nosso país, de nossa História."

Outros filmes já abordaram a temática da imigração no Brasil, a exemplo de Diário da Província (1979, Roberto Palmar), Gaijin — Caminhos da liberdade (1980, Tizuca Yamasaki) e Vida e sangue de Polaco (1982, Sylvio Back). No entanto, nenhum deles se centrou na imigração italiana do começo do século na região sulista. Aproveitando as comemorações dos 120 anos do início da imigração, 0Qu4trilho inaugurou a temática na história da cinematografia brasileira.

O fio condutor do enredo foi dado pelo romance homônimo do escritor José Clemente Pozenato, escritor que fora padre e abandonou a igreja para trabalhar com Letras. Segundo ele, os acontecimentos narrados no livro foram fruto da adaptação literária de um depoimento passado de um amigo, que nem sequer ele sabe se era verídica, à qual não foi dispensada nenhuma preocupação ou rigor histórico. O roteiro do filme, bastante fiel ao livro, segue a mesma característica. Na verdade, o tema central do filme é a relação de dois casais de imigrantes italianos que entram numa sociedade visando a aquisição de um terreno para construção de uma fazenda. Eles acabam indo morar juntos e desenvolvendo uma relação adúltera. Teresa (Patrícia Pillar), casada com Ângelo (Alexandre Paternost) se apaixona por Massimo (Bruno Campos), marido de Pierina (Glória Pires) que, por sua vez, é prima de Teresa. Inicia-se um jogo de sedução que conduz à consumação do adultério. Com a fuga de Teresa e de Massimo, Pierina e Angelo decidem, por motivos financeiros, ficar juntos. Os dois ‘casais trocados’, como no jogo de cartas bastante difundido entre os imigrantes italianos (0Qu4trilho), conseguem obter sucesso em suas vidas e constituindo famílias bem ‘estruturadas’ na sociedade sulista brasileira. Um bom final feliz para um roteiro sem maiores complexidades e originalidades, mas bem conduzido pelo diretor Fábio Barreto.

Apesar disso, não podemos deixar de analisar a forma com que o pano de fundo histórico nos é apresentado no filme. A reconstituição histórica ambiental e de costumes (cenários, gestos, sotaque, figurinos), para as condições técnicas e financeiras do filme — não se tratou de nenhuma superprodução hollywodiana, contando com um capital de 1,8 milhão de dólares, soma relativamente alta para a média brasileira —, foi bastante aceitável. Além das filmagens realizadas em cidades do sul do país (Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Antônio Gonçalves, Farroupilha e Carlos Barbosa), nas quais foi escolhida a maior parte dos figurantes, foi construída uma réplica de uma cidade de imigrantes italianos típica do período. Até mesmo uma antiga ferrovia foi recuperada (Bento Gonçalves-Caxias do Sul), além de um moinho que foi reconstruído a partir de um original. Foram respeitados, em certa medida, os costumes das famílias imigrantes italianas, assim como seu sotaque, mesmo que, neste último ponto, o resultado não tenha sido tão convincente. Para tanto, os atores tiveram que se familiarizar com a língua e com os costumes que caracterizavam o cotidiano dos personagens. Isso pode ser perfeitamente visto nas cenas do casamento de Ângelo e Pierina, no tipo de relação que eles passaram a desenvolver no casamento, nas reuniões em sua casa, no papel das mulheres (em certo ponto, um pouco exagerado) etc.

Historicamente, o filme não aborda bem o tema da imigração italiana sulista da primeira metade deste século. Os problemas e as contradições fundamentais desse processo não foram abordados, sequer superficialmente. A imigração é mostrada como uma empresa relativamente fácil, da qual, apenas com esforço e determinação, os participantes sairiam vitoriosos, alcançando prestígio e riqueza. Na verdade, poucos foram os imigrantes que tiveram essa sorte. Os imigrantes, quase sempre com nenhum recurso financeiro próprio, que se direcionaram para o sul do Brasil, enfrentaram sérias dificuldades, dando de frente com uma região quase nada desenvolvida, ainda pouco habitada e sem estrutura inicial para implementação de um programa de imigração, visto que o governo, como nas tentativas anteriores de imigração na região, pouco investiu. Além disso, a distância em relação ao centro do país multiplicava suas dificuldades, inclusive no âmbito da integração cultural. É por isso que, até hoje, essa região apresenta uma cultura bastante diferenciada do restante do Brasil. Nada disso é tratado no filme. Mas será que deveria ser?

Dessa forma, 0 Qu4trilho é um filme que merece ser assistido não somente pelo seu roteiro, mas também pela sua belíssima trilha sonora (Caetano Veloso e Jaques Morelenbaum). E que ele seja visto não apenas como um bom momento do cinema brasileiro, mas ainda como um documento do ‘renascimento’ do cinematografia brasileira e, por que não, da imigração italiana da primeira metade do século no sul do país e, particularmente, dos seus hábitos, costumes familiares e nas relações com a Igreja. Esta é talvez a maior contribuição que essa película proporciona para o olhar crítico do historiador.

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