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Olho da História No. 2 Página Principal

 

A Espanha incandescente

Jorge Nóvoa

 

Um dos generais franquistas no momento de atacar trincheiras republicanas se refere aos inimigos como valentes porque eram também espanhóis. A dança macabra festejando a derrota dos milicianos da República que os partidários da Igreja Católica espanhola e de Francisco Franco preparavam não impediu tamanha admiração ‘involuntária’ em relação àqueles que se batiam com a coragem de quem tem sangre en las venas. É curioso, sem querer sobrevalorizar mitos ou estereótipos de qualquer natureza, constatar que a Guerra Civil Espanhola durou três anos, longos anos onde "metade da Espanha morreu"1. Na verdade, a Península Ibérica, com suas diversas nações de culturas e línguas tão diferentes como a Galícia, o País Basco e a Catalunha, se unifica por um traço cultural comum, talvez herdado dos setecentos anos de resistência à dominação moura que jamais conseguiu penetrar no território basco: trata-se da coragem, do destemor, da valentia, da ‘raça’! O espanhol, seja de onde seja, é sobretudo um valente e, diante da morte ou da sua possibilidade, este traço cultural deve reaparecer como um valor supremo.

O destemor que se mistura ao desejo mais ou menos inconsciente de guerrear, conquistar, de matar el toro, marca a cultura espanhola de um outro signo: a tragicidade. A tragicidade de uma potência que "não via o sol se pôr" no século XVI e que chegou os anos trinta do século XX sem realizar uma verdadeira unificação nacional — que aliás tampouco hoje se acha realizada —, como um país pobre, atrasado e desigual, com os seus bolsões de riqueza industrial em meio à miséria. A burguesia industrial catalã, por exemplo, sentia falta de uma República que representasse mais diretamente os seus negócios. Mas dos bas-fonds dessa sociedade, também de forma desigual e mais ou menos inconsciente, brotava um outro grito, por uma República que não podia coincidir com a dos financistas, dos comerciantes e dos industriais prósperos.

O tempo histórico se torna relativo nesse contexto. Marx escreve em 1854 que as insurreições na Espanha eram tão velhas como os governos dos favoritos de Palácio contra os quais se dirigiram quase sempre. E diz mais:

A revolução na Espanha adquiriu agora traços de situação permanente ... que as classes endinheiradas e conservadoras começaram a emigrar e a buscar segurança na França. Não é de estranhar: Espanha jamais adotou a moderna moda francesa tão em voga em 1848, de começar e levar a cabo uma revolução em três dias. Seus esforços neste terreno são complexos e mais prolongados. Três anos parecem ser o mínimo de brevidade a que se contrai e em certos casos, seu ciclo revolucionário se prolonga até nove. Assim, sua primeira revolução neste século se estendeu de 1808 a 1814; a segunda de 1820 a 1823 e a terceira de 1834 a 1843. Quanto durará a presente e que resultado terá, é impossível que o prediga ...2

 

A tragicidade do esmagamento do processo iniciado na Espanha do século XX em fevereiro de 1931, com o restabelecimento da constituição por Afonso XIII e com a vitória dos republicanos, em abril, culminando com a rendição de Valência e de Madri em março de 1939, e portanto por três anos de guerra civil, só pode ser explicada por uma vontade e uma tenacidade pelo menos de alguns setores sociais que, de um modo ou de outro, entenderam não se tratar apenas de uma luta contra a monarquia, e posteriormente contra o fascismo, mas de um embate que colocava em jogo o destino da humanidade que, como se asseverou, estaria em risco no teatro europeu — e não só — da Segunda Guerra Mundial. Esta luta vinha sendo gestada desde, pelo menos, o início do século XIX; mas, para constatar marcas específicas, a analogia com outros processos nacionais ajuda ao estudioso da história. A potente Alemanha que, é verdade, concluiu seu processo de unificação no final do século XIX, havia desenvolvido uma indústria pesada e um operariado forte, não somente pela sua expressão numérica mas também pelo peso das suas organizações sindicais e políticas, viu os hitleristas se apossarem do poder político em algumas semanas e as suas diversas organizações civis sucumbirem às botas dos SA nazistas. Todos os direitos constitucionais se evaporaram sem que a chamada sociedade civil e suas associações, sindicais ou políticas, tivessem empreendido um único combate armado.

Outros exemplos iguais ao alemão podem ser evocados em analogia ao processo espanhol. Todos eles ressaltariam uma determinação acumulada e sedimentada movida por uma rage au coeur, como diriam os combatentes franceses na Guerra Civil Espanhola, não somente contra a monarquia, e contra a existência de privilegiados, mas ainda contra a super-exploração a que setores inteiros do povo eram submetidos. Sem dúvida, não se pode derivar destas afirmações nenhuma assertiva aproximada à política do ‘tanto pior melhor’. Porém, a verdade é que militares de carreira armados de um exército profissional e regular, treinado nas colônias por décadas de exploração, abastecido com armamentos, material militar dos mais modernos pela Alemanha e Itália e, além disso, apoiado por técnicos e milhares de soldados destes países, precisaram de três longuíssimos anos para derrotar a Espanha de uma República que tirou suas forças da parte mais consciente dos trabalhadores das cidades e dos campos que decidiu defendê-la pagando com o preço de suas vidas. As nações desenvolvidas e ‘democráticas’ responderam às forças que lutavam na arena espanhola com o cinismo da política da ‘não-intervenção’. Esta política não somente não evitou a intervenção nazi-fascista, como também abriu um flanco político da maior importância que terminou facilitando o trabalho de Hitler no Leste europeu e que se consolidou com a assinatura do Pacto Germano-Soviético e, em última análise, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

A Espanha, como os países ditos do ‘terceiro mundo’, experimentou um certo desenvolvimento provocado pela demanda interna e externa oriunda da Primeira Guerra Mundial e que vai se repetir, num certo sentido, em 1929, com a crise mundial. Mas, ao mesmo tempo, essa relativa vantagem aumenta suas contradições internas que vão estar na origem da crise política que se expressa através de fatos como a revolta militar em Ciudad Real, o fechamento das universidades para eliminar o movimento estudantil, a demissão de Primo de Rivera, o abrandamento do General Berenguer, a amotinação da guarnição de Jaca, a instituição e a anulação da Lei Marcial, enfim, uma sucessão de acontecimentos que vão de 1929 ao incêndio cujo estopim foram as eleições de junho de 1931 que dão maioria esmagadora à aliança republicano-socialista3. Esta vitória parlamentar ocorre numa situação em que, em boa parte da Europa liberal, o regime parlamentarista está em crise. Como diria Broué no clássico que escreveu com Témime sobre a Espanha desses anos:

A Espanha do início do século XX é o arcaísmo do Ocidente: nesse mundo que se uniformiza, ela é uma ilha de tradições e seus senhores se gabam de terem sabido, face às correntes políticas e econômicas modernas, manter a hispanidad. É portanto nesse país profundamente enraizado no seu passado que se desenrola a última revolução do entreguerras ... A revolução espanhola diferentemente do Outubro russo, não é a primeira centelha de um incêndio que se propagava, mas somente a última chama de um fogo já extinto em toda a Europa4.

 

O desejo dos liberais, democratas e socialistas, após as eleições de abril e junho de 1931, era modernizar a Espanha fazendo-a superar o arcaísmo hispânico do qual a Igreja e as Forças Armadas se orgulhavam, aliadas nesse orgulho aos grandes proprietários oligarcas que detinham as terras espanholas. Mas o principal obstáculo a esse projeto modernizador eram estas forças mesmas que se escudavam na elite militar e faziam a cúpula da igreja espanhola de porta-voz. A idéia de modernizar a Espanha achava-se associada à idéia de revolução e, como é difícil defender diretamente o atraso, as forças reacionárias elegeram alguns valores que se tornaram palavra de ordem e se inseriam na saudação fascista que aprenderam rapidamente e exibiam de modo concomitante ao grito de ‘Viva Espanha’: propriedade, pátria, ordem, família e religião católica. A cólera com a qual gritavam tais slogans se multiplicava quando a oportunidade à repressão se fazia presente. A violência física e de massa se acha a ela indissoluvelmente interligada. Os massacres, as caçadas e as perseguições sem dúvida tiveram o papel de fazer recuar, às vezes, os mais autênticos partidários da modernização, especialmente aqueles que se situavam em estratos da burguesia liberal, mas também no campo do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Na verdade, regressando à gênese dos processos que foram desencadeados nos anos 30, deve-se lembrar que a ditadura de Primo de Rivera caiu por esgotamento interno. Foram as enfermidades da antiga sociedade que provocaram seu desabamento. As camadas dominantes mais avançadas não apoiavam a ditadura porque não tinham interesse imediato no esmagamento das reações populares e também porque o projeto ditatorial negava suas aspirações econômicas, financeiras, políticas e culturais. Mas é também verdade que estes setores não fizeram nada para abreviar o tempo no qual a ditadura permaneceu moribunda deixando-a cair de podre. Quando isso se consumou, os liberais lançaram a responsabilidade de tudo na monarquia, procurando adaptar-se à nova conjuntura. Quando industriais e financistas, através dos seus políticos de carreira, tentaram mudar a forma de dominação, se acharam prisioneiros de todo o fardo deixado pela monarquia. Sua adaptação aos novos tempos e à radicalização progressiva da juventude estudantil e de setores dos trabalhadores, porém, encontrou limites. Com certeza, a crescente cooperação dos setores liberais com os socialistas ampliou a margem de manobra daqueles, semeando ilusões e decepções que iriam fazer cair as máscaras com um peso que só fez multiplicar a ruptura de setores inteiros de trabalhadores, nas Astúrias, no País-Basco e na Catalunha principalmente, mas também em Madri e em outras regiões.

Esta dialética deixa claro um conteúdo que uma parte da população assimilou pelo instinto: na Espanha — e de há muito tempo —, já não havia espaço para uma revolução democrática, sob a hegemonia das classes dominantes ‘modernizantes’, a não ser em detrimento das aspirações da maioria da população. Essa percepção era reforçada pelo que ocorria em outras regiões da Europa, em especial a Alemanha e a Itália, mas também a URSS. A experiência alemã, onde comunistas e sociais-democratas se degladiavam, deixando um vazio político aberto a Hitler que toma o poder sem disparar um só tiro, é o exemplo claro das conseqüências de uma política de divisão alimentada pelos dois setores do movimento operário internacional. Mas a URSS, que havia surgido como uma grande esperança para os trabalhadores do mundo, promovia a existência de sua população na quase escravidão das coletivizações forçadas e da industrialização acelerada, sendo que, no nível político, já se vivia a fase do terror stalinista. Nessa situação internacional, a Espanha trabalhista, através das suas lideranças, buscou uma outra via. Sob a pressão dos impulsos mais profundos que desembocaram na Greve Geral das Astúrias, desapareceu, nesta conjuntura, a divisão entre socialistas, anarquistas e comunistas, dando lugar a uma Aliança Operária de frente única dos trabalhadores que encontrou na fórmula unidad hermanos proletarios, mais que uma palavra de ordem, um grito de guerra. Em outubro de 1934, ocorrem levantes em Madri, Barcelona e nas Astúrias e se forma um pequeno Estado-operário. Enzensberger se refere assim a este evento:

‘A Revolução de Outubro’ asturiana caiu injustamente no esquecimento. Desde os dias da Comuna de Paris a Europa ocidental não tinha visto nada igual. ‘Irmãos proletários, uni-vos!’ com este lema insurgiram-se províncias inteiras no Norte da Espanha. A formação de conselhos não tardou A direção sindical perdeu o controle sobre o movimento. Velhas rivalidades foram esquecidas: nas Astúrias, social-democratas, anarquistas e comunistas uniram-se no combate às tropas do governo.

O trágico da revolução asturiana reside no fato de ela ter ficado isolada desde o início, restrita a uma região afastada dos grandes centros do país (...) os focos da revolução foram bombardeados e os trabalhadores das Astúrias massacrados pela legião estrangeira e por regimentos mouros, sob as ordens de um general de nome Francisco Franco. A repressão foi terrível. Em fins de 1935 havia mais de trinta mil presos políticos5.

 

Enzenberger conclui afirmando que a causa da derrota desse levante "no final das contas foi a profunda cisão do movimento". Provavelmente a hipótese mais apropriada devesse assinalar o pouco tempo que uma política correta teve para fazer seu trabalho: a vontade instintiva das amplas massas e camadas da população trabalhadora por unidade achava-se crivada por décadas de divisão, praticada pelas direções sindicais e políticas do movimento social espanhol, além do nacionalismo regional que, sem dúvida, imprimia seu peso às lideranças daquele movimento.

A reação da direita foi de tanto entusiasmo com os resultados alcançados que ousou marcar eleições para fevereiro. Mas perdeu para os socialistas que retomaram a tática parlamentar fazendo alianças com os partidos republicanos de centro, no que foram seguidos pelos comunistas. Os anarquistas e o Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) recém-fundado6 apoiaram a Frente Popular nessas eleições. Mas uma das principais forças responsáveis por esta vitória foi a anarco-sindicalista Confederação Nacional do Trabalho (CNT) que, no entanto, não participaria do parlamento. A vontade de impedir a ascensão da direita era tão grande que mesmo as correntes anarquistas e anarco-sindicalistas apelaram para o voto nos candidatos da Frente Popular. Assim, mais uma vez após as eleições que, em 1931, puseram fim ao reinado dos Bourbons, seus dirigentes romperam com a tradição histórica e de princípio: a não participação em eleições que não fossem para eleger representações diretas em suas associações.

Os números ajudam a entender melhor a ascensão do movimento dos trabalhadores: os socialistas que haviam colaborado com a ditadura de Primo de Rivera conservaram uma força considerável. Em 1930, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) detinha 16.878 filiados e a União Geral dos Trabalhadores (UGT), a central sindical por ele dirigida, 287.333 aderentes. Em 1934, registram-se cem mil militantes do PSOE e um milhão e 250 mil filiados à UGT.

Por sua vez, a CNT reagrupava um número de associados semelhante ao da UGT, constituindo sob a direção da Federação Anarquista Ibérica (FAI), a ala mais radical do movimento. Ela se orientava, mesmo sob a República, por uma linha insurrecional, opondo-se ao sindicalismo reformista dos socialistas através do método da ação direta. Já o Partido Comunista Espanhol (PCE) constituía um grupo de apenas oitocentos militantes. Somente o abandono de sua política sectária e a sua integração na frente única operária, Alianza Obrera, permitiram sua progressão e, em 18 de julho de 1936, quando explodiu a Guerra Civil, ele já possuía cinqüenta mil membros. Na Catalunha, o PCE fundiu-se com organizações socialistas e nacionalistas, formando o Partido Socialista Unificado da Catalunha (PSUC) dirigido pela Internacional Comunista e organizando sete mil militantes. Existia ainda a influência do Bloque Obrero y Campesino (BOC) que surgiu de uma ruptura no PCE no fim da ditadura, promovida dentre outras pela Federação Catalã-Balear. Em 1934, quando o BOC tomou a iniciativa de impulsionar a Aliança Operária, contava com cinco mil aderentes. Por último, a Oposição de Esquerda, que seguia de modo aproximado a orientação de Trotsky no início de 1931, não era mais que um núcleo de uma centena de militantes que se ampliou para quatrocentos membros em 1934. Seus dirigentes, em fins de 1935, contra a orientação do velho revolucionário russo que propugnava a sua inserção como ala esquerda do PSOE como a única possibilidade de se exercer uma forte influência também fora da Catalunha, adotaram a fusão com o BOC, conseguindo congregar sete mil militantes na Catalunha7.

Sem dúvida, essa força organizativa, numa conjuntura que já havia experimentado várias insurreições, inclusive aquela de outubro de 1934 nas Astúrias que produziu cinco mil mortos, dez mil feridos e oitenta mil presos políticos com sérias em repercussões em Madri, e uma quase-insurreição em Barcelona e em outras cidades e províncias espanholas, provocou calafrios nos setores reacionários. A Igreja, com seus 130 mil membros e a posse de 11 mil domínios, não estava longe de possuir a maior parte da propriedade fundiária e urbana, sendo uma potência do mundo dos negócios; bancos, indústrias, estradas de ferro, minas e companhias de navegação eram por ela controlados, diretamente ou por testas-de-ferro. Além disso, ainda sob a República, ela continuava a senhora da educação, bem verdade que num país com 35 mil estudantes e 12 milhões (45%) de analfabetos! As Forças Armadas possuíam um enorme aparelho para as possibilidades do país na época: 195 generais, 17 mil oficiais e 109 mil soldados. A absoluta maioria era constituída por oficiais reacionários anti-republicanos que acreditavam ser a encarnação da hispanidad e dos interesses da Pátria. Se não eram capazes de resistir durante uma semana a um exército moderno, foram capazes de promover o banho de sangue das Astúrias em 1934, abreviando o governo de Conselhos Operários que se organizou, a 12 dias de curta existência8. O governo conservador instituído em 1934 iria nomear para ministro da Guerra Gil Robles que proclamou a anistia dos militares implicados no pronunciamento do General Sanjurjo e todos readquiriram seus antigos postos. Neste mesmo ano, Sanjurjo cria o principal centro da conspiração militar do qual faz parte o chefe do Estado-Maior Francisco Franco e todos que, ocupando postos de comando no Exército da República, aderiram aos preparativos da União Militar Espanhola.

Esta fortaleza ‘inexpugnável’ da reação agia numa frente única das classes dominantes, na qual se incluía a Falange Espanhola Tradicionalista que desenvolvia um programa que estrategicamente visava "a harmonia das classes e das profissões em um destino único", a Pátria e a Europa. Segundo Broué, apenas sua atitude em relação à Igreja a diferencia do fascismo italiano: um falangista, mesmo ateu, tem na Igreja católica o ideal histórico da Espanha9. No espectro da extrema direita, é preciso incluir a Ação Popular, o partido da hierarquia da Igreja que encontrou em Gil Robles seu chefe. Em 1933, ele conseguiu fundir seu partido com outras organizações de direita, constituindo um partido maior chamado Confederação Espanhola das Direitas Autônomas (CEDA). Esta organização, durante 1934 e 1935, o bienio negro, animará a coalizão com os republicanos de direita na destruição sistemática das conquistas do primeiro governo republicano.

Outras forças políticas apareciam no leque das formações das classes dominantes, como os republicanos autonomistas que desejavam uma real unificação das diversas nacionalidades numa verdadeira nação espanhola. Além deles, o Partido Radical expressava os anseios de uma pequena burguesia, hostil à Igreja e as Forças Armadas, desejosa de uma modernização que abrisse a via definitiva ao desenvolvimento capitalista na Espanha. A arena dos atores sociais estava, no fundamental, constituída. A direita e a extrema-direita jamais digeriram a derrota eleitoral de 1931 e, como disse Vilar, "a experiência democrática era vivida desde então como uma anomalia maligna que devia ser extirpada a ferro e a fogo"10. O que se contava era com a covardia dos setores republicanos liberais, ou com os zigue-zagues do oportunismo dos socialistas na conjuntura de então, ou ainda com a política ambígua do PCE que já havia adotado as teses da Frente Popular, abandonando a política da frente única empreendida na Alianza Obrera. O que a contra-revolução em marcha não contava era com a reação popular. A rigor, nem mesmo as organizações e partidos dos trabalhadores contavam com uma tenacidade tão radicalmente disseminada nos setores da população que assumiu, em diversas regiões da Espanha, a vanguarda de um processo que se tornou rapidamente revolucionário.

Na maior parte da Europa — e hoje se pode falar isso como nunca —, o que se observava, então, era a vitória dos aparelhos e máquinas burocráticas e reacionárias contra o povo; a começar pelo Thermidor na URSS, como já foi assinalado, passando pelo nazismo na Alemanha, pelo fascismo na Itália, mas também pelas ditaduras sanguinárias instituídas na Áustria e na Grécia, onde a população organizada, ávida por direitos civis e justiça social, é esmagada pelas pesadas botas da reação. Antes e após as eleições de fevereiro de 1936, na Espanha, e a constituição do chamado governo de Frente Popular, verifica-se um processo de radicalização que passa por cima do programa de modernização da Espanha que deveria ser realizado ‘em ordem’ e ‘respeitando a propriedade privada’. Aliás, quanto a isto, pode-se afirmar que os militares não tinham muita dúvida, quer em relação às intenções dos liberais, dos socialistas e mesmo dos comunistas. Estes últimos seguiam, passo a passo, as determinações de Stalin que escreve pessoalmente aos líderes da Frente Popular, recomendando o respeito aos limites da propriedade privada. Mas a canalha não obedece à palavra de ordem de ‘paz social’: disparam greves políticas exigindo a reintegração de todos os trabalhadores licenciados por razões políticas desde 1933; liberação (sem esperar anistia) através de ataques diretos às prisões, dos prisioneiros políticos; expropriação de empresas que organizavam lock-out; ocupação e plantio das terras dos grandes proprietários em proveito de todos; organização de núcleos paramilitares que darão origem às milícias populares. O relato de Orwell é muito mais vivo:

Está entrelaçado a todas as minhas recordações daquele período da guerra, as bandeiras vermelhas em Barcelona, os trens descoloridos repletos de soldados mal trajados que rumavam à frente de luta, as cidades pardacentas e assoladas pela guerra próxima, as trincheiras enlameadas e regeladas nas montanhas.

Isso foi em fins de dezembro de 1936, há menos de sete meses de quando escrevo e, no entanto, trata-se de um período que já se esfumou em distância tremenda no tempo. ... Eu chegara à Espanha com certa intenção de escrever artigos para a imprensa, mas ingressara na milícia quase em seguida à minha chegada, porque naquela época, e naquela atmosfera, isso pareceu ser a única coisa que podia fazer. ... para uma pessoa que vinha da Inglaterra, o aspecto de Barcelona era alguma coisa surpreendente e arrebatador. Pela primeira vez em minha vida eu estava em uma cidade onde a classe trabalhadora se encontrava no poder. ... Aqui e ali, igrejas estavam sendo sistematicamente demolidas por turmas de trabalhadores. Em todas as casas comerciais e cafés encontrava-se a inscrição dizendo que foram coletivizados. ... Em sua aparência exterior, tratava-se de cidade na qual haviam praticamente deixado de existir as classes ricas. ... não percebi que grande número dos burgueses, gente bem de vida, estava simplesmente dissimulado e disfarçados em proletários, enquanto perdurasse aquela situação.11

 

A Espanha constituía, assim, uma exceção na Europa da conjuntura em causa. Seus revolucionários obrigaram a contra-revolução a enfrentar uma guerra civil e não um levante militar de três dias como haviam desejado os militares reacionários12. Por que, nos outros países, a escalada da direita foi poupada da revolução e não na Espanha? Por que nesta, apenas, o povo operário e camponês foi capaz de opor uma lógica transgressora? Por que não se deixaram vencer sem combate? Por que o povo rompeu com a política de capitulação dos seus dirigentes e tomou a defesa dos seus interesses pelas armas?

Nenhuma destas questões consegue induzir, provocar uma resposta adequada, se não for articulada a uma outra questão que busque iluminar em que consiste a especificidade do caso espanhol. É possível afirmar, desde já, a distinção de alguns elementos: a primeira exceção é oriunda do fato de que não apenas ocorre uma reação de importantes setores da população ao levante dos militares nacionalistas liderado por Franco, fato que não teve similar na Alemanha, por exemplo; a segunda originalidade é que a reação popular se transforma numa ofensiva revolucionária; a terceira particularidade é oriunda do fato de que uma grande dose de espontaneidade envolve a ação desses setores populares; a quarta especificidade é dada pelo fato de que o radicalismo da contra-ofensiva dos trabalhadores, aliado ao grau de espontaneidade alcançada, faz com que setores importantes da classe trabalhadora transgridam as normas estabelecidas pelas ‘suas’ lideranças; a quinta originalidade do caso espanhol é conseqüência da conjunção de todos esses elementos, fato que produz a longa duração que a Guerra Civil Espanhola assumiu.

O golpe de Estado dos militares franquistas, que é conscientemente assumido como uma contra-revolução preventiva, visava surpreender os trabalhadores antes que estes tomassem de fato o poder. Mas esta intenção fracassa na maior parte do país. É de se esperar que as novas investigações aprofundem estudos, nem tanto sobre as razões do fracasso imediato dos sublevados anti-republicanos, mas nas razões que explicariam o grau de radicalidade e espontaneidade conquistado pela ação mais ou menos consciente dos trabalhadores em primeiro lugar e, em seguida, na resposta oferecida à conjuntura pelas organizações, associações, sindicatos e partidos políticos que reinvindicavam a defesa dos interesses daqueles.

A hipótese que pretende achar, na perspectiva política dos organismos políticos, a pista para explicação dos embates imediatos após a sublevação de Franco, Sanjurjo, Mola e Queipo de Llano, foi explorada numa medida provavelmente ainda não suficiente, mas as observações assimiladas parecem deixar claro que, quando as forças políticas que organizavam a população trabalhadora mais consciente se deixavam aprisionar pelo respeito à legalidade imposta pela Segunda República e por seus dirigentes, ou quando se contentavam com as profissões de fé legalistas dos oficiais militares, a reação escudada por estes obtinha vitórias. O contrário só aconteceu quando os trabalhadores transgrediram esse quadro, agindo com independência em relação aos seus representantes no governo legalmente constituído. Quando assim o fizeram, trouxeram de roldão dirigentes, setores e partidos políticos ou mesmo organizações inteiras. Um exemplo significativo é o de Largo Caballero que havia sido ministro do Trabalho na ditadura de Primo de Rivera e se torna o chefe de fila da Frente Popular em 1936, tendo sido apelidado o ‘Lenin espanhol’13. Não obstante, ao longo dos anos 30, sob os impulsos vindo das bases operárias, o político reformista Largo Caballero mudou várias vezes de posição até chegar a admitir publicamente que nenhuma transformação ocorreria dentro da Espanha nos quadros da legalidade em vigor daqueles anos, sobretudo após a sublevação dos militares. O fenômeno da radicalização dos trabalhadores se reflete de modo particular, assim, no PSOE14 que profere palavras sobre a perspectiva de transformação profunda da sociedade espanhola sem que, de fato, venha a prepará-la para isto.

Entretanto, o PSOE não é o único organismo político a ter que dar uma resposta às pressões das massas populares. A experiência do chamado bienio negro tornou largas parcelas da população menos vulneráveis aos apelos oportunistas dos políticos de carreira mesmo quando estes apelos vinham de dirigentes habituados a mercarem ilusões. É verdade que a tradição anarquista e a anarco-sindicalista do movimento operário na Espanha tiveram seu peso. Esta última corrente implementou uma política de construção de sindicatos únicos por setores econômicos como os da indústria, cultivando no seio do operariado uma eterna desconfiança em relação ao aparelho de Estado, aos diversos governos e partidos políticos, além de uma rejeição empedernida e de princípios ao militarismo. Esta cultura provoca efeitos no comportamento da classe trabalhadora como, por exemplo, uma aguda sensibilidade aos reais apelos por independência de classe, mesmo quando se tratava de governos dirigidos ou integrados por socialistas e/ou comunistas. Assim, o PCE que, a partir de 1936, seguiu com rigor as recomendações de Stalin visando a colaboração com as classes dominantes, não viu sua pequena audiência se transformar em um grande aumento do número de seus filiados. Na verdade, ele esteve marginalizado pela política de divisão que praticava até a fundação da Aliança Operária, à qual adere no último momento, mesmo assim propugnando uma aliança com os liberais republicanos dos quais os socialistas se distanciavam. Essa política o impediu de controlar qualquer parcela importante do operariado espanhol e, se o seu prestígio político cresceu a partir do início da Guerra Civil, isso deveu-se ao lastro publicitário em torno da ‘heróica ajuda soviética à República Espanhola’. Em realidade, o PCE agiu de modo muito disciplinado como uma agência política de Moscou, gerenciada por Palmiro Togliatti.

Dizer que, apesar de tudo, o movimento dos trabalhadores por uma república verdadeiramente soviética foi derrotado em 1939 é afirmar um fato inquestionável. Mas é preciso tirar a Guerra de Espanha de uma suposta exclusividade causal, particular à região cortada da Europa pelos Pirineus, denominada Península Ibérica. Romper com esse exclusivismo é o único método capaz de permitir apreender as causas da derrota não apenas dos republicanos, mas sobretudo dos trabalhadores. Isto permitiria entender-se este processo como uma revolução contra o nacionalismo de tintura fascista dos franquistas, por uma democracia distinta da apregoada não somente pelos capitalistas espanhóis, mas também pelo imperialismo ‘civilizado’ da ‘não-intervenção’ e pelo stalinismo colaboracionista que presenteou ao hitlerismo os exemplos no qual ele se inspirou.

Assim, será possível hipotetizar que uma conjuntura muito menos favorável à eclosão de uma Segunda Guerra Mundial pudesse brotar se o nazi-fasci-franquismo tivesse sido derrotado na Guerra de Espanha. Mas é possível também afirmar que, nas consequências positivas da luta revolucionária do povo espanhol, se pode incluir com segurança o fato de que, se a aliança intervencionista dos nazistas-fascistas-franquistas tivesse triunfado já em 1936, o sofrimento não só do povo espanhol, como de resto de toda a Europa, teria sido muito maior. A busca pelo ‘espaço vital’ desses imperialismos concorrentes, provocaria uma Segunda Guerra de conseqüências seguramente ainda mais nefastas, transformando a Península Ibérica — quem saberia dizê-lo? — na câmara de gás, não mais de cristãos novos, mas de uma boa parte de europeus ou ainda, na ‘melhor’ das hipóteses, num campo de intermináveis batalhas. Haveria então qualquer espaço para pacifismo legalista na Espanha? E no resto do mundo?

Seja qual for a resposta que aportemos a estas questões, no depoimento de Hobsbawm sobre a Espanha incandescida, mesmo se resumido para a importância que ele mesmo atribui com palavras, em A era dos extremos, à Espanha revolucionária, mesmo se ambíguo e contraditório em certos pontos como o da política de ‘não-intervenção’ que a URSS assina com a França, a Inglaterra, a Alemanha e a Itália dentre outras nações — o que já era em si uma política de intervenção, o grande historiador acentua o magnetismo estraordinário exercido sobre seus contemporâneos. Diz ele:

É difícil lembrar hoje o que a Espanha significou para os liberais e os esquerdistas que viveram a década de 1930, embora para muitos de nós sobreviventes, todos já ultrapassando o tempo de vida bíblico, continue sendo a única causa que, mesmo em retrospecto, pareça tão pura e atraente quanto em 1936.15

 

É curioso, mas é também uma pena, e é ao mesmo tempo difícil de entender que um historiador da estatura de Hobsbawm repita idéias como "a Guerra Civil Espanhola não foi a primeira fase da Segunda Guerra Mundial", logo após haver afirmado que as "disputas da década de 1930 travadas dentro dos Estados ou entre eles eram transnacionais"16. Ele vai mais longe ao dizer que em "nenhuma parte foi isso mais evidente do que na Guerra Civil Espanhola de 1936-9, que se tornou a expressão exemplar desse confronto global"17. É o mesmo Hobsbawm que afirma haver a Rússia enviado "sem reservas, embora não exatamente de modo oficial, homens e material para apoiar a República", quando ele mesmo demonstra que dos mais de 40 mil voluntários de todo mundo que foram lutar do lado republicano, apenas 2 mil a 3 mil eram russos e que "dificilmente podem ser classificados como voluntários".

O que Hobsbawm esqueceu de dizer, mas ele não é o único a haver esquecido, é que praticamente todos esses ‘voluntários’ russos foram fuzilados ao modo de Stalin, quando retornaram à URSS pois o ‘Pai dos povos’ temia a contaminação que os seus haviam sofrido na Espanha incendiada com a política ‘anti-soviética’ de independência de classe. Entretanto, é no mínimo sintomático que, junto a todos opositores que foram fuzilados logo após o último dos Processos de Moscou e os mais de 40 mil oficiais superiores do que ainda restava do antigo Exército Vermelho também fuzilados alguns meses após a queda de Madri nas mãos dos franquistas, Stalin tenha assinado com Hitler o Pacto de não-agressão. As dificuldades de Hobsbawm em explicar a política da URSS provavelmente são oriundas do seu envolvimento com a política que defendeu nos anos da Guerra Civil Espanhola. Tempos difíceis aqueles! Lembram o poema de Brecht no qual ele dizia: "quando falarem de nós, lembrem-se dos tempos difíceis a que vocês escaparam com indugência, estes foram os tempos que sobre a terra nos foram concedidos". Victor Serge teve razão em chamá-los de "A meia noite do século"!

*

Dedico esse artigo a meu pai, José Manuel Nóvoa Souto, que me deixou como herança, dentre outras, a paixão pela Espanha e que se foi sem ter podido apreciar este número de O Olho da História.

Notas

1. MATTHEUS, H. L. Metade da Espanha morreu: uma reavaliação da Guerra Civil Espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

2. MARX, K., ENGELS, F. La revolución en España. Moscou: Progresso, 1980. p.7.

3. MORROW, F. Revolução e contra-revolução em Espanha. Lisboa: Delfos, 1975. p.9.

4. BROUÉ, P., TEMINE, E. La révolution et la Guerre d'Espagne. Paris: Editions de Minuit, 1961. p.19.

5. ENZENSBERGER, H. M. O curto verão da anarquia: Buenaventura Durruti e a Guerra Civil Espanhola. Companhia das Letras, 1987. p.87.

6. ALBA, V. Histoire du P.O.U.M.: le marxisme en Espagne (1919-1939). Paris: Champ Libre, 1975. p.127.

7. BROUÉ, P. A Revolução Espanhola (1931-1939). São Paulo: Perspectiva, 1992. p.29.

8. ROMERO, M. La Guerre Civile Espagnole au Pays Basque et en Catalogne. Amsterdam: Institut Internacional de Recherche et de Formation, 1990. p.5-6.

9. BROUÉ, P., TEMINE, E., op. cit., p.37.

10. VILAR, P. Guerra de Espanha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989, p.7

11. ORWELL, G. Lutando na Espanha e recordando a Guerra Civil. Rio de Janeiro: Globo, 1986. p.4-6.

12. MOMPÓ MARTINEZ, E. El Comite Central de Milicias Antifascistas de Catalunya y la situacion de doble poder en los primeiros meses de la Guerra Civil Española, 1994. 629p. Tese (Doutorado em História Contemporâanea) - Faculdade de Geografia e História, Universidade de Barcelona.

13. BROUÉ, P. Staline et la Révolution: le cas espagnol. Paris: Fayard, 1993. p.49.

14. JULI, S. La izquierda del PSOE (1935-1936). Madri: Siglo XX, 1977.

15. HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.61.

16. Idem, p.157-8.

17. Idem, p.161.

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