Cunhou-se assim uma fórmula para expressar a idéia
de que ela não é apenas econômica. É também da cultura entendida em sentido amplo. Na
verdade, trata-se ainda de uma crise ético-social e de modelos científicos. Do ponto de
vista estritamente econômico, alcançou-se um grau de desenvolvimento que muitos preferem
chamar de globalização. Mas este termo é profundamente ideologizado, pois faz
abstração do caráter de classe daquilo que Chesnais, com muito mais razão, prefere
chamar de mundialização do capital. Saltam aos olhos os processos planetários de
exclusão social! Entretanto, tem-se associado mais do que o necessário a essa crise: a
idéia de que ela é conseqüência natural do crescimento das sociedades industriais
avançadas e, em grande medida, promovida pelo progresso tecnológico. Desta forma,
esquece-se ou minimiza-se ao máximo um fato fundamental: desde 1973-4, a economia
mundial, já profundamente internacionalizada, vem verificando taxas globalizadas de
crescimento cada vez mais baixas, com previsão de apenas 1,5% para esse ano. Vemos,
assim, o paradoxo de se deter tanta tecnologia, como nunca na história, sem que,
entretanto, se amplie o crescimento real da riqueza, embora existam condições técnicas
de se elevar a produtividade geral do trabalho. Assim, o problema não é técnico, mas de
relações sociais. Isto contraria os discursos globalizantes e neoliberais de que estamos
às portas de um mundo que só fará ajustar e regular as engrenagens dos circuitos do
progresso sem fim. Quem elabora conhecimento científico nessa discussão e quem constrói
mistificações ideológicas?
Há muito o capitalismo internacionalizou a mais hermética, a mais
frágil das culturas e das sociedades, trazendo-as para o cenário mundial. Produziu-se,
como conseqüência da interdependência delas com as sociedades tecnologicamente mais
avançadas, o acirramento das contradições do sistema capitalista mundial. Aquelas
primeiras foram colocadas, não apenas pelo paradigma judaico-cristão ocidental, mas pela
própria potência da acumulação de capitais do Ocidente avançado industrialmente, como
hierarquicamente inferiores. Mas, na verdade, elas são apenas diferentes, muito embora
estejam subordinadas economicamente como resultado das desigualdades desta mesma
acumulação!
A crise é assim um fato também mundial. Tamanha é a sua amplitude
que os modelos explicativos, idealizados pelo cientificismo que se desenvolveu desde os
finais do século passado, se estilhaçaram. É uma grande ilusão acreditar que apenas as
chamadas ciências humanas estão à deriva. Objetivamente, tal qual o capitalismo
mundial, as demais ciências ditas naturais (e exatas) também estão em crise. E isto é
tão mais angustiante quanto mais se necessita de eficácia e de capacidade de
previsibilidade, de diagnósticos e prognósticos científicos! A complexidade e o
gigantismo dos problemas colocados para a espécie humana são de tal ordem que parece
inevitável que setores inteiros das mais diversas sociedades lancem mão do recurso das
religiosidades. Diante de sistemas sociais organizados apenas na aparência (e que são na
realidade de uma desorganização irracional a toda prova), é mais que natural que os
homens, individualmente, tanto quanto as suas instituições, inclusive as científicas,
não saibam muito bem o que pode ser feito. As imagens do real, fragmentadas como num
quadro de Chagall ou de Picasso, ou num filme surrealista de Buñuel, parecem substituir
as unidades orgânicas de pensamento que serviam como referência às formações sociais
do Ocidente. Do mesmo modo, evidencia-se a inoperância do pensamento cartesiano e das
antigas formas de separação em compartimentos estanques, corpo-mente/razão-emoção,
que pretenderam orientar os homens desde, pelo menos, o Renascimento.
Assim, a crescente complexidade do processo histórico multiplica
para as nossas existências os efeitos da fragmentação efetiva das nossas
cons/ciências. É bem verdade que um bom número de pensadores e cientistas defende que o
real-histórico de fato não existe, pois ele será sempre o que se puder pensar dele!
Outros são ainda mais radicais e pensam que o real é de fato virtual! Que tais
apreciações façam parte da filosofia, ou mesmo da literatura, ou ainda da arte de um
modo geral, é mais do que explicável. Todavia, observar-se a proliferação desse
pressuposto ontológico nas ciências humanas, e mesmo na história que constrói a
sua cientificidade a partir da idéia de que o processo histórico existe de modo objetivo
e independentemente da forma mais ou menos correta (científica) através da qual a nossa
subjetividade o concebe é de fato mais que um sinal dos tempos! Com certeza, o
real-histórico nem sempre é o que se pensa dele. Porém, ninguém pode negar que, muitas
vezes, o fenômeno psicológico, histórico, natural ou físico, é bem apreendido pelo
sujeito do conhecimento. É exatamente isso que nos possibilita aspirar à construção de
um conhecimento científico e de uma teoria científica, inclusive a partir dos objetos
que constituem o comportamento humano, individualmente ou em sociedade.
Os duzentos últimos anos viram desenvolver-se, não apenas nas
chamadas ciências naturais, mas também nas humanas, uma inevitável interlocução
denominada de interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, que
constitui o maior atestado de que, à complexidade dos fenômenos humanos só se pode
oferecer e isso é inevitável uma multiplicidade de abordagens. Isso não
significa sempre uma vantagem e um progresso! Quase sempre os desvios de rota provocados
pelos equívocos (especulativos ou não) cobram o seu preço às nossas existências e à
evolução científica. Mas como enfrentar as diferenças e divergências de pontos de
vista científicos, estéticos ou políticos, senão através do mais absolutamente livre
das debates? O reflexo da crise nas ciências humanas produziu falsos problemas, e também
questões pertinentes, pelo menos para alguns setores, como por exemplo, o colocar em
causa as "corporações de ofício", ou o fetichismo das especializações. Fez
ainda ressurgir o espírito da enciclopédia como dizia Lucien Febvre, da
perspectiva multidisciplinar na busca de um saber, não totalitário, mas totalizante. É
bem verdade que não se produz uma boa bebida adicionando mais água ao vinho, nem mesmo
retirando toda a água que já é dele! Conhecimento científico se constrói com análise
e síntese, buscando sistematização orgânica permanente. Nesse sentido, no ponto de
"partida" quase toda discussão é inevitavelmente "eclética", embora
a aquisição de uma verdadeira teoria científica não possa sê-lo! Assim, para desfazer
os desvios e mesmo retrocessos e especulações obscurantistas, é mais que
imprescindível deixar que todas as opiniões se expressem livremente. Aliás, alguém já
disse que opinião que precisamos tirar de circulação tem vantagem sobre nós.
Seguramente alguém já disse antes que não existe nenhuma estrada rósea para a ciência
e quem tiver medo dos seus senderos montanhosos e escarpados, merece certamente uma outra
ocupação.
Em O Olho da História, nem os seus colaboradores, nem o seu
editor, escondem os seus pontos de vista, as suas posições, ou as suas incertezas. Por
isso, publicamos também artigos que não refletem o ponto de vista do Conselho Editorial.
Um procedimento diferente não estimularia aquilo que, provavelmente, mais se faz
necessário nessa crise total: pensar, pensar, pensar! Esta também é uma forma de agir e
não raro, a mais eficaz. Portanto, que o debate continue.