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Olho da História No. 4 Página Principal

 

Xica da Silva e a luta simbólica contra a ditadura

Miriam de Souza Rossini

 

Com a história buscando novos objetos de pesquisa, o cinema desponta como veículo importante para se estudar o imaginário social. O cinema é uma forma de representação que pode ser produzida de modo conservador ou contestador — portanto faz parte do campo das lutas simbólicas. Também é uma fonte histórica, pois, mesmo não querendo, ele é testemunho do seu presente. Embasado nessas duas afirmações, este trabalho pretende demonstrar como o cinema brasileiro dos anos 70 — ao contrário do cinema anterior aos anos 60, sintonizado com a ideologia oficial — teve, em geral, uma intenção contestadora da ditadura militar, através da retomada alegórica de episódios da História do Brasil Colonial.

Nos anos 70, são produzidos mais de vinte filmes baseados em fatos históricos, um número superior ao que foi produzido desde o início do cinema entre nós. Questões como a escravatura, a Inconfidência Mineira, a Independência do Brasil, são resgatadas e ressignificadas pela cinematografia brasileira, quase sempre numa tentativa de diálogo com o presente.

É o caso do filme Xica da Silva, de Carlos Diegues, de 1976. Ele é produzido no momento em que começa um lento afrouxamento do regime ditatorial. O próprio cinema nessa fase está transformado, pois ficaram para trás os ardores do Cinema Marginal e do Cinema Novo, bem como a influência mais radical da Tropicália. A busca, agora, é pelo público, o que obriga os diretores a abandonarem o cinema alegórico, de cunho eminentemente político, e partirem para um cinema mais "popular".

É dentro dessa concepção de cinema que o diretor quer enquadrar Xica da Silva e, por isso, este é o seu primeiro filme de grande sucesso de público. No entanto, se as referências à ditadura estão mais diluídas, a própria escolha do tema já é um indicativo da postura do autor: retratar a história de uma negra escrava que quer se tornar livre.

Embora a personagem Francisca da Silva realmente tenha existido, durante a segunda metade do século XVIII, no Arraial do Tijuco, Minas Gerais, o filme não pretende ser fidedigno, mas narrar livremente uma versão sobre a vida de Xica da Silva. A mulata era filha do português Antônio Caetano de Sá e da escrava Maria da Costa. Segundo C. R. Boxer;1 ela primeiro se tornou amante de um cavalheiro local, Francisco da Silva Oliveira, e depois do contratador de diamantes e doutor em leis, João Fernandes de Oliveira. Milionário, João Fernandes satisfez todos os desejos de Xica da Silva, mesmo os extravagantes. Sob sua proteção, Xica se tornou a mulher mais respeitada e poderosa do lugar.

É esta história que Cacá Diegues vai contar em seu filme. O enredo começa com a chegada do novo contratador de diamantes ao Arraial do Tijuco. No caminho, ele encontra dois músicos e pára para tocar com eles. Um dos músicos tenta contar para o contratador histórias das falcatruas e desmandos que ocorrem na cidade, mas o outro sempre pede silêncio ao amigo. Por fim, o medroso se põe na frente do outro, encobrindo-lhe a imagem na tela, e diz que eles são apenas artistas e "artistas não devem se meter em política".

Com certeza, a cena é uma referência ao passado cinematográfico do diretor, que ele, cinicamente, anuncia querer deixar para trás. Ou seja, Xica da Silva não falará, explicitamente, de política ou tirania, e será apenas um espetáculo, pois o diretor é apenas um artista. O recado é, portanto, para os censores.

Chegando à cidade, João Fernandes é recebido pelos moradores como um rei, pois é alguém designado pelo monarca para exercer o cargo de contratador — que lhe dá poder — e vem de Portugal. É, portanto, um estrangeiro a quem todos querem ver e admirar.

Há duas pessoas, entretanto, que vêem o contratador por outra perspectiva: Xica da Silva e José. Ela é a escrava matreira que goza do seu dono e do filho deste, José. Xica se interessa pelo contratador, pois ele é alguém de prestígio e de poder e que se tornará muito rico com sua nova função. Já o filho do dono de Xica considera-o mais um estrangeiro usurpador da riqueza nacional. Quando Xica pergunta a José o que é um contratador, ele responde: "é alguém enviado pelo rei de Portugal para levar o que não lhe pertence".

José é rebelde e sonha em ver a Colônia livre dos exploradores e da opressão. Ele inclusive parte para Vila Rica a fim de participar de um movimento revolucionário (a Inconfidência Mineira, certamente). Suas falas são sempre contra a exploração e o colonialismo e pela busca da independência e da liberdade. O rapaz também acredita muito na capacidade de Xica da Silva, dizendo sempre "essa negrinha vai longe".

Enquanto José vai lutar pela independência da Colônia, Xica prefere se aliar ao conquistador como forma de também exercer poder. Ela o atrai com seus dotes físicos, com sua sensualidade e com seu exotismo.2 Conquistará, com isso, o direito de ser tratada como superior aos seus iguais e de se igualar em tratamento aos demais brancos, embora fosse escrava.

Xica, porém, queria a liberdade para realmente se sentir igual aos brancos, mas quando a consegue descobre que as portas da igreja continuam fechadas para ela: não adiantava ser livre, era preciso ser branca.

A validade do poder de Xica da Silva com certeza estava respaldada no poderio econômico do seu amante. E era com base nesse poder que ela dominava os demais escravos da casa, além de ser tratada com grandes honras e deferências pelos moradores e fidalgos do Arraial do Tijuco. Porém, quando se configura a sua ascendência sobre os brancos, os negros escravos passam a reverenciá-la como uma grande rainha e senhora. Xica torna-se, então, uma espécie de ídolo dos escravos.

Assim, enquanto tem o contratador ao seu lado, ela pode mandar à vontade (seu apelido é "a Xica que manda")4 e ter seus desejos mais exóticos satisfeitos. Por exemplo, como ela não conhecia o mar, o amante construiu um lago artificial e uma caravela. Na inauguração da embarcação, os moradores da cidade foram obrigados a ficar na beira do lago, ao lado do extasiado contratador, olhando Xica e seus escravos divertindo-se. A mulata também exigiu que ele construísse para ela um palácio — as ruínas existiam até início desse século, quando foram destruídas por atos de vandalismo.

No entanto, depois que o contratador vai embora, os moradores da cidade deixam vir à tona o ódio represado contra D. Francisca da Silva, agora chamada de Xica Rabuda. E, embora oficialmente livre, todos passam a tratá-la como escrava, xingando-a, atirando-lhe objetos. Xica foge das agressões e vai abrigar-se nos braços do filho do seu ex-dono.

Xica da Silva foi a personagem feminina que — ao lado de Florípedes, de Dona Flor e seus dois maridos, e de Solange, de A dama do lotação marcou época no cinema brasileiro, despertando a atenção do público. Segundo José Carlos Avelar, elas

aparecem como personagens novos na medida em que não são analisados pela narração nem são colocados dentro da narração para analisar as coisas que se passam em volta deles. Não são um ponto vivo da reflexão sobre a sociedade, mas um reflexo vivo de um ponto da sociedade.5 

 

O autor complementa dizendo que por serem elas contraditórias, ambíguas, incompletas, lembram gente de verdade, ou seja, resgatam o real na tela, ultrapassando os personagens alegóricos do Cinema Novo, que simbolizam toda uma classe, ou os personagens esfacelados e caricatos do Cinema Marginal.

Para Hélio Nascimento, Xica da Silva é o encontro da liberdade com o instinto aprisionado, o momento em que

O conflito entre os impulsos básicos e a civilização é retomado em um ritmo de festa carnavalesca, com utilização dos recursos da sátira, sem esquecer a irreverência e a ironia.6 

 

Já para Ismail Xavier, o filme é uma

encenação de um episódio de resistência à dominação branca cercada de lances pitorescos; dentro de um projeto de espetáculo popular celebra a personagem numa mascarada carnavalesca — cores, adornos e alegria —, e Xica na tela é símbolo da astúcia do oprimido e, ao mesmo tempo, encarnação do estereótipo da sensualidade negra.7 

 

A partir dessas análises, é possível vislumbrar o tema principal do filme Xica da Silva: a luta do negro escravo contra a aculturação e a dominação do homem branco; em última análise, a luta pela liberdade.

Não é assim, porém, que o filme aparece para João Carlos Rodrigues. Para ele, Xica da Silva é o estereótipo da mulata boa e que ascende socialmente por causa dos seus talentos eróticos. João Carlos considera a personagem um mero objeto sexual. E exemplifica:

Lembremos que em sua primeira aparição ela está debulhando milho para as galinhas, ao som de um belo samba de Jorge Ben, cujo refrão diz "Xica dá, Xica dá, Xica dá", e é chamada pelo filho do sinhô como se faz com as galinhas ("xix, xix, xic").8 

 

E durante todo o filme, para este autor, Xica se comporta de maneira negativa: mostra-se despreparada para exercer uma posição de autoridade (cospe na comida das visitas); gasta fortunas em jóias e roupas de Paris; bate na escrava que não quer servi-la; deseja freqüentar locais só para brancos. Ela, portanto, assimila as atitudes dos dominadores brancos sem se importar com a situação dos irmãos negros (olha com indiferença um negro ser chicoteado por ordem de João Fernandes). E por não se modificar é que só lhe resta barganhar novamente com o sexo ao final do filme. É por isso que para João Carlos

a escravidão nesse filme está longe dos horrores da senzala, preferindo a carnavalização dos cenários, dos figurinos e até da interpretação dos atores. Não é incorreta a visão da economia nem das classes sociais, apenas o cineasta as estilizou, num intuito nem sempre coerente de estabelecer metáforas com a época contemporânea.9 

 

A crítica de João Carlos Rodrigues é bastante dura, certamente, porque a ele interessava analisar a caracterização do negro no cinema brasileiro, e, desse ponto de vista, Xica da Silva é representada como uma mulher fútil e egoísta, que não tem qualquer pensamento nobre para com os de sua raça. Ao contrário, assimila-se perfeitamente aos brancos, participando do jogo do poder: manda quem pode, obedece quem precisa.

Por outro lado, essa análise do filme é muito redutora, pois o define apenas pelo lado negativo do personagem, sem levar em conta a sua significação dentro da trama. Assim, os atos que João Carlos julga serem frutos do despreparo de Xica para exercer uma função de poder, tornam-se a revanche dela contra os brancos, o seu momento de desforra contra um sistema opressor. Mudá-lo ela não pode mesmo, por isso age com os brancos da mesma forma que eles agem para com os negros: humilhando-os, colocando-os no seu devido lugar, mostrando quem manda. Neste ponto, a análise de José Carlos Avelar é mais rica, pois resgata Xica enquanto personagem vivo e contraditório, e portanto passível de cometer as loucuras que comete.

No entanto, é possível ir mais longe nesta análise sobre dominador e dominado, e traçar um paralelo entre a história de Xica da Silva, conforme está contada no filme, e a história do Brasil. Com certeza Xica é o Brasil que no início é colônia explorada (a Xica escrava), depois é elevado à condição de Reino Unido (Xica amante, que embora escrava, é superior aos outros escravos), e, por fim, país independente (a Xica liberta). No entanto, da mesma forma que a liberdade de Xica da Silva não garante a ela ser tratada como igual aos brancos (por isso, não pode entrar na igreja), o Brasil independente também não se torna um igual aos demais países europeus só porque deixou de ser colônia. O novo país continua sendo dependente e explorado, embora por novos senhores.

O sonho da liberdade e igualdade é, portanto, uma utopia. Num mundo de regras e hierarquias já estabelecidas, é quase impossível, seja uma colônia independente, seja uma escrava liberta, ser tratado como um igual, pois só o consegue quem é rico e branco. Por isso, ao final do filme, o diretor faz questão de mostrar a ex-escrava sendo apedrejada, pois o suporte do seu poder foi embora. O dinheiro que a mantinha não era dela, e sim de outro.

Neste momento, o filme dialoga diretamente com o presente. O Brasil, que desde Getúlio Vargas pensava estar crescendo, tornando-se grande e poderoso, deu-se conta de que seu poder era ilusório, pois estava assentado em capital externo, com o qual se aliara para crescer. Para defender seus interesses e os interesses dos investidores estrangeiros, a dependente classe dominante preferiu sacrificar os interesses da maioria do povo brasileiro, optando por uma ditadura cruel. Aliou-se, portanto, ao estrangeiro dominador, da mesma forma que o fez Xica da Silva.

Notas

(1) BOXER, C. R. A idade de ouro do Brasil. São Paulo: Ed. Nacional, 1967.

(2) Ela é descrita, por relatos antigos, como alta, corpulenta e feia.

(3) Cf. MACHADO FILHO, A. M. Arraial do Tijuco: cidade Diamantina. Belo Horizonte: Itatiaia/USP, 1980. p.252. O autor afirma que para que Xica da Silva pudesse ir a igreja, o contratador mandou construir uma igreja, chamada de Capela Xica da Silva, cujas ruínas existem ainda hoje na cidade de Diamantina. Ver ainda SANTOS, J. S. Memória do Distrito Diamantífero. Rio de Janeiro: Livraria Castilhos, 1924. p.128. Este escreve que Francisca da Silva sempre freqüentava a igreja coberta de diamantes, com uma magnificência real, e acompanhada de doze mulatas especialmente trajadas.

(4) Segundo SANTOS, op. cit., p.129, se alguém quisesse obter algum favor de João Fernandes, primeiro devia pedir a proteção de Xica da Silva. Diz também que todo forasteiro que pretendesse instalar-se na cidade devia inicialmente pedir proteção a ela, para ter um "princípio de vida".

(5) AVELLAR, J. C. O cinema dilacerado. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986. p.243.

(6) NASCIMENTO, H. Cinema brasileiro. Porto Alegre: Machado Aberto, 1981. p.16.

(7) XAVIER, I. et alli. O desafio do cinema brasileiro. São Paulo: Jorge Zahar. 1985. p.30.

(8) RODRIGUES, J. C. O negro brasileiro e o cinema. Rio de Janeiro: Globo, 1988. p.31.

(9) RODRIGUES, op. cit., p.31.

 

Miriam de Souza Rossini é doutoranda e autora do livro Teixeirinha e o Cinema Gaúcho.

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