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Olho da História No. 3 Página Principal

 

A era da corrupção:
PC Farias não está morto !!!

Jorge Nóvoa

Diz-se que o povo brasileiro não tem memória. Mas esta é uma verdade que deve ser admitida até certo ponto. Ao longo da história da humanidade, as camadas dirigentes sempre criaram ou dispuseram de mecanismos para guardar e ampliar a sua "memória coletiva" e passá-la a seus descendentes. Já as camadas da população, que ao longo dos milênios do processo "civilizatório" se acharam subordinadas, tenderam, na maioria dos casos, a reproduzir as visões e, portanto, a "memória coletiva" dos seus governantes. Isto parece uma assertiva elementar, mas que tem a vantagem de tornar relativa aquela referente à memória do povo brasileiro. Na verdade, este é um fenômeno que se tem verificado em todos os quadrantes do planeta e ao longo da história. Se parte da perda da auto-memória do povo é fruto da repetição da memória "dominante", uma outra é o resultado de um mecanismo psicológico que é verdadeiro tanto para os casos individuais como para os coletivos: para tentar sobreviver ao sofrimento, às vezes, o único remédio é esquecer!

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Há alguns meses, o povo brasileiro achou-se, por vários dias, bombardeado pelos jornais, rádios e, sobretudo, pela televisão. O produto utilizado era altamente explosivo: "a novela do assassinato de Paulo César Farias". Quem matou o PC? Trata-se de um crime passional? Ou foi simplesmente um crime friamente calculado por políticos (de carteirinha ou não) profissionais de Alagoas ou de qualquer outra parte do Brasil? Foram os corruptores de "colarinho branco" ou os que usam a "luva negra" da máfia traficante? Foram os seus irmãos ou Fernando Collor de Mello? Quem matou PC Farias? Por quê? Quem mandou matá-lo? Todo mundo sabe, em certa medida, responder, mas pouquíssima gente o sabe com exatidão.

Seja qual for a resposta, nós estamos diante de uma "crônica de uma morte mais que anunciada"!. Mesmo que a namorada do PC tenha puxado o gatilho da arma que o matou, as chances de que ela tenha-se suicidado são mínimas. Não vamos entrar em argumentações técnicas semelhantes às dos legistas que podem nos ajudar a esclarecer, mas também a nos afastar dos reais problemas em jogo. Ora, todo mundo parece ter esquecido — e nesta conjuntura já não apenas o povo brasileiro — que o presidente deposto pelo povo, que havia sido eleito por uma parte dele, esteve envolvido nos esquemas de corrupção, de troca de favores e de contas-fantamas montadas em todo o Brasil pelo senhor Paulo César Farias — apenas um dos aliados importantes, apesar de ter desempenhado um papel chave em todo o processo de corrupção montado sob sua liderança. Este senhor, de uma frieza e de uma competência racionalistas, temperadas por um cinismo cáustico, havia adquirido, naqueles anos ainda bastante próximos, um poder fora do comum, tornando-se a "eminência parda" da campanha e depois do governo de Collor de Mello, tecendo sua política não só nos bastidores e na calada da noite, mas também em plena luz do dia.

Entretanto, o mais importante foi absolutamente esquecido: o principal promotor da vitória de Collor foi, em primeiro lugar, a unidade que as camadas dirigentes deste país chamado Brasil forjou em torno da figura de Fernando Collor e, em segundo lugar, e a partir do estabelecimento daquela unidade, o papel desempenhado pela mídia hegemônica e televisiva que conseguiu canalizar as aspirações dos setores dirigentes das camadas dominantes nacionais e internacionais, assim como de grande parcela da população. Esse processo, que se iniciou muito antes do período das eleições — quando a Rede Globo, por exemplo, apresentava programas como o Globo Repórter nos quais elogiava e destacava as atuações públicas de Collor de Mello no governo alagoano, como "caçador de marajás" e político honesto e competente —, se asseverou quando, no segundo turno, surgiram possibilidades reais que poderiam levar (e por muito pouco não levou) o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República. Todo mundo também se esqueceu que foi essa mesma "fábrica de opinião" que, no momento em que já não havia mais como manter Collor no poder, quando a unidade fundamental e inicial foi esfacelada, quando os desgastes da imagem do "super-homem" se arraigaram, de modo insustentável, na mente de largas camadas da população, entregou progressivamente Collor à "fúria da canalha popular" e a grande parte da juventude estudantil que tinha uma consciência apenas parcial das questões em jogo e das conseqüências de seus atos. Fernando Collor de Mello havia ultrapassado todos os limites do "aceitável publicamente" e isto se tornou visível, por uma série de fatos que se somaram no processo, apesar da mídia hegemônica.

O povo se misturou às palavras de ordem puxadas pelos sindicatos, partidos de esquerda e associações de bairros. Depois, vieram os partidos mais ou menos liberais e o "partido" televisivo, fazendo eco à percepção de setores importantes das elites que, mesmo resistindo até o último momento — com receio do vazio político que provocaria o impeachment de Collor, "forçado" pela pressão popular —, de forma ambígua inicialmente, e, em seguida, de modo realista, reconheceram a inevitabilidade da saída de Collor do poder. Rapidamente, aqueles aliados da véspera passaram a entoar o discurso da "moral", dos "bons costumes", da "dignidade brasileira", vestindo "pele de cordeiro" e deixando o "pobre Collor de Mello" sozinho com sua pose de altivez que já não convencia, na sua histeria, nem a ele mesmo.

Pois bem. Sob acusação de corrupção, Collor foi deposto. No entanto, aquele que foi para detrás das grades não foi o ex-presidente, mas o seu "fiel escudeiro", o PC Farias. O ex-presidente da República do Brasil despejou toda a responsabilidade pelas acusações de corrupção, suborno, etc. no seu braço direito da véspera. Tudo isso foi mais ou menos esquecido. E, hoje, Fernando Collor acha-se gastando uma parte do dinheiro, que "tomou" da nação, em viagens intermináveis pelo mundo, igualmente a toda uma série de personalidades que o "auxiliavam", direta ou indiretamente, no seu governo e que, em muitos casos, encontram-se ainda assumindo cargos públicos do país ou, de alguma forma, participando dos negócios do Estado . A "super-ministra" Zélia Cardoso de Mello, por exemplo, ao tempo que confiscava a poupança dos brasileiros, recebia propinas "por debaixo da mesa" que, hoje, são explicadas como tendo sido empréstimos de familiares utilizados para a reforma da sua própria habitação. Mas a verdade parece achar-se, neste caso, na memória das empreiteiras. O ex-ministro Rogério Magri, por sua vez, recebia empréstimos para deixar o FGTS dos trabalhadores brasileiros ser usado para fins escusos. Mas estes dois ex-ministros, que não parecem de modo algum arrependidos, são, talvez, o que se possa considerar "peixes pequenos" do "esquema PC" e que hoje continua em funcionamento, não mais sob a liderança de PC, mas de algum outro Paulo, ou Fernando, ou Antônio. Recentemente, em depoimento ao programa Jô 11 e 1/2, o Senador Pedro Simon entregou ao Jô um extenso relatório sobre a corrupção em diversas instâncias do governo e afirmou que a morte de PC Farias havia levado consigo 70% das informações que se necessitava ainda para completar tal relatório que, seguramente, envolveria não apenas políticos profissionais mas, sobretudo, o empresariado.

É realmente muito difícil acreditar, nessas circunstâncias, que os motivos que levaram à morte de PC não tenham nenhuma relação com todo o conhecimento que ele detinha sobre a corrupção nos altos escalões da sociedade brasileira, e, possivelmente, de suas conexões internacionais. É realmente hilário acreditar que, por alguma razão, ainda que aparentemente consistente e plausível, a morte de PC tenha tido origem passional. É no mínimo curioso que nas horas que se seguiram à morte do PC, o seu irmão tenha admitido imediatamente esta hipótese. Pedro Simon reclamou, e com razão, da falta de empenho do atual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que fez saber, através de seus porta-vozes, que não se deveria alimentar tais investigações porque isso atrapalharia suas reformas. Jô Soares retrucou, corretamente, indagando se o fato de acabar com a corrupção não seria a primeira reforma necessária a ser empreendida no país.

O que parece que a grande parcela das pessoas não consegue enxergar é que a corrupção é um sinal dos tempos. Ela se constitui emblemática pelo grau e pela universalidade que alcançou em todos as latitudes e longitudes do planeta — basta lembrar os escândalos recentes que abalaram os governos do Japão, da Itália, do Peru e do México, por exemplo, o que refuta o argumento de que a corrupção está presente apenas em governos do "Terceiro Mundo" —, a tal ponto de se poder afirmar correntemente que, na história da humanidade, "nunca existiu governo sem corrupção". Na verdade, os novos/velhos tempos assinalam uma mudança importante de grau e até mesmo de qualidade: a corrupção se incrustou na sociedade capitalista do neoliberalismo, tornando-se mesmo estrutural. No caso brasileiro, isto explica, dentre outras coisas, a frieza cínica com que PC Farias depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou o fenômeno no Congresso Nacional, onde passou de acusado a acusador: dizia ele ao se dirigir aos parlamentares, segundo Simon: "todos vocês são cínicos porque todos mexeram com dinheiro e receberam dinheiro para suas campanhas". Todo mundo sabe disso e isso se tornou natural. PC Farias foi cínico, corrupto e corruptor, mas também dizia verdades, para se defender.

A banalização, por longas décadas, pela mídia, das diversas formas sociais que assumem a corrupção, a criminalidade e a impunidade, transforma-as no seu reverso, quase num valor "positivo" (ou, no máximo", neutro) universal, a partir do qual não ser corrupto é sinônimo de estupidez, é um antivalor. As ironias da história mostram que a reprodução ampliada da corrupção a uma escala planetária tornam os olhares da população, que tem poucos poderes conscientes, de mais a mais e na melhor das hipóteses, de curiosos em ceticamente indiferentes. Isto é ainda mais grave quando se aplica a uma parte da juventude (a maioria) que, destituída de perspectivas, adota uma ética progressivamente niilista. Na atual conjuntura — que pode ser de longa duração —, os olhares "moralistas", tão poucos, enxergam, como remédio, nada mais do que medidas coercitivas e reformadoras. Porém, as reformas, embora necessárias, não conseguem reverter um quadro estrutural em que a acumulação de capital não pode mais existir sem a corrupção.

Neste sentido, PC não morreu. Ele sobrevive no espírito e na carne de milhares de PCs, uns anônimos, outros nem tanto. E como bem imaginou Jô Soares, poder-se-ia indagar o que aconteceria no Brasil se Paulo César contasse os 70% do que sabia sobre a corrupção no Brasil e no mundo. Possivelmente, não somente as reformas neoliberais do outro Fernando (que as aplica de modo muito mais hábil do que o de Alagoas) tivessem que ser adiadas, como também outras tantas situações inusitadas tivessem que ser enfrentadas. Desta vez, não somente pela memória popular ressurdida, mesmo que parcialmente. Mas será que PC Farias, inteligente e calculista como era, não teria deixado esses 70% de informações desconhecidas em algum lugar, já que não os deixou em nenhuma sala de tortura? Será que ele não deixou um depoimento escrito ou gravado com esses 70% em algum canto desse imenso Brasil, ou do mundo? É provável que muita gente "boa", para além dos seus guarda-costas que "não vêem e não sabem nada", mesmo tendo consciência de que somente os "ladrões de galinha" são penalizados, esteja sofrendo de insônia. Quem sabe, talvez apenas até que a televisão esqueça!!! Mas, é verdade, ela já esqueceu! E o povo?

Jorge Nóvoa é professor do Departamento e Mestrado em História da Universidade Federal da Bahia e coordenador da Oficina Cinema-História.

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