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Terra Estrangeira Katherine Almeida & Arthur Prado NettoOh, sim! Eu estou tão cansado mas não pra
dizer
No ano de 1990, elegeu-se Fernando Collor de Mello para Presidente do Brasil. Então, a democracia, que por quase trinta longos anos parecia repousar em sono profundo, foi despertada pelo voto direto. O país que acreditava acordar para um futuro promissor não esperava confrontar-se com mais um pesadelo. Ledo engano! Em março do referido ano, aquele que parecia ser o "príncipe-herói" de nossos destinos, anuncia, ao lado de sua fiel escudeira, a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Melo, as novas diretrizes econômicas a serem empregadas pelo novo governo, dentre elas, o confisco monetário. Olhos arregalados, respiração suspensa, mãos úmidas e toda atenção voltada para a televisão estes pareciam ser os primeiros sintomas caricaturais sofridos pelos brasileiros, logo procedido por desesperadas corridas aos bancos e advogados. Sim, era outro pesadelo: o neoliberalismo. Na década de 1970, o militarismo havia inaugurado o marketing, a publicidade e o consumismo veiculados pelos meios de comunicação, tendo como aliada principal a televisão que, a partir de 1973, projetava, agora em cores, o modismo que nos anos 90 seria ditado, também, através da internet, sendo a informática a mais nova linguagem mundial, símbolo do retorno ao liberalismo econômico, ao laissez-faire. O "herói", que trocara seu cavalo branco por um jet-sky, promovera a venda dos bens públicos, abrira as portas do mercado externo, possibilitara a entrada do capital estrangeiro. Estrangeiro? Estrangeira parecia esta terra. Que língua falava aquele governo? Como uma lâmina afiada, o tal discurso dilacerava anos de sacrifícios, de planos e poupanças; mares de lágrimas transbordaram e sonhos se perderam como naus desgovernadas. Em meio à tanta "tragédia", qual seria o destino do Brasil? Inspirado por toda essa angústia, digna de um bom fado, Walter Salles Júnior, escreveu e dirigiu Terra Estrangeira, um filme rodado em preto e branco para melhor demarcar seu contexto histórico, e que se utilizou do Plano Collor como pano de fundo para sua ficção empregando, inclusive, as imagens reais do anúncio do confisco. Uma família de classe média baixa é o universo da história, representada por uma costureira imigrante espanhola (Laura Cardoso) que vislumbra seu reencontro com as terras de Espanha, ao lado de seu filho Paco, um jovem estudante de 21 anos que desejava ser ator (interpretado pelo estreante Fernando Alves Pinto). No continente europeu, encontrava-se Alex (Fernanda Torres), uma mulher perdida em seus ideais, envelhecida pela constante busca de uma vida estável, sufocada pela marginalidade que a envolvia na figura de Miguel (Alexandre Borges), seu namorado, um músico que adotara o contrabando internacional como meio de superar a crise que o afugentara de seu país. Entorpecida pela desgraça que os rodeava, Alex perde o sentido de mulher, de ser humano, vendo-se diante de um amor masoquista e impossibilitada de alcançar sua plenitude. Distante do Brasil, Alex nem imagina o que se passava do outro lado do oceano: banhada pela desesperança, a costureira tem seus sonhos desfeitos através da notícia que escorre da tela da TV: o confisco estanca sua vida, enterra seu desejo. Silêncio ... Desorientado pela morte da mão, Paco assume o seu sonho. Ao encontrar Igor (Luís Melo), um antiquário que parece se sensibilizar com o sofrimento do rapaz, Paco aceita a proposta do "amigo" e parte para Portugal. Em Lisboa, envolve-se em situações de perigo, que acabam por promover seu encontro com Alex, agora fragilizada pelo assassinato de Miguel. O casal é unido mediante a frustração da vida. Alex encontra em Paco a juventude perdida, esquecida, sepultada pelo contrabando, pela solidão estrangeira. Em termos poéticos, tanto o enredo como as imagens trazem uma qualidade artística rara em filmes brasileiros, com efeitos de iluminação sofisticados, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora honrada pela interpretação de Gal Costa e que simboliza a metáfora amorosa vivenciada pelo casal para quem nada resta, apenas o amor. Um instante filosófico, repleto de poesia, paira na cena do velho navio encalhado no mar, impossibilitado de seguir ou retroceder, tal como os dois personagens que permaneceram estáticos dentro do contexto da marginalidade, numa vida reticente, envelhecida, como uma matéria bruta, ou como o velho navio enferrujado que não alcançou o seu destino. No entanto, o amor que surge entre ambos recompõe a possibilidade do sonho, é o condutor da libertação. No momento em que se amam, parecem perder a condição de estrangeiros, de estranhos, é o resgate de identidade, da própria vida (digna). A música Vapor Barato, de Jardes Macalé, faz uma alusão entre a geração dos anos 70 que lutou contra a ditadura, restando-lhe como "alternativa" o exílio e a geração dos anos 90 que passou por um processo de espera pela democracia, vendo-se diante de um Brasil sem esperança ou perspectiva: a "obrigação" de partir para uma terra estrangeira. Aproximando essas duas épocas, a juventude "cara pintada" seria o veículo da expressão popular que firma o desejo de impeachment do Presidente Collor, em outubro de 1992. Do ponto de vista histórico, o filme aborda poucas questões acerca do governo Fernando Collor mas evidencia uma temática bastante atual: o grande problema de emigração brasileira e a sua relação com o tráfico e o contrabando. Do mesmo modo, o consumismo não é abordado pelo enredo, talvez pela falta de recursos financeiros. Por se tratar do ressurgimento do cinema nacional e apesar das inúmeras dificuldades, ao lado de O qu4trilho e de Menino maluquinho, o cinema brasileiro parece ter conseguido apagar os vexames e os estereótipos projetados no passado pela pornochanchada e pela má qualidade visual das películas. Contudo, essa nova safra de filmes precisa atentar para a qualidade apresentada nos áudios: com vozes distorcidas e efeitos sonoros abafados, acarretando muito esforço do espectador para a compreensão das falas.
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