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Olho da História No. 4 Página Principal

 

Crônica do isso

Ricardo Neves

Muitas questões vêm me acompanhando ao longo destes anos de clínica médica e psicanalítica. Esta é uma oportunidade de colocá-las. Vou iniciar meu ensaio apoiando-me em Claude Bernard, no seu discurso de abertura do curso de fisiologia no Collège de France, em 1855:

Todo mundo sabe que o ensino no Collège de France é de uma natureza diferente do que caracteriza as faculdades; que ele atende a outras necessidades; que se dirige a outro público; que sua maneira de proceder é essencialmente diferente. // Aqui, o professor, sempre situado no ponto de vista da investigação, deve considerar a ciência, não no que ela possui de adquirido e assegurado, mas nas lacunas que apresenta, para se esforçar por preenchê-las com novas pesquisas. É, pois, às mais árduas e obscuras questões que ele de preferência se acomete, diante de um auditório já preparado, por estudos anteriores, a abordá-las. // Nas faculdades, ao contrário, o professor, situado no ponto de vista dogmático, propõe-se a reunir, numa exposição sintética, o conjunto de noções positivas que a ciência possui, ligando-as por meio desses laços que se chamam teorias, destinadas a dissimular, tanto quanto possível, os pontos obscuros e controvertidos que perturbariam, sem proveito, o espírito do aluno iniciante. // Desta forma, esses dois tipos de ensino são, por assim dizer, diametralmente opostos. O professor de faculdade vê a ciência no seu passado; ela é, para ele, como se fosse perfeita no presente; ele a vulgariza ao expor dogmaticamente o seu estado atual. O professor do Collège de France, ao contrário, deve ter os olhos voltados para o desconhecido, em direção ao futuro. // Longe de estar concluída, a ciência da vida apresentar-se-nos-á com suas imperfeições; preocupar-nos-emos sem cessar, não com o que está feito, mas com o que resta a fazer; e essa direção progressiva é tanto mais importante — vós o compreendereis sem dificuldades — quanto a ciência de que aqui nos ocupamos se encontra mais distanciada de seu completo desenvolvimento.

 

Antes de qualquer outro comentário, desejo dizer que sou um curioso. Acredito que todos somos impulsionados por este desejo de compreensão, que cria a linguagem como a metáfora do desejo. Além de buscarmos a compreensão, necessitamos ser compreendidos ou ... viver esta ilusão!

Após a preparação deste ensaio, entrei em contato com o livro de Octave Mannoni, Isso não impede de existir, e, continuando a minha análise, que compartilho com os leitores, fiquei encantado com esta formulação:

Lacan, em seu seminário sobre a transferência, comentou longamente essa passagem do Banquete; ele apresentou o saber como o objeto e a causa da transferência. No Banquete (à partir de 753), Alcebíades compara o saber de Sócrates a preciosas e brilhantes estatuetas de deuses, os agalmata. Foi dessa palavra que Lacan conservou a inicial, o objeto pequeno a, causa do desejo; ele generalizava aqui a questão, porque qualquer coisa pode desempenhar o papel de objeto a. E, tomando Alcebíades por protótipo de analisando, ele definiu a transferência analítica como tendo por objeto o saber do analista (cf. "o sujeito suposto saber"). Porém, essa mudança não deixa de ter conseqüências para a noção de saber em análise.

 

Ser humano é estar inserido no universo da poesia. Ser um humano adoecido é esquecer de poetizar a realidade? Analista e analisandos? Seria perder a possibilidade de agalmatizar a vida e o que ela nos apresenta?

Falarei da clínica e das percepções que esta atividade em mim determinou enquanto pessoa que busca compreender um pouco mais do que faço e do efeito disto no outro que nos busca, enquanto sujeito ou instituição.

As instituições são constituídas de sujeitos e obviamente desejantes. Pergunto-me, e a todos, se as instituições não são semelhantes às pessoas com seus desejantes individuais, as células? Mas este assunto fica para outro momento. Uma idéia de psicopatolizar as instituições ...

Dentro do serviço de clínica médica, instalado no Hospital Santo Antônio, Obras Sociais Irmã Dulce, iniciamos, há quatro anos, o setor de Psicopatologia Hospitalar, a princípio com vinte leitos. Atualmente, além dos vinte leitos iniciais, atende à clínica médica com interconsulta nos seus 140 leitos, e reúne-se com a pediatria e a UTI, para discussão dos casos acompanhados. Na UTI, todos os clientes são acompanhados por meio da escuta.

A escolha deste nome, psicopatologia, define o nosso pensamento sobre a clínica.

Penso que o adoecer traz, nele embutido, no seu dito, a possibilidade de um aprendizado. Este é o nosso pré-conceito.

Nosso dogma?

Acreditamos que quando esta mensagem, da simbolização corporal, da doença chamada de orgânica, é acolhida e apreendida de outra forma, se realiza a psicopatologia. Algo novo — uma apreensão diferente da realidade, porém já conhecido do sujeito, porque estava recalcado — se apresenta.

Porém, não nos iludamos, nada é de graça. Ao se realizar o "desvendamento", perde-se uma "inocência" e um doloroso recomeço se instalará. Se possível for ...

Se possível for viver sem esta simbolização, necessária quando realizada, pois a pessoa não conseguiu outra forma de viver com seus desejos e interdições, sintoma este que representa uma série de ganhos, gozos reais, da ordem da bioquímica no corpo e sobre o ambiente em que o sujeito está inserido.

Viver sem o "sintoma" significa uma nova vida para o sujeito e o seu universo pessoal.

Afetamos o outro com a nossa presença, alegria ou tristeza, atingimos e somos atingidos.

Na prática clínica, aprendi que cada sujeito e família têm a sua história e, obviamente, seus sintomas.

No bebê, paciente adulto ou senil, o outro é o espelho em que o sujeito se mira e necessita se "segurar" quando diminui a sua sustentação narcísica. Para estarmos vivos, sustentamo-nos no que pensamos que somos e no que pensamos que o outro é. Felizmente, algumas vezes, o outro é. Nos primeiros tempos de infância e em situações de regressão infantil do adoecer, esta necessidade retorna. A necessidade do outro, como espelho.

O psicanalista que atua no hospital e na sua prática de consultório, antes de tudo, necessita ser um terapeuta, saber do amor e do ódio, senti-los, e saber do seu limite, pois amor de terapeuta é amor justo, com limites.

Em situações de UTI ou doenças graves, com risco de vida iminente, o corpo do analista às vezes necessita sustentar e suportar o outro.

É preciso estar atento para não entrar em processos fusionais. Somos pagos para estarmos a nos analisar, assim como ao discurso do outro, na nossa presença.

Não existe análise sem transferência. Atuamos no discurso do outro, quando na interação somos por ele afetado.

Retomando o trabalho hospitalar. Em algumas situações, chamamos as famílias, vizinhos ou amigos. As histórias verbais, em alguns casos, começam assim, por pessoas que se imaginam interlocutoras. Os autistas não chegam assim nos consultórios?

Vou dar um exemplo clínico. É uma historia de situação limite, entre vida e morte. O que de fato aconteceu fica para a criação interpretativa de cada um de nós. Revelo o que fizemos e espero poder colocar aqui idéias sobre a ética a ser utilizada para casos como este.

No início do ano de 1996, no mês de março, fui chamado por uma colega de serviço para discutir um caso clínico solicitado por uma médica residente que desejava a nossa participação. Passo a relatar, após um ano e meio do ocorrido.

Cinco dias antes deste encontro, tinha sido internada, no seu leito, uma senhora de aproximadamente sessenta anos, transferida do serviço de emergência estadual, com um diagnóstico clínico e tomográfico de acidente vascular cerebral, isquêmico, que comprometia lobo temporal à esquerda e área de lobo frontal. Na avaliação neurológica, a paciente estava afásica e comatosa, sem responder às solicitações verbais. Porém, a residente observou que a paciente fechava os olhos quando ela se aproximava, o que parecia demonstrar um nível de consciência maior do que o observado pela neurologia. Na sua interpretação, a paciente apresentava um desejo de não se comunicar e de não obter melhora com o tratamento. Associado a esta observação, a paciente era portadora de infecção respiratória hospitalar, que estava evoluindo mal, com febre elevada e leucograma sugestivo de não resposta terapêutica adequada; ela já estava fazendo o esquema de tratamento para septicemia e não melhorava.

Esta residente tinha estagiado os três meses obrigatórios no nosso serviço, na sua enfermaria.

Retorno ao caso clínico.

A paciente afásica ... perguntei sobre o que sabia da história... não era muito, sabia que tinha sido transferida do hospital de emergência e que o prontuário de transferência não continha história, só relato de medicações e exames complementares. Perguntei sobre a família, e a resposta foi que o serviço social localizou uma filha que já tinha sido contactada para comparecer ao hospital e fazer o prontuário social. Perguntei se ela havia conversado com a filha para saber o que tinha acontecido antes da doença, enfim, algo mais para podermos saber e trabalhar. Ainda não tinha conversado com esta filha e concordou com a idéia de procurar a assistente social para realizar um contato com a família, pessoalmente.

Fez menção de sair. Disse-lhe para esperar um pouco e pedi para irmos conversar com a paciente.

Normalmente não faço assim, trabalho quase sempre na escuta dos discursos dos médicos residentes e do pessoal do serviço, tentando ver as resistências e transferências, ou, melhor dizendo, os ganchos amorosos de cada um ...

Denominarei a paciente de Dona Antônia.

A enfermaria é constituída de oito leitos. Dona Antônia ocupa o leito quatro, um leito encostado na janela que se comunica com um corredor que a separa da entrada das enfermarias de pediatria e do pavilhão do Centro de Reabilitação e Prevenção de Deficiências, um local com cheiro de urina e suor, às vezes bem forte, ruídos de macas, carros de comida e de roupas limpas e sujas. O ruído é tão intenso em alguns momentos que temos de parar o que falamos. Dona Antônia está deitada de barriga para cima, coberta com um lençol alvo, limpo, até o pescoço. A médica residente se aproxima e fala com ela. Percebo que o seu tom de voz é carinhoso. Havia pedido que me apresentasse. Observei, antes de falar, que ela havia tocado em Dona Antônia e lhe agradado os cabelos. A paciente apresenta um rosto que me deu a sensação de raiva, dor e desesperança. Um rosto de rendição, luto e luta. Ou pura impressão?

É uma mulher negra, com idade que me pareceu compatível com o dito. O rosto é assimétrico, que interpreto como conseqüência do acidente vascular cerebral. Continuo o meu trabalho, dou um bom dia para ela e digo:

— Dona Antônia, a sua médica, Dra. Virgínia (como passarei a chamá-la), me chamou, junto com a Dra. Célia (também por mim assim batizada), para conversarmos sobre a senhora. Ela está preocupada com o que está acontecendo com a senhora. O seu derrame e a sua infeção no pulmão já deviam ter melhorado com a quantidade de remédios e antibióticos que a senhora está tomando. E a senhora não vem melhorando. Ela acha que tem alguma coisa mais acontecendo e pediu para que eu viesse, junto a ela, vê-la. Dona Antônia, nós não sabemos nada da senhora; só estas coisas da doença que fizeram a senhora vir até aqui. Precisamos saber mais para poder lhe ajudar. A Dra. Virgínia conseguiu, com a assistente social — que é a pessoa do hospital que procura as famílias e os amigos dos pacientes internados —, chamar alguém da sua família para podermos conversar. Ela já achou uma filha da senhora que será chamada para conversar, já que a senhora agora não está falando. Dona Antônia, nós não sabemos o que lhe aconteceu, mas uma coisa nós pensamos: se a senhora quiser, pode ficar melhor do que está. A senhora está com uma infecção no pulmão e se a senhora tossir com mais força e tentar se mexer na cama, provavelmente vai melhorar mais rápido. A Dra. Virgínia acha que a senhora, pelos exames, pode ficar melhor, se quiser ... Agora eu tenho que ir e volto assim que a Dra. Virgínia me contar a conversa com sua filha ou que eu possa conversar com ela.

 

Sempre penso, pela minha prática, que nestes casos é fundamental falar para a pessoa da possibilidade dela assumir com mais consciência o cuidar de si. Denunciar o desejo e a construção do seu destino.

Dois dias depois, fui informado que a paciente estava no mesmo quadro clínico e que sua filha tinha estado no hospital no dia anterior e estava nos aguardando para conversar. A Dra. Virgínia já tinha conversado com ela na tarde anterior. Quando entrei na enfermaria, ela se aproximou e me disse:

— Você já sabe o que aconteceu com a paciente?

 

Eu não sabia e ela passou a relatar que a filha havia levado-a ao hospital na terça-feira de carnaval, pela madrugada. Ela (a filha) estava brincando o carnaval e tinha deixado os dois filhos com Dona Antônia e o marido. Este não concordava que ela (filha) brincasse carnaval, principalmente porque ela era mãe de família e separada ... Isso gerou uma discussão entre o casal e, segundo o relato da sua filha de dez anos, o seu pai xingou sua mãe e, durante a briga, Dona Antônia passou mal, pois sofria de pressão alta, e depois caiu no chão. O seu pai expulsou os netos para o quarto e disse que era manha da sua mãe ela ter caído no chão ... As crianças tentaram ajudá-la, mas foram impedidas por ele que as mandou para o quarto e as ameaçou de bater se não saíssem. A discussão havia sido antes da meia-noite e quando a filha de Dona Antônia retornou do carnaval, pela madrugada, encontrou a mãe ainda caída no chão da sala, com a luz acesa e toda urinada. Diz que gritou muito, acordou o pai e seus filhos. Um vizinho, dono de um táxi, levou-as para o serviço de emergência. A sua filha, neta da paciente, informou depois que a discussão iniciou-se após a sua saída, antes das dez horas da noite. No serviço de emergência, ela ficou internada sem acompanhante, pois "estava muito cheio com o pessoal do carnaval". Quando retornou ao hospital de emergência, soube que a paciente tinha sido transferida para este hospital.

A paciente estava muito grave, com depressão imunológica, visto que não melhorava da infeção respiratória.

Achei que ela não se sustentava narcisicamente e que, se não se oferecesse, de fato, uma nova perspectiva de vida a ela, não teria por que desejar viver. Imagino, nestes casos, que o sujeito deseja a morte. Não necessariamente a morte do corpo, mas a morte da vida que se vive. O importante é que saibamos que deseja. Deseja algo.

Como dizem os antigos, o amargor do fim de um amor se cura na doçura de outro ... A função do analista não é trazer o outro para uma nova aposta no jogo da vida?

A minha proposta foi conversar com a filha e dizer isto de forma inteligível. Pelo menos assim pretendemos ...

A filha foi chamada. Me apresentei e lhe disse:

— Sua mãe está muito mal. A parte do tratamento médico já está feita. Ela já está usando todos os remédios ... Acho que ela está em dúvida se vale ou não a pena viver. Pelo que soube, ela e seu pai brigaram. Ela teve o derrame e seu pai não percebeu o que aconteceu, ou percebeu e não quis ajudar, não sei, mas acho que se você ou outra pessoa da família não conversar com ela e oferecer-lhe uma chance, ela vai morrer ...

 

A filha não sabia o que falar, ficou com os olhos arregalados, e eu continuei:

— Se você aceitar, nós podemos ir conversar com sua mãe e dizer a ela que você está disposta a cuidar dela quando ela sair do hospital, até que se recupere e veja se quer voltar a viver com seu pai ou com você. Eu tenho mais meia hora no hospital. Se você quiser pensar no que quer fazer, vá sentar fora da sala e me diga a resposta quando eu sair, ou vamos lá agora.

 

Ela topou e fomos conversar. Entramos na enfermaria, dei bom dia a Dona Antônia e lhe disse:

— Dona Antônia, sua filha está aqui, do meu lado. Ela conversou comigo e com Dra. Virgínia, que é sua médica, e está muito preocupada com a senhora. Elas me contaram que a senhora tem pressão alta. Nós sabemos que quando uma pessoa tem a pressão alta e tem uma raiva muito forte, a pressão pode subir muito e às vezes sangrar em algum lugar do corpo, ou os vasos se apertarem para reagir à pressão alta. A senhora teve um derrame do tipo que os vasos apertam o que é bom, pois é menos perigoso. Mas a senhora não está melhorando e eu imagino que sei o motivo. Ouvindo a história do que aconteceu com a senhora, antes do derrame, da discussão que a senhora teve, eu acho que a senhora ficou com muita raiva e a pressão subiu tanto, que a senhora não agüentou e teve este derrame. Agora, acho que a senhora não sabe se quer viver ou morrer; aí, fica sem melhorar ou piorar. Só que o corpo não agüenta isso. A sua filha está aqui. Ela me disse que quer que a senhora viva e vá morar com ela até ficar boa e poder decidir se quer viver com seu marido ou com ela. Da parte da medicina, nós já fizemos tudo o que podíamos. É a senhora, se quiser, quem mais pode fazer agora. Bom, eu vou sair e deixar a senhora com sua filha. Se precisar de mim, fale com Dra. Virgínia. Até logo.

 

Despedi-me, pegando no braço da filha, transformada em mãe da sua mãe, e colocando a sua mão na cabeça da mãe.

A melhora da paciente me surpreendeu. Nesta tarde, ela acordou, começou a comer e o mais incrível foi a sua alta em uma semana, andando para a casa da filha. Não sei como a história continuou.

Nem sempre as histórias terminam assim. Uma nova negação e, com isto, retorno, manutenção do sintoma ou agravamento podem surgir. Mudar e suportar uma vida nova não é fácil ... não se cria uma defesa tão elaborada por acaso.

Porém, sempre é bom frisar: esta dita linguagem, do sintoma instalado na lesão corporal, funciona como um sonho, manifestação do inconsciente e, como um sonho, é cifrada ao sujeito, pelo menos neste momento em que não está interpretada.

Ouço e leio que chamam este caminho da linguagem da lesão corporal de recalque ou forclusão e, se bem entendi, o que dizem por forclusão é que o evento funcionaria como se a consciência não tivesse tido um contato no momento do trauma que, desde Ferenczi e Groddeck, é definido não como um fato mas como o efeito de algo no sujeito.

Quando iniciamos o trabalho no hospital, diziam que a psicanálise não se aplicaria às situações como a apresentada por aquela clientela ... ainda mais por indigentes e doentes do SUS. Eles tinham doenças ...

Toleraram-me, no início, por impossibilidade de me expulsarem, visto que sou professor de clínica médica, e o chefe do serviço de clínica do Hospital Santo Antônio é meu assistente na faculdade. Pode até ser paranóia, mas, algumas vezes, vi lampejos homicidas nos seus olhos ... Um dia, ele me disse que eu devia voltar a fazer medicina pois os residentes e internos não queriam mais ficar na enfermaria discutindo os casos. Eles queriam diagnosticar e receitar os pacientes e não ficar filosofando ...

Os resultados médicos me ajudaram. "Curiosamente", estes vinte leitos apresentaram a menor taxa de infecção hospitalar, menor mortalidade e tempo de permanência em internação. Não foi surpresa para mim, pois a literatura médica já havia registrado que assim ocorre. Hoje, a demanda de pedidos é enorme e estamos negociando nova ampliação de quadro clínico. Alguns resultados, como este apresentado, ou de percepções de pioras aparentemente ilógicas, fizeram um grande efeito sobre o corpo clínico.

Em relação aos psicanalistas, há também um efeito interessante: alguns dizem que não sou; outros que o que faço não é psicanálise, pois estas situações não são atos analíticos; outros gostam e me dão estímulo. Mas quero perguntar a vocês: será que, nas situações clínicas, a situação do dito inanalisável é a resistência do analista?

Achar que algo, sintoma ou sonho, seria inanalisável, pois teria esgotado todas as possibilidades interpretativas ... Como falar isto do outro sem ser ele, e até se fosse? Somos vividos ou vivemos o Isso?

Analisar é metaforizar. Então, como pensar que não se pode mais metaforizar? Não seria acreditar que a linguagem ficou concreta, da ordem da psicose, uma construção particular do sujeito dito analista? Silenciar e desistir não será morrer enquanto se está ali para trazer um morto ao jogo?

Mas sabemos que devemos avançar sempre, na pesquisa e na clínica. Resultados só depois.

A linguagem intra-corporal é tão grande e antiga que, só em um tipo celular, os linfócitos, temos um trilhão de sub-populações celulares, produzindo substâncias diferentes e sendo ativadas por "palavras" intra-corporais diferentes. Sabemos todas estas palavras e muitas outras, mas um saber inconsciente, um saber do Isso que nos vive e vive em cada célula.

Somos seres divididos, desde a concepção, pelos nossos genes de pai e mãe; ora um, ora outro predomina. Vivemos com as histórias e conflitos das famílias que se reuniram nos nossos pais e mães, com hostilidades e desautorização. Ódio e amor. Somos marcados, antes do nascimento, pela linguagem verbal e pelo efeito da linguagem do gene, em nós, escrita, que vai atualizar sobre nós os nossos ancestrais. Ter o olho da mãe é diferente de ter o olho da sogra ou da mãe quando esta passa a ser odiada pelo pai. Isto até é mais fácil de perceber. Mas, e os cheiros, normalmente imperceptíveis, como feromônios. Será que posso dizer que Fliess tem razão? Que tal um retorno a Fliess, Groddeck, Steckel e outros mais?

Acredito que devemos estar atentos na escuta, pois, sobre nós e sobre o mundo, atuamos com uma linguagem muito mais complexa do que freqüentemente imaginamos, e somos igualmente atuados.

Para um analista que se propõe a tratar da clínica, ler Darwin e etologia ajuda a perceber este efeito do Isso/Gene/Energia ou sei lá que metáfora outra podemos inventar.

Dito isto, ficamos para sempre presos ao símbolo, sempre metaforizando. Isto é, seres de uma linguagem só, todos os ditos se referindo a outros ditos, conscientes em parte, mas sempre em parte inconscientes.

Partindo destes pontos, a possibilidade de escuta das verdades de cada um será ouvida como histórias, mitos, e, mais ainda, dramas familiares de várias gerações, etológicos e filogenéticos.

As ditas interpretações, silêncios, hums-hums e outros são diferentes?

No umbigo de cada sonho, e talvez de cada sintoma, o Isso está presente, dialogando consigo mesmo, com a sua parte que chamamos de super-ego.

Os sonhos e sintomas manifestam as doenças de Eros, tentam realizar desejos interditados. Os sintomas irrompem na vida de vigília, marcando o grito insuficiente de Eros que ultrapassa o sonhar. O Isso necessita de saciedade. É voraz. Somos filhos da voracidade das primeiras partículas que habitaram o caldo primitivo. Fazemos o mesmo quando ingerimos outros bichos ou vegetais. Fazemos mais, como os gatos que brincam com baratas ou ratos, gozamos no horror e na dor do outro. Mas ...

Quero me referir à posição que o médico deve ocupar ... A de criar a oportunidade do surgimento da anamnesis.

Anamnesis, o primeiro ato do encontro entre o paciente e seu terapeuta. A palavra, entendo que significa negar a amnésia ou, dito de outra forma, trazer à consciência uma história que foi vivida e ocultada.

Recalque ou forclusão? Ou significam a mesma coisa?

Retorno à idéia da posição do médico que tem na sua lida diária a função de trazer à consciência algo oculto.

O que você sente? Qual a sua queixa? Quando começou este quadro?

Perguntas ... se soubéssemos o que elas querem saber, dizer ..., as respostas teriam outras dimensões.

A psicossomática foi criada — o termo, por Heinhorth, em 1818, se a informação for correta — ao se falar das paixões na gênese da tuberculose, epilepsia e câncer. A melancolia antecedia a situação clínica registrada no corpo. Desde os assírios, a bile negra, melancolia, estava relacionada com a tristeza, depressão.

Os registros existem, mas as escrituras muitas vezes não são lidas. Freqüentemente, as pessoas não lêem o que assinam ou até compram.

Diz-se que "é mais fácil ter livros que lê-los, mais fácil lê-los que compreendê-los".

Daí, posso deduzir que ter um cliente é mais fácil que escutá-lo ou compreendê-lo.

Creio que nos consultórios, de um modo geral, assim ocorre. Na minha experiência de hospital e pesquisa em psicopatologia, esta tem sido uma regra. Claude Bernard dizia que quem não sabe o que busca, quando vê, não reconhece. Às vezes, penso que partes da medicina e da psicanálise estão nesta situação.

A anamnese não é realizada; é como se o conteúdo manifesto de um sonho fosse o sonho ...

Ainda hoje, ou principalmente hoje, não sei bem como dizer, as pessoas que sofrem e os seus sintomas, quando não estão referendados por lesões corporais evidentes, ouvem dos médicos: você não tem nada!

Ouço alguns analistas dizerem: isto não é da psicanálise ou isto não é psicanálise. Será?

Posso interpretar dizendo: talvez você não tenha compreendido ou não escutou a história, que ainda é uma amnésia; isto é, a anamnese ainda não ocorreu. Nós, analistas, que vivemos de anamneses, feitas pelos nossos clientes, sabemos o quanto é difícil elas se processarem e, muitas vezes, o quanto ela são criações do sujeito em busca de algo que lhe falta, perdido, sem, "na verdade", nunca terem existido. O neurótico não funciona assim? Tendo falta de algo perdido, sem ter existido e nunca de todo encontrado? Eterno ser de falta?

Expor essas idéias me encanta. É um desafio expor idéias e trabalhos; é um verdadeiro strip-tease intelectual.

Falar do meu trabalho e idéias me agrada, principalmente porque ele é diferente à cada dia. Se de fato não é, não sei dizer.

Françoise Dolto, no seu livro Inconsciente e destinos, faz afirmações com as quais concordo e muito me ajudam na clínica. Farei uma citação:

Freud disse que não há recordação que não possa voltar se a resistência for suspensa. Eis porque, dada a transferência de confiança que esta criança fizera para mim, eu lhe disse: "Mas sim, você sabe. Você esta impedindo que essa lembrança volte". E voltou.

 

É para isso que servem os mais velhos, que nos dizem coisas da ordem da teoria, sobre as quais podemos nos apoiar.

Cito particularmente este texto para dizer que me apoio na psicanálise para exercer a clínica e, em particular, em Freud, Dolto, Groddeck, Ferenczi, Fedida, Chiozza, Lacan e Rodrigué. Ler os seus textos e conviver com analistas como Eduardo Sande, Ana Tereza, Emílio Rodrigué, Clara Cruglak, o grupo do serviço de psicopatologia hospitalar e o grupo da enciclopédia de psicanálise, me ajudam a pensar.

Pensar — penso —, palavra que significa, na sua origem, pensar uma ferida. Espero que este trabalho ajude a pensarmos algumas feridas.

Tentar enquadrar-se, e ao outro, na posição de paciente e analisante é uma arte, é aprender a "arte" da paciência em substituição ao insuportável transformado em sintoma ou negação.

 

Ricardo Neves é endocrinologista, psicanalista e professor da Faculdade Baiana de Medicina.

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