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Olho da História No. 5 Página Principal

 

Editorial No. 5

 

Tornou-se lugar comum dizer-se que o mundo está em crise.

Cunhou-se assim uma fórmula para expressar a idéia de que ela não é apenas econômica. É também da cultura entendida em sentido amplo. Na verdade, trata-se ainda de uma crise ético-social e de modelos científicos. Do ponto de vista estritamente econômico, alcançou-se um grau de desenvolvimento que muitos preferem chamar de globalização. Mas este termo é profundamente ideologizado, pois faz abstração do caráter de classe daquilo que Chesnais, com muito mais razão, prefere chamar de mundialização do capital. Saltam aos olhos os processos planetários de exclusão social! Entretanto, tem-se associado mais do que o necessário a essa crise: a idéia de que ela é conseqüência natural do crescimento das sociedades industriais avançadas e, em grande medida, promovida pelo progresso tecnológico. Desta forma, esquece-se ou minimiza-se ao máximo um fato fundamental: desde 1973-4, a economia mundial, já profundamente internacionalizada, vem verificando taxas globalizadas de crescimento cada vez mais baixas, com previsão de apenas 1,5% para esse ano. Vemos, assim, o paradoxo de se deter tanta tecnologia, como nunca na história, sem que, entretanto, se amplie o crescimento real da riqueza, embora existam condições técnicas de se elevar a produtividade geral do trabalho. Assim, o problema não é técnico, mas de relações sociais. Isto contraria os discursos globalizantes e neoliberais de que estamos às portas de um mundo que só fará ajustar e regular as engrenagens dos circuitos do progresso sem fim. Quem elabora conhecimento científico nessa discussão e quem constrói mistificações ideológicas?

Há muito o capitalismo internacionalizou a mais hermética, a mais frágil das culturas e das sociedades, trazendo-as para o cenário mundial. Produziu-se, como conseqüência da interdependência delas com as sociedades tecnologicamente mais avançadas, o acirramento das contradições do sistema capitalista mundial. Aquelas primeiras foram colocadas, não apenas pelo paradigma judaico-cristão ocidental, mas pela própria potência da acumulação de capitais do Ocidente avançado industrialmente, como hierarquicamente inferiores. Mas, na verdade, elas são apenas diferentes, muito embora estejam subordinadas economicamente como resultado das desigualdades desta mesma acumulação!

A crise é assim um fato também mundial. Tamanha é a sua amplitude que os modelos explicativos, idealizados pelo cientificismo que se desenvolveu desde os finais do século passado, se estilhaçaram. É uma grande ilusão acreditar que apenas as chamadas ciências humanas estão à deriva. Objetivamente, tal qual o capitalismo mundial, as demais ciências ditas naturais (e exatas) também estão em crise. E isto é tão mais angustiante quanto mais se necessita de eficácia e de capacidade de previsibilidade, de diagnósticos e prognósticos científicos! A complexidade e o gigantismo dos problemas colocados para a espécie humana são de tal ordem que parece inevitável que setores inteiros das mais diversas sociedades lancem mão do recurso das religiosidades. Diante de sistemas sociais organizados apenas na aparência (e que são na realidade de uma desorganização irracional a toda prova), é mais que natural que os homens, individualmente, tanto quanto as suas instituições, inclusive as científicas, não saibam muito bem o que pode ser feito. As imagens do real, fragmentadas como num quadro de Chagall ou de Picasso, ou num filme surrealista de Buñuel, parecem substituir as unidades orgânicas de pensamento que serviam como referência às formações sociais do Ocidente. Do mesmo modo, evidencia-se a inoperância do pensamento cartesiano e das antigas formas de separação em compartimentos estanques, corpo-mente/razão-emoção, que pretenderam orientar os homens desde, pelo menos, o Renascimento.

Assim, a crescente complexidade do processo histórico multiplica para as nossas existências os efeitos da fragmentação efetiva das nossas cons/ciências. É bem verdade que um bom número de pensadores e cientistas defende que o real-histórico de fato não existe, pois ele será sempre o que se puder pensar dele! Outros são ainda mais radicais e pensam que o real é de fato virtual! Que tais apreciações façam parte da filosofia, ou mesmo da literatura, ou ainda da arte de um modo geral, é mais do que explicável. Todavia, observar-se a proliferação desse pressuposto ontológico nas ciências humanas, e mesmo na história — que constrói a sua cientificidade a partir da idéia de que o processo histórico existe de modo objetivo e independentemente da forma mais ou menos correta (científica) através da qual a nossa subjetividade o concebe — é de fato mais que um sinal dos tempos! Com certeza, o real-histórico nem sempre é o que se pensa dele. Porém, ninguém pode negar que, muitas vezes, o fenômeno psicológico, histórico, natural ou físico, é bem apreendido pelo sujeito do conhecimento. É exatamente isso que nos possibilita aspirar à construção de um conhecimento científico e de uma teoria científica, inclusive a partir dos objetos que constituem o comportamento humano, individualmente ou em sociedade.

Os duzentos últimos anos viram desenvolver-se, não apenas nas chamadas ciências naturais, mas também nas humanas, uma inevitável interlocução denominada de interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, que constitui o maior atestado de que, à complexidade dos fenômenos humanos só se pode oferecer — e isso é inevitável — uma multiplicidade de abordagens. Isso não significa sempre uma vantagem e um progresso! Quase sempre os desvios de rota provocados pelos equívocos (especulativos ou não) cobram o seu preço às nossas existências e à evolução científica. Mas como enfrentar as diferenças e divergências de pontos de vista científicos, estéticos ou políticos, senão através do mais absolutamente livre das debates? O reflexo da crise nas ciências humanas produziu falsos problemas, e também questões pertinentes, pelo menos para alguns setores, como por exemplo, o colocar em causa as "corporações de ofício", ou o fetichismo das especializações. Fez ainda ressurgir o espírito da enciclopédia como dizia Lucien Febvre, da perspectiva multidisciplinar na busca de um saber, não totalitário, mas totalizante. É bem verdade que não se produz uma boa bebida adicionando mais água ao vinho, nem mesmo retirando toda a água que já é dele! Conhecimento científico se constrói com análise e síntese, buscando sistematização orgânica permanente. Nesse sentido, no ponto de "partida" quase toda discussão é inevitavelmente "eclética", embora a aquisição de uma verdadeira teoria científica não possa sê-lo! Assim, para desfazer os desvios e mesmo retrocessos e especulações obscurantistas, é mais que imprescindível deixar que todas as opiniões se expressem livremente. Aliás, alguém já disse que opinião que precisamos tirar de circulação tem vantagem sobre nós. Seguramente alguém já disse antes que não existe nenhuma estrada rósea para a ciência e quem tiver medo dos seus senderos montanhosos e escarpados, merece certamente uma outra ocupação.

Em O Olho da História, nem os seus colaboradores, nem o seu editor, escondem os seus pontos de vista, as suas posições, ou as suas incertezas. Por isso, publicamos também artigos que não refletem o ponto de vista do Conselho Editorial. Um procedimento diferente não estimularia aquilo que, provavelmente, mais se faz necessário nessa crise total: pensar, pensar, pensar! Esta também é uma forma de agir e não raro, a mais eficaz. Portanto, que o debate continue.

Jorge Nóvoa
Editor Responsável

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