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A televisão e a eleição Por Pierre Fougeyrollas A influência da televisão sobre a opinião pública foi objeto de estudos e de questionamentos múltiplos. De fato, esta influência não é negada por ninguém. A questão pertinente que se coloca às ciências sociais é a de avaliar a importância desta nas diversas sociedades existentes e, em cada uma delas, seu grau nos meios que a compõem e nas circunstâncias que a acompanham. A recente eleição presidencial francesa constitui, a esse respeito, um conjunto de fenômenos interessantes e particulares. Com efeito, as peripécias dos momentos que antecedem o início da campanha e as da campanha oficial permitem perceber os estados de espírito da opinião pública, na perspectiva de uma escolha política maior, e sua eventual evolução, notadamente através das sondagens que pretendem exprimi-los. Aliás, a eleição do chefe do Estado pelo sufrágio universal e as condições de funcionamento das cadeias de televisão, na França, revestem-se de traços particulares, em comparação com as outras sociedades ocidentais, o que se deve, absolutamente, levar em conta. Do início de outubro de 1994 a princípios de maio de 1995, esta televisão se desdobrou em três níveis, sem diferenças consideráveis entre os canais: 1) deu conhecimento dos atos e dos projetos dos candidatos à presidência, referindo-se às sondagens de opinião sucessivas, concernentes aos personagens em questão, e suas chances de conquistar os seus objetivos; 2) ofereceu, muito desigualmente, sobretudo no curso da pré-campanha, tempo de audiências aos candidatos em questão e tratou-os de um modo desigual, em função de uma certa subjetividade espontânea ou deliberada dos entrevistadores; 3) possibilitou, a cada um, a ocasião de fazer passar suas mensagens políticas com uma eficácia proveniente, de um lado, de sua personalidade e de seu desempenho televisivo. A influência da televisão na escolha dos cidadãos parece ser em função das diversas variáveis que acabam de ser evocadas e daquelas que resultaram do estado anterior da opinião pública. Quer dizer, sua apreciação e sua evolução são difíceis de avaliar, elas devem ser tomadas como hipóteses muito mais que como resultados confirmados. Produção da imagem televisiva dos candidatos Após a grande vitória da direita (RPR Reagrupamento pela República e UDF União pela Democracia Francesa , juntos) nas eleições legislativas de março de 1993, e depois de Eduard Balladur (RPR) ter sido nomeado Primeiro-ministro com a concordância de Jacques Chirac, Presidente do RPR primeiro partido da nova maioria parlamentar , pareceu acordado entre os dois homens públicos que o primeiro favoreceria a eleição do segundo à Presidência da República, em 1995. Em contraste com os governos socialistas do período precedente, E. Balladur adquiriu rapidamente a confiança da opinião pública, ávida de seriedade e de honestidade. A televisão desempenhou um papel de caixa de ressonância enquanto a cotação do Primeiro-ministro, nas sondagens, colocava-o no topo. Os adversários de Jacques Chirac, isto é, os centristas da UDF, carregando com eles integrantes do RPR, militaram, desde fins de 1993, a favor de uma candidatura de Eduard Balladur, acreditando que o Primeiro-ministro fosse o homem capaz de agrupar em torno dele o maior número de eleitores, para não dizer, criar um consenso nacional. Os canais de televisão seguiram seus passos e denegriram a imagem de Chirac, apresentando-o como uma personalidade instável e influenciável, como um político escorregadio e como um homem pouco capaz de representar, à altura, a França no mundo. Cotidianamente, programas satíricos, como Le Bébôte Show, na TF1, e como Les Guignols de LInfo, no Canal-Plus, caricaturavam os fatos e gestos e, sobretudo, a pessoa do presidente do RPR, de uma maneira muito mais virulenta que a forma empregada no trato dos outros políticos. Assim, no curso do ano de 1994, os programas de informação política da televisão francesa, em sua maioria, buscaram condicionar a opinião pública contra Chirac e a favor de Balladur, como se a eleição presidencial se reduzisse a um duelo entre ambos. Quanto à esquerda, abatida com o resultado de sua derrota de 1993 e quase impotente para reconstituir suas forças, pretendia confiar sua sorte a Jacques Delors que estava terminando seu mandato na Presidência da Comissão Européia de Bruxelas. Neste caso, os mídias e, entre eles, a televisão, pretendiam não somente que este personagem fosse a única chance para a esquerda figurar com honra na competição presidencial, mas também que tivesse muitas chances de ganhá-la, pois, neste momento, Eduard Balladur não tinha ainda ultrapassado o Rubicão. Neste caso, ainda, a televisão se dedicava a condicionar a opinião pública. De fato, J. Delors, avaliando a fraca probabilidade da esquerda vencer, notadamente em conseqüência do passivo econômico, político e moral deixado pelos dois setenários de François Mitterrand, saiu de cena, enquanto J. Chirac, apesar das sondagens desfavoráveis, manteve sua candidatura contra ventos e marés. Além disso, outros personagens ensaiavam suas candidaturas como Jean-Marie Le Pen, pelo Front Nacional, Robert Hue, pelo Partido Comunista Francês, Philippe de Villers, Lionel Jospin, escolhido tardiamente pelo Partido Socialista e outros, como três ecologistas, uma radical, um trotskysta. Diante desta pletora, a televisão, todos os canais aí incluídos, distinguia os grandes e os pequenos candidatos, com tudo o que isto comportava de presunção em relação à escolha dos eleitores, de desigualdade de tratamento dos postulantes, ao menos na pré-campanha, e de subversão dos "sacrossantos" princípios da democracia. Além disso, todos os candidatos não deixavam de proclamar que, se fossem eleitos, combateriam o desemprego, tomariam medidas radicais contra a exclusão e trabalhariam na construção da Europa e na defesa da paz no mundo. Com exceção de J. M. Le Pen, denunciando os imigrantes como a causa de todos os males da sociedade francesa, e de Arlette Laguiller, fazendo apelo à revolução proletária contra o grande capital, os candidatos à Presidência da República mantinham um discurso bastante destituído de significação ideológica e se mostravam bastante desejosos de obter dos cidadãos o famoso consenso nacional. Se fosse preciso encontrar entre esses discursos uma diferença semiótica significativa, diríamos que E. Balladur se apoiava sobre seu desempenho de dois anos como Primeiro-ministro. Já L. Jospin evitava, em demasia, as referências aos dois setenários do governo de François Mitterand. J. Chirac, por sua vez, denunciava os "quatorze anos de socialismo e o imobilismo balladuriano", evitando relembrar seus votos de deputado em favor do governo que saía. No total, a pré-campanha e a campanha pareceram mornas a vários observadores e talvez a um numeroso público por causa da ausência de grandes diferenças ideológicas e da uniformidade dos temas desenvolvidos pelos grandes candidatos. Elas adquiriram um estilo americano, segundo o qual as pessoas dos postulantes revestem-se de mais importância que seus programas. No que tange a este ponto, a televisão não criou este estilo; ela acompanhou seu surgimento e o transmitiu com sua potência de impacto própria, nos diversos meios da sociedade. Graças a seus programas, E. Balladur adquiriu uma figura de sábio e J. Chirac, a de um aventureiro, ao menos até a mudança das tendências, em fevereiro de 1995. L. Jospin apareceu sucessivamente como um hesitante, depois como um decidido. Esta mesma televisão teria talvez conseguido mostrar um J. M. Le Pen respeitável e sensato, se a morte de um jovem francês de origem africana, no começo da campanha, provocada por gente ligada ao Front Nacional (FN), e o assassinato posterior de um jovem marroquino, cometido por skinheads que saíram do cortejo de uma manifestação desse mesmo partido, não tivessem devolvido ao Presidente do FN a sua imagem anterior de intolerância e seu mau humor agressivo. Enfim, a maior parte dos programas de televisão tratou, com uma boa vontade inabitual, R. Hue cuja linguagem aparentemente matizada e deliberadamente hesitante diferia dos discursos cortantes de seu predecessor, Georges Marchais. Eles favoreceram a Arlette Laguiller, cuja monotonia repetitiva foi apresentada como uma prova de obstinação meritória. Mas, acima de tudo, a televisão e os outros mídias trataram E. Balladur como grande favorito da competição eleitoral, antes mesmo que ele tivesse declarado sua candidatura e até os últimos dias de fevereiro de 1995. Incontestavelmente, a opinião pública foi influenciada, durante este período, a favor do Primeiro-ministro, a tal ponto que o diretor de um importante instituto de pesquisas escreveu, em janeiro de 1995, que a eleição presidencial já estava resolvida e que E. Balladur se encontrava virtualmente instalado no Eliysée. Considerando isto, este cidadão anunciou sua candidatura de seu próprio gabinete de Primeiro-ministro no Hotel Matignon. As más línguas evocaram, no passado, as candidaturas oficiais do Segundo Império quando os prefeitos se achavam encarregados de fazer triunfar os seus candidatos. A imprensa internacional fez, em geral, coro, assegurando que E. Balladur era o grande burguês competente e mestre dele mesmo, de quem os franceses tinham necessidade para sair do fim do "reinado" de François Mitterand, marcado pela impotência em relação à progressão do desemprego, pela desmoralização do alto escalão do Estado e pelo declínio do prestígio da França em escala internacional. De resto, a gestão do novo Primeiro-ministro parecia sadia e promissora como o provara a confiança emanada dos centros financeiros. Tendo os franceses encontrado uma espécie de "bom pai", os grandes debates ideológicos não tinham mais razão de ser. Isto explicava e justificava o caráter bem comportado da pré-campanha. Não existia, naquele momento, uma oposição entre direita e esquerda, situação na qual Raymond Aron tinha, em tempos passados, denunciado o caráter metafísico, que ele relacionava à Revolução de 1789. Mesmo o conflito latente entre E. Balladur e J. Chirac, ambos membros do RPR, era apresentado pelos mídias como uma rivalidade de pessoas, destituída de qualquer sentido político. Não se tratava, em termos da França, de uma espécie de "fim da história", consecutiva à desqualificação e ao naufrágio do "socialismo", e de uma forma de entrada na era da soft ideology? A mudança das tendências Sem que a maioria dos especialistas haja previsto, os institutos de pesquisa Luís Harris e CSA anunciavam, em 02 de março de 1995, que, em duas pesquisas de intenção de voto realizadas em 17 e 18 de fevereiro, J. Chirac ganhava claramente sobre E. Balladur e sobre L. Jospin, desde o primeiro turno, e que ele ganharia para qualquer um dos dois no segundo turno. Assistia-se, então, a uma inversão de tendências entre os dois candidatos saídos do RPR e à entrada efetiva na arena do candidato designado pelo Partido Socialista, que se encontrava com um percentual de créditos vizinho àquele de E. Balladur. Poder-se-ia, também, questionar se não se assistia a uma derrota dos institutos de pesquisa, ainda que estes não deixassem de repetir ser a sondagem uma fotografia de um estado momentâneo da opinião pública e não uma previsão relativa ao porvir desta opinião. Como, enfim, não se interrogar sobre a potência do impacto da televisão quando um candidato, por ela pouco defendido, ganhava, apesar disso, nas pesquisas de voto? O que teria ocorrido, então? É preciso, de início, constatar que J. Chirac deu prova de firmeza, de grande capacidade, de confiança em si e de esperança no seu destino. Abandonado por uma parte dos seus antigos aliados, ele manteve sua candidatura apesar das sondagens desfavoráveis e dos conselhos daqueles que lhe diziam que se retirasse, para não conduzir seus partidários à derrota. É preciso, em seguida, notar que a situação de Primeiro-ministro não comportava senão vantagens para E. Balladur. Ao resgatar para si mesmo o balanço de dois anos de boa gestão, ele esperava agradar a um certo número de cidadãos bastante satisfeitos ou não muito descontentes. Em contrapartida, as proposições dirigidas aos jovens e, especialmente, aos estudantes, o haviam obrigado a vários recuos, mal apreciados na opinião pública. Ademais o fato de que três de seus ministros tiveram de deixar o governo, depois de investigados por juízes de instrução, além do apoio de Charles Pasqua, eficaz Ministro do Interior, porém, personalidade controversa (a propósito de escutas telefônicas ilegais ou não regulamentares) tinham desferido um golpe no crédito do Primeiro-ministro, finalmente tornado candidato à Presidência da República, contra um amigo de trinta anos, permanecendo fundador e chefe do partido comum a ambos. Tudo isso permite a compreensão do declínio de E. Balladur e a escalada final de J. Chirac, face a um eleitorado bastante parecido. É preciso acrescentar que J. Chirac se mostrou muito superior a seu rival na condução de sua campanha, quer dizer, nos contatos corpo-a-corpo com os diversos meios componentes da sociedade francesa e com os próprios indivíduos. Há muito tempo, com efeito, o deputado da Corrèze e prefeito de Paris havia adquirido a reputação de um bon vivant, acessível a qualquer um, e de um homem que sabe escutar e compreender os outros. Ainda que ele tenha reconhecido não se sentir muito à vontade diante das câmeras de televisão, aprendeu a melhorar sua dicção, tornando-a menos corrida, ou mais lenta. Afora isso, quando as emissoras passaram a cobrir sistematicamente seus pronunciamentos, sua imagem modificou-se para melhor; foi mais ou menos o Chirac popular que apareceu nos televisores. Em compensação, E. Balladur assistiu à degradação da sua imagem, sem conseguir frear esta tendência desde que oficializou sua candidatura e começou sua campanha. Lembramos de seus esforços, bastantes infrutíferos, para parecer simples, "bom moço", de seu modo desajeitado de subir sobre uma mesa para discursar para seus partidários ou, de pegar carona, na província, para chegar sem muito atraso em uma reunião pública. Aparentemente mais a vontade que J. Chirac nos estúdios de televisão, seus propósitos pareceram a muitas pessoas bem dirigidos. É certo que os mídias podem trabalhar para o condicionamento da opinião pública a favor de um candidato a uma eleição em detrimento de outro. Entretanto, a televisão não determina o fato de um ser menos performático na comunicação social que o outro, que sabe se dirigir ao grande público. No que concerne à eleição do Presidente da República, através do sufrágio universal, as capacidades de comunicação dos candidatos aparecem finalmente como mais importantes que a atitude mais ou menos favorável ou desfavorável dos mídias em relação a cada um deles. É preciso ainda que a parcialidade dos jornalistas não ultrapasse certos limites sempre difíceis de precisar. No caso em pauta, a partir da inversão das tendências entre E. Balladur e J. Chirac, eles se aproximaram da imparcialidade. É bem verdade, que se trata de uma imparcialidade relativa, uma vez que vimos e escutamos, nós mesmos, em dois canais diferentes, jornalistas se referirem com arrogância a A. Laguiller e Ph. De Villiers, a primeira, em função do caráter de seu programa revolucionário, tido como utópico, o segundo, confundindo, deliberadamente, suas concepções e seu programa com os do Front Nacional, fazendo propaganda, consciente ou inconscientemente. Apesar da inversão das tendências, conhecida publicamente em março, a televisão excluiu, de novo, todo imprevisto, declarando que o candidato Chirac estaria, segundo todas as probabilidades, na topo e que os candidatos Balladur e Jospin estariam disputando o segundo lugar. Tudo isso resultará no que se chamou "as duas surpresas do escrutínio de 23 de abril": L. Jospin chegando ao topo (23%), seguido por J. Chirac (20%), E. Balladur sendo eliminado (19%) e o candidato Le Pen alcançando sua maior votação nacional (15%). A polarização dos programas de televisão no duelo Chirac-Balladur, que comportava uma subestimação das possibilidades do principal candidato da esquerda, se encontrava fortemente desautorizada pelos eleitores. Além disso, o candidato do Front Nacional dava à extrema direita na França um percentual mais elevado que aquele apresentado na maioria dos outros países ocidentais. Para compreender o primeiro lugar obtido no primeiro turno da eleição presidencial por L. Jospin, é preciso lembrar a existência, na França, de dois eleitorados de origem antiga e relativamente fechados um em relação ao outro: a direita, representada hoje pelos votos dos candidatos Chirac, Balladur e Villiers, ou seja 44,16% dos sufrágios expressos, e a esquerda, representada pelos votos dos candidatos Jospin, Hue e D. Voynet, ou seja 35,26% dos sufrágios expressos. A esse eleitorado tradicional, é preciso somar um eleitorado de extrema-esquerda que, através da militância de luta operária, alcançou, pela primeira vez, 5,30% dos votos expressos. O sucesso de L. Jospin se explica pela persistência ideológica de um eleitorado de esquerda, apesar da grave derrota do Partido Socialista nas eleições legislativas de 1993 e da capacidade de, na sua campanha, seduzir candidatos. Quanto aos progressos realizados por J. M. Le Pen, são facilmente compreensíveis ao observar-se que ele insistiu durante todo o tempo no tema da imigração (clandestina ou ilegal), da segurança dos cidadãos franceses e dos riscos de um "fim da França", através de uma integração a uma Europa Federal. No que diz respeito a essas mesmas questões, J. Chirac, E. Balladur e L. Jospin não se referiam ao assunto ou não falavam o bastante. Além disso, é preciso reconhecer que, nesse ponto, as informações das emissoras de televisão foram insuficientes e as análises geralmente fracas. O duelo O General De Gaulle, ao propor a eleição do Presidente da República em dois turnos, quis não apenas que ela ocorresse através do sufrágio universal, mas que, ao fim de um processo eleitoral, uma maioria aparecesse e designasse aquele ou aquela que seria o Presidente de todos os franceses. Assim, o funcionamento da democracia alcançaria a designação do representante, por excelência, da nação. O poder muito amplo de que passa a dispor este chefe de Estado, confere à Quinta República francesa sua singularidade que é principalmente uma maneira de conjurar e de evitar a instabilidade política que o país conheceu de 1789 a 1958. Ocorre que, antes de alcançar o Presidente representante, encarnando a unidade da nação, o segundo turno se desenrola efetiva e inevitavelmente como um duelo entre dois pretendentes à magistratura suprema. Que De Gaulle tenha querido ou não, este duelo traz consigo o risco de gerar a oposição entre o que Michelet chamava o "partido da ordem e o partido do movimento". Na verdade, ele obriga cada um dos dois pretendentes a procurar ultrapassar seu eleitorado de origem. O candidato da direita deve mostrar que ele não é somente aquele do partido da ordem e que ele se acha na condição de resolver um conjunto de problemas sociais. De seu lado, o candidato da esquerda deve provar que ele não é somente aquele dos desfavorecidos e dos excluídos e que pode assumir a defesa dos interesses globais da sociedade, ao tempo em que promove seu progresso. No segundo turno da primeira eleição presidencial com sufrágio universal, em 1965, De Gaulle derrotou Mitterrand sem que os dois se tenham defrontado diretamente num debate televisionado. Em 1969, em seguida à renúncia do General De Gaulle, G. Pompidou, herdeiro do gaullismo, derrotou A. Poher, presidente do senado e representante do centrismo, após o eclipse da esquerda, consecutiva à desordem de 1968. Nesta ocasião, não ocorreu também debate televisionado entre os dois candidatos do segundo turno. Após a morte de G. Pompidou em 1974, o segundo turno opõe V. Giscard dEstaing, representante da direita, a F. Mitterrand, que conseguiu confederar a esquerda sob a sua tutela. Pela primeira vez, um debate televisionado opõe, ao modo americano, os dois pretendentes. Mais à vontade e mais senhor dos seus dossiers, V. Giscard dEstaing desclassifica seu rival e a televisão parece, desse modo, fornecer a arma por excelência da vitória eleitoral. Em 1981, os dois homens se defrontam novamente. Como na primeira vez, o debate é extremamente tenso e revela a grande violência recíproca que se dissimula com muita dificuldade sob uma cortesia de convenção. F. Mitterrand ganha a eleição ainda que muitos jornais tenham estimado que, no debate televisionado, V. Giscard dEstaing tenha-se saído melhor. Em 1988, o debate do segundo turno alcança uma tensão extrema porque ele opõe o Presidente que saía a J. Chirac que havia sido Primeiro-ministro no curso dos dois últimos anos. Manifestamente, o Presidente possuía uma maneira mais eficaz de se servir da televisão e seu Primeiro-ministro paga o devido preço. A televisão aparece, então, como um instrumento privilegiado da vitória de F. Mitterrand. Ao se prepararem para o debate televisionado do segundo turno, que ocorreu em 02 de maio de 1995, os candidatos Chirac e Jospin pensaram, provavelmente, nos confrontos precedentes. O primeiro devia refletir sobre suas derrotas anteriores e o segundo, sobre a novidade de uma tal prova. Finalmente, o programa foi muito diferente dos precedentes. Sem dúvida, seria equivocado pretender que não havia tensão entre os dois competidores. Ela era perceptível. Mas é preciso reconhecer que esta tensão real se resolveu nas fórmulas de cortesia que não cessaram, durante mais de duas horas, de ornar um debate transformado, por fim, num diálogo. Esta cortesia emanou das duas personalidades e da singularidade do encontro deles: J. Chirac não é mais o militante freqüentemente agressivo dos inícios de sua carreira política; é um homem experiente e ponderado, em quem a vida desenvolveu as qualidades de compreensão e generosidade; Jospin não é mais o dirigente socialista seguro da eficácia de sua ideologia, é um homem maduro que almeja dotar a França de um partido social-democrata ao estilo alemão. Nada, por conseguinte, devia conduzir esse dois candidatos a uma guerra sem perdão. Além disso, não seria de interesse de ambos os candidatos dramatizar esse encontro e empurrar os questionamentos ao extremo. Querendo conquistar eleitores do centro, L. Jospin deveria evitar a imagem do socialista sectário. Procurando fazer esquecer seu antigo rigorismo de estilo protestante, deveria evitar levantar o tom em relação ao seu adversário. Não lhe disseram que o tom da polêmica não era lucrativo na televisão? E, como antigo colaborador e ex-ministro do governo de F. Mitterrand, ele não podia denunciar o balanço dos dois anos de governo da direita para não lembrar o saldo negativo dos governos socialistas. Quanto a J. Chirac, a razão principal de sua moderação provinha, provavelmente, da sua postura em relação à questão européia. Uma parte do eleitorado desejava que se colocasse um freio na marcha em direção à Europa integrada e que o Tratado de Maastricht fosse logo renegociado e a outra parte não. Da mesma forma, sobre o plano social, J. Chirac estava inclinado para a prudência e para proposições polissêmicas. A requisição dos alojamentos vazios para abrigar os sem-tetos constitui, por exemplo, uma faca de dois gumes que poderia satisfazer eleitores que votam habitualmente na esquerda, e, ao mesmo tempo, descontentar aqueles que tradicionalmente votam à direita. A promessa de um aumento do salário mínimo poderia desarmar uma possível explosão social, mas também desgostar um certo número de dirigentes de empresa e comprometer o redirecionamento econômico previsto. Para além da cortesia dos dois rivais, esse debate televisionado foi, na verdade, um combate de armas embainhadas, porque as estratégias dos antagonistas levavam a isso. O público ficou decepcionado em conseqüência de seu gosto pela oratória cortante ao estilo de Cyrano de Bergerac. Esse diálogo televisionado não determinou, provavelmente, novas intenções de voto nem mudanças nas escolhas do eleitorado. Ele, no máximo, permitiu aos jornalistas afirmar que a França havia, doravante, entrado na rota de um regime político conciliador, para não dizer na era da democracia consensual. Ainda que L. Jospin tenha obtido o maior número de votos no primeiro turno e que J. Chirac tivesse construído a imagem do atleta político, era sobretudo o primeiro que poderia se beneficiar de uma dramatização do debate, notadamente sobre os fenômenos da exclusão e da construção da Europa. Mas foi o segundo que, de fato, tirou partido de sua não-dramatização. Pois, para sair vitorioso, em uma competição como essa, é preciso que o candidato se apresente como o unificador de todo o país e não como um divisor. A dramatização teria gerado uma oposição entre os dois candidatos: o campeão do povo de esquerda e o campeão do povo de direita. Ela teria, assim, impedido cada um de exercer ao máximo seu papel de unificador. Os comícios tradicionais comportavam e favoreciam discursos de enfrentamento. Ao contrário, a televisão não favorece aqueles que utilizam linguagem agressiva, mesmo se isto é feito com um tom de sinceridade. Ela se revela gratificante para os oradores moderados e ponderados. Em um comício, mesmo com um público numeroso, para aquele que discursa, trata-se de mobilizar, antes de tudo, seus partidários e simpatizantes. Em contrapartida, um programa de televisão se dirige não apenas a pessoas convencidas, mas também a adversários e a indecisos. Trata-se de convencer os adversários e ganhar o consentimento dos indecisos. A televisão impõe, por conseguinte, uma forma de falar e de se comportar que exclui a dramatização e que tende, ao menos na aparência, para o consenso. Há quem afirme, por exemplo, que, se Hitler tivesse se exibido na televisão, ele não teria exercido a influência fascinante que alcançou através dos meios de radiodifusão. Sem nos pronunciarmos sobre tal afirmação, digamos que a imagem fílmica da televisão se presta mal ao transe e à histeria oratória. É muito difícil saber em que medida os duelos televisivos que sucessivamente opuseram os candidatos Giscard dEstaing e Mitterrand, Chirac e Mitterrand e, por fim, Chirac e Jospin, influenciaram a decisão dos eleitores. É mais fácil compreender que a falta de habilidade de um candidato durante um debate televisivo pode levá-lo à derrota. Não obstante, aqueles que chegam ao segundo turno das eleições presidenciais têm-se revelado até agora verdadeiros profissionais. * De fato, a vitória da direita nas eleições de março de 1993 já trazia em si a sua vitória na eleição presidencial de maio de 1995. Não obstante, seja na política ou em qualquer outro domínio da vida, a passagem do ser potencial para o ser de fato, como teria dito Aristóteles, não é automática e nem dada de antemão. Dito de outro modo, para transformar em objetivo o ensaio realizado pela direita em 1993, era preciso, em 1995, um político capaz de fazer frente ao campo do adversário e à divisão no seu próprio meio. E este foi, como se sabe, J. Chirac. A televisão francesa, no seu conjunto, foi favorável a F. Mitterrand nas eleições de 1981 e 1988. No entanto, ela não apoiou J. Chirac no curso de 1994, tendo, pelo contrário, dado um máximo de publicidade a todas as iniciativas de E. Balladur, preparando, dessa forma, sua candidatura. Foi somente a partir do momento em que as sondagens revelaram a famosa inversão de tendência na intenção de voto dos eleitores que os programas de televisão tornaram-se um pouco mais imparciais em relação a J. Chirac. Esse exemplo mostra que os canais de televisão, mesmo submetidos ao que alguns chamam de "pensamento único", não se acham sempre na condição de condicionar completamente a opinião pública, ao ponto de fabricar uma eleição tão importante quanto a do chefe de Estado de uma nação. Podemos, de todos os modos, perguntar-nos se este caso não seria uma exceção à regra. Na história da Quinta República Francesa, parece que, diferentemente da eleição de G. Pompidou, em 1969, e da reeleição de F. Mitterrand, em 1988 fenômenos de continuidade , as eleições de V. Giscard dEstaing, em 1974, de F. Mitterrand, em 1981 e, por fim, de J. Chirac, em 1995, foram fenômenos de ruptura e de rejeição total ou parcial ao espírito da presidência precedente. É claro que, na época do monopólio do Estado, quer dizer, sob os governos de De Gaulle e de G. Pompidou, a questão da influência da televisão não se colocava como hoje, mesmo se a atual pluralidade dos canais não se traduz em uma diversidade importante de perspectivas e de opiniões propostas. É preciso ressaltar que os canais de televisão privados só surgiram a partir de 1986. No entanto, é necessário lembrar que durante a eleição presidencial de 1974, o fato de a televisão se achar, possivelmente, sob o controle do aparelho gaullista não impediu V. Giscard dEstaing de sair vitorioso. É verdade que J. Chirac, então Ministro do Interior, havia aderido à causa de V. Giscard dEstaing. Hoje, mais uma vez, como acabamos de ver, a eleição presidencial é ganha por um candidato que a televisão, inicialmente, não apoiou. Em resumo, poder-se-ia dizer que os canais de televisão na França contribuem de forma poderosa na modelação do estado de espírito do público no que concerne à visão de mundo e do ser humano. Tanto mais longe e ignorados do público se achem os fatos relatados e comentados, mais a influência da informação televisiva torna-se considerável. Assim, as questões que dizem respeito à política externa são tratadas quase uniformemente pelos diversos canais, que condicionam, sem contrapartida, os juízos de valor da maioria da população. Por outro lado, se se trata de problemas concernentes diretamente aos indivíduos e grupos na sua vida cotidiana e nos seus interesses fundamentais, os programas de televisão têm muito menos poder de impacto e são mais freqüentemente contestados. À medida que os cidadãos compreendem a importância do jogo inerente à eleição presidencial, a televisão, apesar das similitudes de conteúdos entre os canais, perde uma parte da sua força de condicionamento. Além da personalidade de cada candidato, de seu tipo de relação com o público e com a televisão, os eleitores consideram seu programa de governo, mesmo sem acreditar que ele será aplicado na sua totalidade. Eles também levam em conta, talvez com muito maior interesse, os seus próprios problemas e a maneira como cada candidato os trata durante a campanha. Neste ponto essencial, a televisão não dispõe de um poder de condicionamento que lhe seja próprio. O que se pode e se deve cobrar dela, é a transmissão fiel das mensagens dos atores políticos. |
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