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A história como um grande romance coletivo: "O curto verão da
anarquia: Por Cristiane Nova
Alguns leitores devem estar se interrogando sobre os motivos de se escrever um ensaio sobre um livro lançado originalmente há 24 anos. A motivação principal provém da própria temática do livro, hoje realçada em virtude da "comemoração" dos 60 anos do início da Guerra Civil Espanhola. Mas essa justificativa não seria suficiente porquanto existem centenas de livros que, pela mesma razão, poderiam ser escolhidos. Na verdade, a escolha dessa obra, em particular, verificou-se em razão das qualidades intrínsecas do livro e das peculiaridades de sua forma, que, juntas, fazem-na transcender no tempo e ser merecedora de uma atenção especial. O curto verão da anarquia é uma obra que possui o mérito de realizar uma análise pertinente de um dos segmentos sociais mais influentes e mais apaixonantes da Guerra Civil Espanhola: o movimento anarquista, menosprezado pela historiografia dominante e oficial na Espanha e fora dela, mas também pelos estudos de autores da esquerda "oficial". A proposta inicial do livro é a tentativa de resgatar da "memória coletiva" a biografia de Buenaventura Durruti, um dos líderes do movimento anarquista espanhol no século XX. Mas, com um estilo bastante original, Enzensberger consegue ir além dessa proposta original e acaba por nos oferecer flashs dos importantes acontecimentos e interpretações, no mínimo provocativas, acerca dos dilemas mais profundos que marcaram a história da Espanha entre 1936 e 1939 e que levaram à derrota da Revolução e à vitória franquista na Guerra Civil. E tudo isso ele faz, dando voz à própria história, ou seja, a seus autores. Assim, ressurge das cinzas não somente o fantasma da Revolução, mas ainda aquele do papel histórico dos anarquistas tomando-se por base um exemplo concreto e a polêmica que sempre envolveu a doutrina anarquista dentro e fora do movimento operário internacional. Hans
Magnus Enzensberger: Hans Magnus Enzensberger nasceu em 1929, na cidade de Kaufbeurem, em Allgäu (Baviera). Durante sua adolescência e juventude, assistiu aos acontecimentos que marcaram a derrota nazista na Segunda Guerra Mundial e o processo de reconstrução da Alemanha, do qual participou ativamente. Como intelectual, participou dos mais importantes movimentos artísticos e literários da Alemanha pós-guerra (Grupo 47, edição da revista Kusbuch, por exemplo), também com escritores como Heinrich Böll e Günther Grass. Autor de ensaios, romances, peças e especialmente poemas, Enzensberger não pode ser caracterizado nem como filósofo, nem como sociólogo ou historiador, nem apenas como poeta. Na verdade, ele não é um acadêmico, mas também não é somente um artista. Trata-se de um "livre pensador". Não obstante essa característica abrangente de sua personalidade intelectual, o conjunto de sua obra não apresenta-se como um mosaico de abordagens superficiais, fruto de um ecletismo sem consistência, mas o resultado de um trabalho sério e dedicado e de uma percepção da realidade muito sensível. Politicamente, Enzensberger sempre teve posições de esquerda. No entanto, ele nunca se enquadrou em partidos, siglas ou qualquer outra coisa que lhe tentasse impor um pensamento e uma ação prontos, definidos, dogmáticos. Ele é um desses homens que têm repugnância pelos "istas" criados pela academia e fora dela. Acreditando no socialismo e no papel da luta de classes na história, nunca se denominou "marxista", "leninista", ou "comunista", por ter consciência das distorções que essas classificações foram objeto desde a seu surgimento. Crítico dos sistemas burocráticos ("socialistas") do Leste europeu, não poupou os intelectuais de "esquerda" que faziam vistas grossas aos mecanismos de terror, à burocratização sem precedentes e aos oportunismos da política internacional que esses Estados implantavam, diante de uma população subjugada e amedrontada. Irônico, sarcástico, iconoclasta, sempre denunciou a mediocridade dos homens pensantes da contemporaneidade, recusando as pretensas "cientificidade" e "objetividade" a que se agarram a maioria dos "acedemicistas" com suas teses de bolso preestabelecidas. Como ele próprio afirma:
Seu objeto de interesse é a realidade, tal qual ela se apresenta, com todas a sua complexidade e contradições. Para ele, as questões concretas têm uma valor mais significativo do que as abstrações teóricas. Como poeta, portanto, defende a necessidade da ligação entre a poesia e o real, negando a suposta "neutralidade" da "linguagem culta". Julgamento, envolvimento, paixão, dessa forma, tornam-se elementos indistanciáveis do homem, do cidadão e do intelectual que deseja pensar o século XX. No Brasil, recentemente, foram lançadas duas obras suas: Guerra Civil(2) e Mediocridade e Loucura e outros ensaios(3). O primeiro traça, dentro de linha bem pessimista, o perfil da Europa depois da Queda do Muro: com o fenômeno das imigrações, com a Guerra da Iugoslávia e com o desemprego crescente, a Europa viveria hoje um estado de guerra civil não declarada; com todos esses problemas sócio-políticos e econômicos, a distância entre o Primeiro e o Terceiro Mundo não estaria tão profunda como ainda imaginam certos intelectuais e chefes de Estado. O segundo livro é uma coletânea de ensaios nos quais ele analisa o papel da intelectualidade, da mídia ou da economia atual, em tom bastante irônico e sarcástico (um dos ensaios, por exemplo, intitula-se "Bilhões de todos os países, uni-vos! Observações sobre o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional"). Quanto ao O curto verão da anarquia, pode-se afirmar que ele foi o resultado do trabalho já engajado em um projeto intelectual mais amplo (de revisão e contestação) que se desenvolveu na Alemanha no pós-guerra e que Enzensberger foi um dos participantes ativos. A Espanha se encontrava nesse momento, em 1972, imersa numa crise profunda, fruto da decadência de um regime que tinha seus dias contados. O tema da Revolução Espanhola estava na ordem do dia. Lançado em 1972, provocou reações tão polêmicas quanto o próprio livro e o tema que ele aborda. No Brasil, foi lançado em 1987 e a reação que provocou não foi diferente. O curto verão da anarquia: "um livro inclassificável" "Um livro inclassificável história? ficção? colagem?". Assim referiu-se ao livro uma reportagem da Folha de São Paulo, quando da vinda de Enzensberger ao Brasil no ano passado(4). Essa referência, mesmo que parcialmente equivocada, permite elucidar o perfil polêmico do livro em foco. Auto-caracterizado como romance biográfico do anarquista espanhol Buenaventura Durruti, o livro pode ser dividido em duas partes: a primeira (a maior) compõe-se de encadeamentos de trechos de depoimentos de testemunhas, de documentos, de reportagens de jornal etc, classificados em capítulos temáticos que são dispostos no livro por ordem cronológica (vida de Durruti - 1896/1937), excetuando-se o primeiro capítulo, que é uma descrição do seu enterro; a segunda parte é composta de comentários do autor (que não somam 50 páginas num total de 323) sobre as principais questões que marcaram a Espanha do fim século XIX ao término da Guerra Civil, que são intercalados entre os outros capítulos. Apesar do livro ser composto, em sua maioria, de trechos diversos, e, muitas vezes, contraditórios, de depoimentos e recortes de documentos, à medida que a leitura flui, percebe-se que a soma desses trechos vai adquirindo um sentido próprio e coerente, que é melhor fixado com os comentários do autor. Na verdade, o que se observa é que, não obstante os depoimentos se refiram quase todos à pessoa de Durruti, o protagonista principal do "romance" não é o próprio Durruti, mas o movimento anarquista espanhol como um todo e seus dilemas, limitações e contradições, o que não significa que a vida de Durruti seja anulada e se perca sob o "peso da história", recriada por Enzensberger como um libelo antimetodológico. As fontes utilizadas pelo autor foram os depoimentos de testemunhas e sobreviventes do período (entrevistas realizadas por ele mesmo) das quais, igualmente, foi retirado o material para a realização de um filme sobre Buenaventura Durruti e os documentos primários disponíveis no período. É necessário lembrar algo da maior importância: no momento em que o livro foi escrito, os arquivos da Espanha ainda se encontravam inalcançáveis aos historiadores, mas sob o controle do regime franquista, fato que dificultou a realização de uma pesquisa mais vasta. Toda a pesquisa realizada pelo autor foi auxiliada por uma equipe de pesquisadores do Instituto Internacional de História Social de Amsterdã. Uma visão quase cética da História No primeiro comentário do livro, Enzensberger expõe brevemente sua visão da história, esta entendida enquanto processo e enquanto atividade intelectual de pesquisa e descrição do real. Recusando toda a historiografia tradicional dos "grandes homens", dos "grandes acontecimentos", da "objetividade científica", ele enxerga a história "como um romance coletivo". Quem são os verdadeiros atores da história? O povo, a multidão anônima que vive o dia-a-dia. Daí a importância dada por ele à história oral, ao resgate dessa memória coletiva. Nas palavras do próprio Enzensberger:
E, pelo fato de que não existe uma objetividade alcançável,
A história, dessa forma, não seria outra coisa senão uma "ficção coletiva" e o significado "documento histórico", portanto, esvazia-se completamente de sentido. Nessa direção, Enzensberger vai ao encontro de teses historiográficas que negam o estatuto científico da história. No entanto, não se pode negar, mesmo que o autor assim o deseje, que O curto verão da anarquia seja o resultado de um trabalho de investigação e de síntese historiográfica e científica. É necessário visualizar que, para além dos depoimentos e dos testemunhos, por sua vez realmente muito contraditórios, o autor realiza no interior do livro uma interpretação baseada na pesquisa e na avaliação de fatos que acredita serem verdadeiramente históricos, o que contradiz a relativização quase absoluta da "verdade histórica" que ele acaba defendendo. A defesa da relativização absoluta da "verdade histórica", por descaracterizar o passado e justificar quaisquer atos presentes, só pode ser coerente com formas de pensamentos reacionários e oportunistas, defensoras da "neutralidade" do presente em nome da anulação do passado. E esse não é o caso de Enzensberger que peca por não perceber, no fundo, uma máxima que mesmo as ciências ditas exatas hoje já admitem: objetividade absoluta não é sinônimo de cientificidade. Anarquismo e Revolução na Espanha Enzensberger oferece um painel breve, porém coerente, da Espanha no início do século: ela era um país majoritariamente agrícola, onde o sul era dominado pelos latifundiários, e no norte, a maior parte das terras eram divididas em pequenos lotes cujos arrendatários viviam a beira da miséria. A única região que de fato já havia passado por um processo de industrialização era a Catalunha pólo mais rico e desenvolvido de toda a Espanha. No entanto, grande parte do seu parque industrial se encontrava nas mãos do capital estrangeiro. Dessa forma, a Espanha não havia conseguido formar uma burguesia forte e unida, capaz de impor sua hegemonia ao restante do país. Em razão da sua fraqueza, ela, para garantir seus interesses, aliava-se aos latifundiários, à Igreja e à Monarquia, verdadeiras forças políticas da Espanha. A Igreja ainda se mantinha como uma potência política e econômica muito atuante na Espanha. A influência ideológica que ela exercia na quase totalidade da população ainda era decisiva, não obstante sua popularidade estivesse decaindo dia após dia em consequência da crescente ostentação de riqueza que ela opulentava, dos escândalos de corrupção que irrompiam nos olvidos do povo e das posturas cada vez mais reacionárias que ela adotava. A partir de 1936, com a apropriação das terras comunais efetuadas pelos latifundiários, iniciou-se a formação de um numeroso exército de proletários agrícolas, que, nas épocas de colheita, ganhavam jornadas de trabalho miseráveis e, durante o restante do ano, permaneciam desempregados perambulando pelas cidades. Grande parte desses proletários agrícolas acabou migrando para as regiões mais industrializadas da Espanha para compor a mão-de-obra necessária ao funcionamento das indústrias. Na Catalunha, por exemplo, mais de 50% dos operários provinham do campo, fato que favoreceu a criação de um subproletariado não especializado. A Monarquia, assim como os setores reacionários da sociedade, já não conseguia mais dar conta das contradições de classe que agudizavam uma Espanha que era considerada então o "quintal" da Europa. A polaridade cada vez mais extrema da sociedade e as posições políticas adotadas pela Monarquia impulsionavam o surgimento de movimentos contestatórios tanto por parte dos proletários quanto da fraca pequena-burguesia que emergia. A miséria da situação em que vivia grande parte da população espanhola teria então canalizado um ódio sublimado por séculos, direcionando-o para a Igreja e a Monarquia, símbolos maiores da opressão e da ostentação. Teria sido nesse ambiente, portanto, que surgiram os movimentos sociais de contestação. No segundo comentário do livro, intitulado Origens do anarquismo espanhol, Enzensberger relata a chegada do anarquismo na Espanha e seu desenvolvimento até às vésperas da Guerra. A Espanha, como afirma, foi o único país europeu onde o anarquismo fincou raízes profundas. Chegando lá no final do século XIX, seu sucesso foi "instantâneo e estrondoso". Os levantes camponeses de 1873 da Andaluzia, por exemplo, segundo o autor, já teriam sido conduzidos por dirigentes anarquistas, que logo se decidiram por Bakunin em detrimento de Marx. Enzensberger, por sua vez, não esclarece no livro as causas desse sucesso do anarquismo na Espanha, ainda que cite explicações de outros estudiosos. Uma destas sugere que esse sucesso tenha sido fruto da canalização do sentimento de religiosidade do povo espanhol para a causa anarquista, como resultado das desilusões com Igreja católica e do crescimento das discrepâncias sociais. O anarquismo, com sua "expectativa ingênua, mas inabalável, de uma revolução muito próxima e total"(5), substituiria o reino dos céus (destruindo-o ao mesmo tempo) por um reino na terra. A esse respeito, o autor afirma:
Essa explicação acerca do caráter religioso do anarquismo poderia ser completada pela origem dos ativistas espanhóis. Estes, enquanto, na sua maioria, proletários agrícolas e subproletários urbanos, por conseguinte carentes de formação, não tinham as condições ideais para realizar raciocínios e abstrações teóricas complexos ; uma ideologia direta e simplista como a do anarquismo aparecia aos trabalhadores muito mais acessível do que o marxismo, por exemplo. Uma outra explicação sugerida pelo livro diz respeito às aspirações regionalistas (descentralizantes) de várias regiões da Espanha, em especial a Catalunha e o País Basco, que não viam com bons olhos a subida ao poder de um partido rígido e centralizado, ao estilo do Partido Comunista, e muito menos a instalação na Espanha de uma "ditadura do proletariado". Enzensberger rebate muito bem as vertentes historiográficas que enquadram o anarquismo enquanto um movimento retrógrado que resistia aos avanços capitalistas. Os anarquistas, para ele, nunca foram "destruidores de máquinas" e, isso seria comprovado pelo fato de que, com o despertar da Revolução e a tomada das forças produtivas pelos operários, as fábricas não fecharam suas portas. Ele relata os fatos mais importantes que marcaram a trajetória anarquista na Espanha, a exemplo da criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores (CNT), organização sindical espanhola que, segundo o autor, foi "a única central revolucionária do mundo". Seu único objetivo teria sido a "guerra permanente dos assalariados contra o capital". Sua singularidade estaria no fato dela não possuir reservas financeiras e nem um aparelho burocrático e, em conseqüência disso, de seus dirigentes não se isolarem das massas. Seus meios revolucionários iam "da autodefesa à sabotagem, da expropriação à revolução armada". Em 1927 (durante a ditadura de Primo de Rivera), foi formada, no interior da CNT a Federação Anarquista Ibérica (FAI) que, segundo ele, era "um movimento de massas espontâneo dirigido por um grupo sólido de profissionais atuando na clandestinidade" e representava a fração mais radical da CNT. Esse modelo de organização seguia a risca os ensinamentos de Bakunin. Avaliando todas as características da organização do movimento anarquista espanhol, o autor afirma que
No entanto, é necessário compreender que os limites do anarquismo enquanto doutrina revolucionária ultrapassam a inexistência de um planejamento central nos seus modelos de organização. Na verdade, o mais grave problema do anarquismo reside na postura adotada por ele em relação ao poder, elemento essencial em qualquer movimento revolucionário. Como realizar uma revolução sem admitir a possibilidade de tomar o poder e conservá-lo nas mãos dos trabalhadores? Como eliminar o poder das classes dominantes sem substitui-lo? O que fazer após a tomada das terras e das fábricas? Essa questão, todavia, apesar de tratada no final do livro, é pouco analisada por Enzensberger. Essa é uma contradição da qual o anarquismo nunca conseguiu, nem poderia, se desvencilhar. Isso comprometeria toda a essência de sua doutrina e ela desmoronaria no vazio. Essas questões foram decisivas para o futuro da Revolução Espanhola, visto que, em 1936, o anarquismo era inegavelmente o único movimento revolucionário com forças suficientes para dar início a um processo de revolução no território espanhol, onde nunca houve espaço para o desenvolvimento de um partido aos moldes leninistas. Outra vertente do movimento operário espanhol se concentrou em torno do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), organismos que representavam a social-democracia na Espanha. Ela desempenhou, na Espanha do início do século, um papel similar ao desenvolvido pelo restante dos social-democratas europeus do período: permanecer indecisos até a tomada do poder ou pela direita ou pela esquerda. Essa também é a avaliação realizada por Enzensberger no livro, ao analisar a social-democracia espanhola. Como representante da pequena burguesia, a social-democracia jamais poderia apoiar uma revolução que visava destruir as bases da sociedade capitalista; mas também, graças a sua essência "liberal", não poderia apoiar os partidos da direita, pelo menos abertamente, durante todo o tempo. Enzensberger lembra, por exemplo, que Largo Caballero, principal líder da social-democracia espanhola durante a Guerra Civil, havia participado do ministério do governo do ditador Primo de Rivera(8), mas foi obrigado a se radicalizar quando do levante franquista. Mas como era composta por uma força social politicamente bastante inexpressiva (a pequena-burguesia), a social-democracia espanhola viu-se obrigada a voltar-se para a esquerda visando a conquista do apoio popular. Mas seu "esquerdismo" não possuía nenhuma sustentação ideológica ou de princípios. Quando necessitava do apoio popular, sabia perfeitamente demonstrar seu "lado revolucionário". Mas quando alcançava seus objetivos, não tinha escrúpulos em "esquecê-lo". Quando lhe era conveniente, também estabelecia alianças com a direita, permitindo que movimentos verdadeiramente revolucionários fossem aniquilados violentamente, ou seja, passando para terceiros o trabalho sujo que ela muitas vezes não se atrevia realizar abertamente. Sem um apoio sólido da direita ou de uma burguesia consolidada, a social-democracia não têm como se sustentar no poder. Nos momentos em que sobe ao poder, acaba por acelerar um processo de polarização (radicalização) das forças sociais porquanto não consegue corresponder aos anseios da direita nem muito menos da esquerda, desagradando ao mesmo tempo aos dois. E foi exatamente isso o que ocorreu, por exemplo, durante a Revolução de Fevereiro na Rússia e durante a II República na Espanha. No entanto, ao passo que na Rússia a Revolução saiu vitoriosa, na Espanha foram os partidos de direita que levaram a melhor. Enzensberger, não obstante critique duramente a política da social-democracia, não leva suas análises até as últimas conseqüências. Após descrever a agitação revolucionária que marcou a Espanha entre os anos 1917-23, Enzensberger passa a relatar a agonia final de uma Monarquia em crise, que não conseguia por um fim no estado de guerra civil não declarado em que se encontrava a Espanha, e que recorre à ditadura pessoal de um homem forte, Primo de Rivera (1923-30). Mas a Grande Crise (1929) teria ruído a frágil estabilidade da ditadura de Primo e o resto das forças da Monarquia. A partir desse momento, teria-se iniciado na Espanha a luta decisiva entre as diversas forças sociais espanholas que culminaria na Guerra Civil. Em 1931, a Monarquia despecou do pedestal sem ao menos um trovejar de canhões. A República ressurgiu na Espanha pacificamente (sem derramamento de sangue), como o resultado de uma frágil aliança entre os partidos de centro (liberais) e a social-democracia que, juntas, se opuseram a uma Monarquia semimorta, que, sob a primeira ameaça, fugiu aos prantos. As organizações de esquerda foram novamente legalizadas e os presos políticos libertados. Os dois governos que marcaram a curta II República não conseguiram resolver as contradições socias espanholas. O primeiro, liderado pelos partidos de centro e pela social-democracia, ao não conceder as prometidas reformas à povo espanhol e adotar uma política "democrática" e liberal, liberaram os instintos rebeldes tanto da direita reacionária quanto do operariado, cada vez mais radical. A vitória da direita nas eleições resultado da campanha de abstenção eleitoral promovida pelos anarquistas para o segundo governo republicano foi a conseqüência direta do descontentamento da população frente à política reformista republicana. Mas o bienio negro, como ficou conhecido esse violento período da história espanhola, não conseguiu esmagar as forças revolucionárias, como de fato objetivava, muito pelo contrário, como bem atesta a explosão da Revolução de Outubro Asturiana(9). O aumento exacerbado do terror (a maioria dos dirigentes políticos de esquerda, dentre aqueles que não haviam sido assassinados, encontrava-se presa) levou a CNT a congelar sua tática de abstenção eleitoral. Sem o seu boicote, uma nova aliança (Frente Popular) entre a social-democracia e os partidos de centro, apoiada desta vez pelo pequeno Partido Comunista Espanhol (PCE)(10), conseguiu vencer as eleições de 1936, mesmo assim por uma pequena margem de votos. No entanto, nesse momento, a direita espanhola já havia readquirido forças suficientes para deferir o contragolpe na República e tentar colocar um ponto final no barulho revolucionário. Nada disso, entretanto, é abordado de modo aprofundado no livro, no qual apenas é dada uma linha geral do curso dos acontecimentos. De acordo com o autor, o objetivo maior da direita ao tomar a iniciativa de aplicar um golpe na República era cortar pela raiz (à força) todas as possibilidades de um movimento revolucionário na Espanha. Segundo seus cálculos, visto que contava com vantagens materiais (bélicas), em virtude do controle da maior parte das forças militares ao apoio da Itália e da Alemanha, a tomada do poder não levaria mais do que alguns dias. De fato, ela não previra que sua iniciativa, ao invés de destruir o espectro da Revolução, a faria despertar. E a partir de então, a resistência ao golpe tomaria um sentido completamente diferente, adquirindo uma força muito maior. O golpe teve início no dia 17 de julho no Marrocos e um dia depois alcançou o território espanhol. O despertar do golpe liberou as forças revolucionárias, lideradas pelos anarquistas e, em muito menor grau, pelo pequeno Partido Operário Unificado Marxista (POUM). A Espanha ficou dividida ao meio entre "golpistas" (ou "rebeldes") e "legalistas". Enzensberger mostra como, do lado "legalista", convergiam duas forças diametralmente opostas: a social-democracia e os liberais e a CNT-FAI e o POUM, criando uma situação de "duplo poder". Terras foram invadidas (algumas coletivizadas e outras redivididas), fábricas foram coletivizadas, a moeda foi abolida, Igrejas foram incendiadas ou destruídas, milícias (o exército revolucionário) foram criadas e autoridades locais (com verdadeira representatividade popular) foram instituídas. O governo republicano teve que assistir a tudo isso passivamente, legalizando parte das medidas que de fato já haviam sido tomadas pela população, visto que não tinha forças para se opor. A única alternativa que possuía era procurar deixar as milícias desarmadas e aguardar uma possível ajuda soviética. O autor realiza uma análise contundente da participação da URSS no curso da Guerra. Para ele, o "auxílio" material soviético teria custado um preço bastante elevado ao movimento revolucionário espanhol: a revogação de todas as medidas revolucionárias em nome de uma ajuda material que salvaria a Espanha do fascismo. À medida que essa "ajuda" que, na sua opinião, nem foi tão substanciosa assim chegava à Espanha, aumentava o poder e a influência do PCE no governo republicano e seu efetivo em todo o território da Espanha, complementado pela chegada das Brigadas Internacionais. A CNT-FAI, como principal pólo revolucionário, liderou desde o início todo o processo revolucionário. No entanto, no momento decisivo, recusou-se a dar os passos na direção da tomada do poder que, em virtude dessa recusa, continuou nas mão da social-democracia e dos partidos do centro. Quando estes retomaram suas forças, com a chegada da ajuda soviética, não hesitaram em destruir tudo aquilo que os anarquistas haviam construído e não tinham consumado. Enzensberger, para dar uma dimensão mais clara do alcance da contra-revolução liderada pelo PC, cita todas as medidas que foram tomadas desde a chegada da "ajuda" soviética, sem que houvesse nenhuma reação enérgica por parte da CNT, que assistiu passivamente ao recuo da revolução, visto que a única alternativa que tinha seria o avanço em direção ao poder:
Para completar o processo contra-revolucionário (a guerra civil dentro da Guerra Civil), tiveram início no começo de maio de 1937 as famosas "jornadas de maio", nas quais os comunistas invadiram as centrais telefônicas de Barcelona, que estavam nas mãos dos anarquistas, para tomá-las à força. Os operários, espontânea e imediatamente, entraram em greve geral, protestando contra as medidas lideradas pelo PCE e pelo governo. E então novamente, como afirma Enzensberger:
Aniquilada a Revolução, havia sido destruída a força da resistência popular a Franco. Nas palavras de Enzensberger, nesse momento, "a Revolução estava liquidada, o poder burguês de Estado, restabelecido, e a Guerra Civil, perdida". Contrariamente ao que havia ocorrido com as forças "legalistas", a direita havia "encontrado" a coesão necessária à vitória: Franco havia conseguido reprimir todas as oposições internas existentes originalmente entre os grupos que apoiavam o golpe (carlistas, afonsistas e falangistas), submetendo todos ao seu poder pessoal: "Um Estado. Um país. Um caudilho." Após destruir a Revolução (seu maior objetivo na Espanha) e afastar todas as forças políticas que poderiam lhe fazer face (o POUM e a FAI), a URSS não tinha muito mais a realizar na Espanha. Pouco a pouco, sua ajuda material foi escasseando e a vitória de Franco passou a ser apenas uma questão de tempo. Como conseqüência, a Revolução estava, por um período bastante longo, riscada do mapa político da Espanha. Quanto à política contra-revolucionária adotada na Espanha pela URSS, Enzensberger não poupa críticas ferozes. Adversário contundente dos regimes totalitários, ele, de fato, não poderia ser condescendente com a política rasteira adotada pelo stalinismo na Guerra de Espanha. No entanto, apesar da importância e do peso da contra-revolução liderada pela URSS no curso da Guerra, Enzensberger não atribui somente a ela a responsabilidade da derrota da Revolução. A avaliação final da derrota do movimento revolucionário na Espanha, para ele, no que tem toda razão, não pode passar ao largo da análise da atuação das organizações anarquistas durante o processo revolucionário, que acaba por levar ao questionamento dos princípios do próprio anarquismo enquanto ideologia revolucionária, retornando à problemática do poder (só então tocada pelo autor). Enzensberger sintetiza muito bem essa realidade quando afirma que
Ao analisar a interpretação de Enzensberger do caráter do anarquismo espanhol, feliz em diversos aspectos, não se pode, entretanto, deixar de notar uma certa idealização do movimento, não obstante ele faça críticas e mostre muitos de seus limites. Ao negar o estatuto de herói aos grandes homens, ele o confere ao anarquista, ao miliciano idealizado, nobre, não por suas riquezas, mas por sua honestidade revolucionária, acima de tudo. Talvez por isso ele não consiga enxergar com clareza o momento, durante o curso da revolução, em que a direção anarquista da qual Durruti, sem dúvida, não fazia parte deu início a um processo de distanciamento das bases, que foi rapidamente interrompido pela derrota incondicional da Revolução. A postura da CNT durante as Jornadas de Maio comprovam esta hipótese. Buenaventura Durruti, um herói sem medalhas Seria tremendamente injusto, e mesmo incoerente, com o livro, se não dedicássemos um espaço nesse artigo à vida e à trajetória política de Buenaventura Durruti, que, afinal de contas, foi a ponta de lança do autor para toda a reflexão sobre o movimento anarquista espanhol. Essa trajetória é resgatada no livro, como já afirmamos anteriormente, pelos trechos de depoimentos de testemunhas e de documentos. Esses trechos, ao fim do livro, constróem a imagem de Buenaventura Durruti como um homem, essencialmente, do povo. Apesar de ter nascido, ironicamente, numa data que simboliza a ascensão da burguesia ao poder e com isso a afirmação definitiva do capitalismo, 14 de julho (1896), sua vida teria sido toda marcada pelo desejo de destruir as bases da sociedade burguesa e de construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, na qual os trabalhadores teriam seus interesses satisfeitos. Por profissão, era mecânico. Por convicção e paixão, era anarquista e revolucionário. Com apenas 21 anos de idade, já assumiu posto de liderança durante a greve geral de 1917. Participou de um grupo anarquista Los Solidarios, ingressando posteriormente na FAI-CNT. Durante toda a sua militância, nunca acumulou bens. Foi preso diversas vezes, participou de atentados, sabotagens e greves. Lutou com bravura durante a Guerra Civil. Teria sido um homem acima de tudo de ação. Não teria desenvolvido raciocínios teóricos profundos e não conseguia enxergar os limites da política que defendia. Morreu não se sabe ao certo como (no livro, há vários testemunhos que narram versões diversas de sua morte: resultado de uma bala perdida vinda do exército franquista; assassinado por seus próprios companheiros; vítima de um complô dos comunistas etc). Teria sido enterrado como herói pelo povo. Mas, como herói de uma revolução perdida, e por muitos esquecida, seu nome não consta hoje na maior parte dos livros de história. A vida de Buenaventura Durruti sintetiza, dessa forma, a trágica trajetória do movimento anarquista espanhol que acaba morrendo "com um tiro pelas costas" durante uma guerra cuja possibilidade de vitória havia deixado escapar por entre as mãos. Por todas as razões levantadas acima, esse livro merece ser lido e relido hoje que a Revolução Espanhola completa seus 60 anos. Quanto a avaliação final do livro e da trajetória de Durruti, cabe ao próximo leitor julgar, pois, como afirma Enzensberger:
NOTAS (1) Enzensberger, H. M.
Op. cit. p.167-8. (2) _____________________. Guerra Civil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (3) _____________________. Mediocridade e loucura -
ensaios e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1995. (4) ASCHER, N. Folha de São Paulo, São Paulo,
23 abr. 1995, Caderno 5 (Mais!). p.4 (5) Enzensberger, H. M. Op. cit. p.34 (6) Idem. p.40 (7) Idem. p.39. (8) Idem. p.61. (9) A Revolução de Outubro Asturiana de 1934 foi,
sem dúvida, um dos mais importantes momentos da ação
revolucionária espanhola antes da Guerra. Iniciada como
uma greve geral liderada pela social-democracia, acabou
fugindo ao controle dos dirigentes e dando início a um
processo revolucionário que foi duramente esmagado pelas
forças governamentais. (10) O apoio do PCE à coalizão somente refletia a
nova política internacional adotada pelo Kremlin de
aliança com as burguesias nacionais justificada pelo
perigo iminente do fascismo. (11) Enzensberger, H. M. Op. cit. p.253 (12) Idem. p.18. |
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