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Olho da História No. 1 Página Principal

 

O sentido histórico da
Segunda Guerra Mundial

Osvaldo Coggiola

Professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo.

O adiamento da revolução socialista mundial — iniciada com a Revolução de Outubro de 1917 — foi pago pela humanidade trabalhadora com um preço inédito em vidas humanas, especialmente forte nos países que estiveram no centro desse adiamento: 20 milhões de mortos na União Soviética, 13 milhões na Alemanha. Isto sem contar a qualidade das mortes, que incluíram cenários de degradação humana como nunca tinham sido vistos na História: campos de concentração nazistas; câmaras de gás; políticas de extermínio total de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes mentais e muito mais.

Sessenta milhões de homens em armas, 50 milhões de mortes (a maioria na população civil) como resultado direto dos combates, ou "80 milhões de pessoas, se se contar também as que morreram por fome e doença (...) oito vezes mais do que na Primeira Grande Guerra"1: ao todo, aproximadamente, 4% da população mundial da época, e tudo isso, em escassos cinco anos. Os números da Segunda Guerra Mundial estão aí para demonstrar a validade da alternativa histórica que Rosa Luxemburgo colocara imediatamente após a Primeira Guerra Mundial: "Socialismo ou Barbárie".

Embora os números não expressem a qualidade das mortes, eles refletem a quantidade dos massacres absurdos da população civil, desnecessários do ponto de vista militar, levados adiante por todos os principais protagonistas da guerra, mas especialmente pelos "democratas" Aliados, a exemplo do inútil bombardeio da cidade alemã de Dresden (quando a capitulação da Alemanha já era questão de horas), ou das bombas atômicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasaki, com suas centenas de milhares de mortos civis e seus efeitos ainda sensíveis décadas depois, isto em condições em que, segundo a insuspeita opinião de Winston Churchill,

... seria um erro supor que o destino do Japão foi decidido pela bomba atômica. A derrota do Celeste Império já estava assegurada antes de ser lançada a primeira bomba2.

Ou ainda, a moderada reflexão retrospectiva de Jean Lacouture:

Se a primeira bomba, pelo seu efeito de terror, podia ter o objetivo de desalentar os japoneses e evitar aos Estados Unidos a lenta reconquista e o meio milhão de homens que talvez teria custado, a segunda teve um caráter de experimento científico às custas de cem mil vidas. Não acredito que a bomba atômica tenha justificativas (...) a eleição do Japão para o lançamento da bomba me parece racista: em circunstâncias semelhantes às existentes no Japão, os norte-americanos não teriam ousado lançá-la sobre uma cidade alemã3.

De fato, o racismo não foi patrimônio exclusivo dos nazistas, assim como as experiências científicas do Dr. Mengele em Auschwitz (ou de seu equivalente japonês, a Unidade 731 do norte da China). Os Estados Unidos acabam de reconhecer oficialmente ter submetido a provas nucleares mais de 600 pessoas no seu próprio território durante a Segunda Guerra, incluindo dezoito norte-americanos que morreram depois de ter recebido injeções de plutônio4. O racismo e a barbárie foram multidirecionais.

Racismo, barbárie, o assassinato em massa de civis como política sistemática, e isto da parte de todas as potências envolvidas; é evidente que uma guerra com estas características é qualitativamente diferente das anteriores. Para explicar as suas causas (e o seu desfecho), não basta referir-se aos objetivos estratégicos nacionais dos países ou blocos envolvidos. Se "a guerra é a continuação da política por outros meios", esquece-se que o autor da sentença, Karl von Clausewitz, não reduzia a política (nem, portanto, a própria guerra) à expressão dos interesses dos Estados nacionais:

Afirmamos que a guerra não é um domínio das artes ou das ciências, mas um elemento do tecido social. Constitui um conflito de grandes interesses solucionado de maneira sangrenta, o que a diferencia de todos os outros conflitos. Antes de comparar a guerra com uma arte qualquer, caberia fazê-lo com o comércio, que é também um conflito de atividades e interesses humanos, e inclusive se assemelha muito à política, que por sua vez pode ser considerada como uma espécie de comércio em grande escala. A política é a matriz em que se desenvolve a guerra5.

Do ponto de vista dos interesses estratégicos em jogo, no quadro do sistema imperialista, não era difícil caracterizar a causa da Primeira Guerra Mundial como sendo:

... a rivalidade entre os impérios coloniais velhos e ricos: a Grã-Bretanha e a França, e os bandidos imperialistas atrasados: Alemanha e Itália6.

Dessa forma,

A contradição econômica mais forte que conduziu à guerra de 1914-1918 foi a rivalidade entre a Grã-Bretanha e a Alemanha. A participação dos Estados Unidos na guerra foi uma medida preventiva7.

Na Segunda Guerra, porém, a participação dos Estados Unidos não foi preventiva, mas central, embora existisse uma forte corrente isolacionista no seio da classe dominante americana até dezembro de 1941 (ataque japonês a Pearl Harbor), que marcou seu ingresso na guerra. Até esse momento, a política americana com relação ao Japão era ambígua, e o mesmo pode-se dizer com relação à Alemanha hitlerista (o que desmente a visão ideológica retrospectiva de uma guerra da democracia contra o fascismo), isto ao ponto de Hitler ter como um de seus objetivos principais, já em plena guerra, a manutenção da neutralidade dos Estados Unidos.

Essa tentativa estava condenada de antemão ao fracasso, pois como já o analisara (antes do início da guerra) a IV Internacional,

... os fundamentos da potência imperialista americana têm uma envergadura mundial. Seus interesses econômicos na própria Europa são muito importantes (...) Será impossível para os Estados Unidos ficar fora da próxima guerra mundial. Não somente participará como beligerante, mas é possível prever que entrará nela muito mais rapidamente do que na última guerra mundial8.

O próprio Trotsky já tinha analisado que a emergência dos Estados Unidos como principal potência capitalista e imperialista mundial tinha sido uma das principais conseqüências da Primeira Guerra Mundial.

No período anterior à Guerra, a ambigüidade das democracias européias com relação às tentativas alemãs de revisar a Paz de Versalhes e, em geral, com relação a toda a política do Eixo nazi-fascista, tinha sido marcante. A política dita de "apaziguamento" remonta à tolerância com a invasão japonesa da Manchúria em 1931, passa por atitude semelhante com a invasão italiana da Etiópia em 1935, atinge a vergonha com a política de não-intervenção na Guerra Civil Espanhola de 1936-1939 (quando a ajuda nazi-fascista ao campo franquista foi fundamental para o desfecho do conflito), e tem seu ponto culminante com a Conferência de Munique de 1938 (Alemanha, Itália, Grã-Bretanha, França) e sua conseqüência imediata, o desmembramento da Tchecoslováquia pela Alemanha nazista (invasão dos Sudetos). Esta política é comumente analisada hoje como produto da cegueira dos governos democráticos acerca das verdadeiras intenções do Terceiro Reich. Sua raiz, porém, está na própria natureza do conflito mundial que se avizinhava. Como afirma o historiador Pierre Broué:

O fato novo é que na sua tentativa de revisão (da Paz de Versalhes), a Alemanha de Hitler se beneficia indiretamente da existência da União Soviética, e que os governos ocidentais consideram sempre seriamente a possibilidade de desviar em direção à União Soviética o expansionismo alemão, em benefício de todos eles, o que explicaria uma política de outro modo incompreensível (...) A Segunda Guerra Mundial constitui a continuidade tanto da Primeira Guerra quanto da tentativa dos imperialismos coligados de destruir a revolução dos países europeus, destruindo militarmente a Revolução Russa pela intervenção armada através da guerra civil9.

A Segunda Guerra Mundial foi simultaneamente um conflito interimperialista (contradições nacionais) e contra-revolucionário (contradições sociais ou de classe) em que a destruição da URSS visava interromper de vez o processo revolucionário iniciado em 1917, já seriamente abalado pelo isolamento da revolução soviética (e sua principal conseqüência, a emergência do stalinismo) e pela vitória do nazismo na Alemanha, com a conseqüente derrota histórica do mais importante proletariado ocidental.

Não afirmamos que os democratas ocidentais tenham se caracterizado pela lucidez com relação ao nazismo. Dizemos, porém, que estavam dispostos a dele se servir, sem o menor preconceito ideológico, contra a União Soviética (isto é, contra as bases econômicas e sociais remanescentes do Estado Operário) e contra o movimento operário do Leste e do Oeste. Quanto à lucidez, basta dizer que, ainda em 1940, o Presidente norte-americano, Roosevelt, acreditava que a Alemanha atacaria o hemisfério ocidental, provavelmente primeiro na América Latina10, enquanto já em 1931, isto é, antes da tomada do poder por Hitler, Trotsky havia predito que se o nazismo assumisse o poder desencadearia uma guerra contra a URSS11.

A evidência explícita do caráter contra-revolucionário do caminho político que levaria à Segunda Guerra Mundial está também no fato de que a aliança Alemanha-Itália-Japão, configurada na década de 30 (e que seria um dos blocos do conflito), autodenominou-se Pacto Anti-Komintern, isto é, explicitamente dirigido a conter a "expansão mundial do comunismo". O outro aspecto está no fato de que a economia armamentista, posta em pé na década prévia à Guerra (em primeiro lugar nas potências totalitárias), foi a única via de saída para a crise em que a economia capitalista mundial tinha entrado em 1929.

Nos Estados Unidos, a produção industrial de armamentos duplicou em cinco anos, perfazendo entre 40% e 45% do total da produção, período no qual o setor civil não variou em valor absoluto. Os empregos industriais passaram de 10 para 17 milhões, entre 1939 e 1943. O total de empregos era de 47 a 54 milhões no mesmo período. Se o PNB aumentou de 150%, a concentração econômica espantosa determinou a feição definitiva do capital monopolista nos Estados Unidos — 250 sociedades industriais passam a controlar 66,5% da produção total, uma percentagem equivalente àquela controlada por 75 mil empresas antes da guerra12.

As exportações dos Estados Unidos passaram de pouco mais de 5 bilhões de dólares, em 1941, para quase 14,5 bilhões, em 1944. No período 1938-1944, a produção de guerra passou de 2 para 100 nos Estados Unidos; de 4 para 100 na Inglaterra; de 16 para 100, na Alemanha; de 8 para 100 no Japão13. A transformação das economias capitalistas em economias de guerra e os diversos pontos de partida para atingir tal objetivo determinam, em última instância, a superioridade dos Aliados: calcula-se em 80 bilhões de dólares o valor do material de guerra produzido pelos Estados Unidos, pela Inglaterra e pelo Canadá, no período anterior ao desembarque de 6 de julho de 1944. No mesmo período, a Alemanha e seus aliados tiveram uma produção equivalente a 15 bilhões, isto é, uma superioridade de mais de 5 para 1 em favor dos Aliados, do ponto de vista dos recursos econômicos consagrados ao esforço bélico.

O fato da Segunda Guerra ter sido a única solução possível para a crise econômica marca uma diferença importante em relação à Primeira Guerra, na qual a questão principal era a redistribuição do mundo entre as potências imperialistas, e não a anexação de um motor artificial (a economia armamentista e, posteriormente, a economia de guerra) à máquina capitalista enguiçada, que se transformará, doravante, numa peça essencial para o funcionamento da economia capitalista mundial.

Afirmar o caráter contra-revolucionário do conflito bélico mundial, tanto do lado das potências totalitárias quanto do das democráticas, não significa inocentar as primeiras, mas, ao contrário, desentranhar as raízes da barbárie que as teve como protagonistas principais. O famoso historiador inglês A. J. P. Taylor foi unilateral quando, ao tentar uma análise objetiva dos fatos, concluiu que Hitler era menos um demônio histérico do que um dirigente preocupado com a sorte de seu país e que, na verdade, carecia da intenção de deflagrar um conflito mundial (teria se conformado com um Lebensraum alemão na Europa)14.

Segundo Taylor, o conflito mundial teria sido imposto pelas Potências Aliadas, inclusive no que diz respeito ao Japão, o qual, após o embargo imposto pelos Estados Unidos em agosto de 1941, "estava fadado a render-se ou ir à guerra". É perfeitamente possível estar de acordo com isto e, ao mesmo tempo, reconhecer que o caráter objetivo das contradições às quais estava submetido o imperialismo alemão, obrigava-o a envolver-se numa disputa de alcance mundial, devido ao choque inevitável com o imperialismo norte-americano.

Para o historiador revisionista alemão Ernst Nolte, a objetividade do segundo conflito mundial está determinada pela "perspectiva mais adequada na qual o bolchevismo e a União Soviética e o nacional-socialismo e o Terceiro Reich devem ser considerados que é a de uma guerra civil européia"15. O mérito do enfoque — a procura das causas profundas da Segunda Guerra não apenas nos conflitos interestatais, mas no processo de revolução/contra-revolução — se esvai ao se considerar apenas a Europa como cenário dessa hipotética guerra civil. Desta forma, ela não teria por base, portanto, a crise mundial das forças produtivas capitalistas. Tal enfoque exclui, por exemplo, o Extremo-Oriente que é, desde o início da revolução chinesa de 1919, protagonista central tanto do conflito de classe quanto do conflito nacional (guerra China-Japão). Sem falar no abuso que consiste em colocar sob a etiqueta bolchevismo tanto a direção inicial (Lenin-Trotsky) da Revolução de Outubro, que defendia a perspectiva de uma revolução proletária mundial, quanto o messianismo nacionalista da direção stalinista, erguida sobre o cadáver da primeira, e cuja política nacionalista foi um elemento central no prólogo, no desenrolar e no desfecho da Segunda Guerra.

É justamente o caráter socialmente contra-revolucionário do conflito mundial que ilumina o seu aspecto mais atroz: o assassinato de 6 milhões de judeus na Europa. O historiador Arno Mayer procurou situar a "solução final" dentro da lógica de guerra do nazismo, concluindo que:

... o limite que separa a expulsão, o encerramento nos guetos, as deportações e os assassinatos esporádicos, do massacre e da destruição sistemáticas, não foi ultrapassado senão um certo tempo depois da invasão nazista da União Soviética, em 22 de junho de 1941 (...) Só em 20 de janeiro de 1942, na Conferência de Wanssee, foram tomadas as medidas para a "solução final", que implicava a tortura e o aniquilamento dos judeus de toda a Europa ocupada e controlada pelos nazistas16.

O nazismo, porém, não fazia senão levar adiante uma tendência objetiva presente na lógica da guerra imperialista.

A perspectiva do massacre dos judeus fora, pela primeira vez, denunciada pela IV Internacional, no capítulo sobre a guerra, no programa da sua fundação, em 1938 (o Programa de Transição):

Antes de esgotar a humanidade ou de afogá-la no sangue, o capitalismo envenena a atmosfera mundial com os vapores deletérios do ódio nacional ou racial. O anti-semitismo é agora uma das piores convulsões da agonia do capitalismo17.

E chamava a:

... denunciar implacavelmente todos os preconceitos de raça e todas as formas e nuanças da arrogância nacional e do chauvinismo, em especial o anti-semitismo18.

O nazismo realizaria a sombria perspectiva do holocausto. Os Estados Unidos e o Vaticano tinham conhecimento do genocídio que estava sendo posto em prática, pelo menos desde 1942, fatos e conhecimentos diante dos quais se omitiram19.

Sublinhar o caráter contra-revolucionário do segundo conflito mundial e dos preparativos que levaram ao mesmo, não significa justificar a política da burocracia russa para se manter afastada da guerra mas, ao contrário, apontar para o seu caráter ilusório e igualmente contra-revolucionário que acabaria custando 20 milhões de mortos à União Soviética (o preço mais alto pago por qualquer um dos beligerantes). Do Pacto Laval-Stalin, em 1935, que desarmou o proletariado francês para lutar contra o militarismo da sua burguesia, até o Pacto União Soviética-Japão de 1941 (nas vésperas da invasão pelo exército nazista), passando pelo "Pacto maldito" — o Pacto Germano-Soviético, de 23 de agosto de 1939, que deu o sinal verde para a invasão da Polônia pela Alemanha — a política externa da União Soviética foi o complemento necessário da política que, no plano interno, levou, nos Processos de Moscou de 1936-1938, à aniquilação de tudo o que restava da velha guarda bolchevique e inclusive, em 1937, à decapitação do Exército Vermelho.

Os processos sobre o Exército Vermelho se abateram não só ao nível da cúpula, mas até dos comandos médios. Foram promovidos a partir de falsas acusações fabricadas pelos serviços secretos nazistas. Uma vez realizados tais expurgos, Hitler proclamou: "neutralizamos a Rússia por dez anos", o que lhe permitiu preparar a conquista da Tchecoslováquia e a guerra na frente ocidental20.

Como ficar surpreendido pelo fato do Pacto Germano-Soviético ter sido selado com o sangue dos comunistas alemães refugiados na União Soviética, que foram entregues à Gestapo pelas próprias autoridades soviéticas? O que pode ser dito ainda hoje em defesa desse Pacto, que chegou a seduzir um historiador trotskyzante como lsaac Deutscher, e que é cuidadosamente omitido nas versões oficiais da burocracia russa acerca da Segunda Guerra Mundial, chegando-se ao extremo ridículo de um Deborin definir a guerra como "interimperialista" entre 1939 e 1941, e como "guerra de libertação" a partir da invasão da União Soviética pela Alemanha (22 de junho de 1941)21? Um pacto que levou a imprensa dos Partidos Comunistas do mundo inteiro a abrir generosas páginas para as longas litanias e tiradas antibritânicas de Joseph Goebbels! Um pacto que levou o Ministro alemão Ribbentrop a propor à União Soviética o ingresso no Pacto Anti-Komintern! Um pacto que levou o PC francês a solicitar a publicação legal de seu jornal L’ Humanité às tropas nazistas de ocupação da França! Um pacto que permitiu a preparação da máquina alemã de guerra (que era treinada na própria União Soviética) para a guerra em toda a Europa. Um pacto através do qual, segundo o depoimento recente de um ajudante direto de Stalin, a União Soviética fornecia

trigo, grãos, petróleo, minerais estratégicos e também borracha, látex, soja, que vinham do Sudeste asiático, transportados pela União Soviética para abastecer a Alemanha (...) O último trem com nosso fornecimento cruzou a fronteira uma hora antes da invasão da União Soviética pela Alemanha22.

Como ficar surpreendido, neste quadro contra-revolucionário, de que Stalin se recusasse a acreditar na iminência da invasão nazista — que lhe fora anunciada pelos chefes da espionagem soviética no Ocidente (Leopold Trepper) e no Oriente (Richard Sorge) — e até mesmo depois da invasão começada, o que teve um custo enorme em vidas, material bélico e vantagens estratégicas para a União Soviética? Como atribuir isto às limitações pessoais do próprio Stalin — como fez Khruchtchev no seu famoso "relatório secreto" ao XX Congresso dos PCUS, em 1956 — e não à política estratégica de toda a camada dirigente da União Soviética?

A consciência clara do caráter contra-revolucionário da Guerra estava em ambos os lados. No início da mesma, o jornal francês Le Temps relatava que, no último encontro que o Embaixador francês Coulondre tivera com Hitler para evitar a invasão da França, apelou para um argumento desesperado (o único com o qual Hitler concordou): o de que o maior perigo de uma nova guerra mundial estava na possibilidade dela sair vitorioso monsieur Trotsky. Ou seja, que agissem novamente os mecanismos políticos que, durante a Primeira Guerra, tinham possibilitado a Revolução de Outubro de 1917. Aqui reside o grande significado da decisão tomada por Stalin, no quadro do Pacto Germano-Soviético, de assassinar Trotsky. Depois de várias tentativas, um agente da polícia política russa conseguiu assassiná-lo a 20 de agosto de 1940, quase exatamente um ano depois do Pacto. "É meia-noite no século", proclamou o romancista russo-belga Victor Serge, na sua novela sobre esse período23.

Em 1940, Molotov — Chanceler da URSS — proclamava que "é criminoso fazer passar esta guerra como uma luta pela destruição do hitlerismo, sob a falsa bandeira de uma batalha pela democracia". Mas o desastre bélico da União Soviética durante a primeira metade da Guerra não precisou esperar até a invasão da União Soviética pelo exército de Hitler. Já na invasão à Finlândia, em 1940, a União Soviética perdeu 200 mil homens (quase a metade do que os Estados Unidos e a Inglaterra perderam em toda a Guerra) porque as suas tropas estavam, depois da decapitação do Exército Vermelho em 1937, dirigidas por incompetentes aterrorizados.

Em 1942, porém, a Guerra começaria sua reviravolta. Na visão retrospectiva do cinema ianque, ela coincide com as primeiras vitórias norte-americanas na guerra do Pacífico contra o Japão, em especial a Batalha de Midway. Na verdade, o ponto de virada é a primeira grande derrota do exército de Hitler em Stalingrado (novembro de 1942), com a morte de mais de cem mil homens (quase metade dos efetivos envolvidos na batalha), e que inicia a contagem regressiva do poderio militar alemão, até então invicto. Em julho do ano seguinte, os soviéticos derrotariam os alemães em Kursk, na maior batalha de tanques da história. Este foi o cenário decisivo da guerra, pois foi o exército soviético que infringiu 75% das baixas ao exército do Terceiro Reich. A esse dado quantitativo, deve-se acrescentar outro, qualitativo: as melhores tropas alemãs estavam na frente Leste e não na ocidental.

Quando algumas divisões da frente oriental foram redirecionadas por Hitler para as Ardenas, na frente Oeste, após o Desembarque Aliado na Normandia (junho de 1944), a surra que deram às Tropas Aliadas motivou um pedido desesperado de Churchill a Stalin de abertura de novas frentes no Leste, sob risco de nova inflexão no destino da Guerra (Churchill foi rapidamente atendido, diferentemente do que tinha acontecido com os insistentes pedidos anteriores de Stalin de abertura de uma segunda frente, quando todo o esforço da Guerra contra o Eixo na Europa estava nas costas da União Soviética).

A reviravolta na Guerra refletiu a agudização, em condições extremas, do embate entre revolução e contra-revolução: a vigência da luta de classes no sentido estrito do termo e, em especial, a vigência das relações de produção criada pela Revolução de Outubro na União Soviética.

É necessário levar absolutamente a sério o catedrático de história contemporânea da Universidade de Cambridge, David Thomson, quando afirma que

... talvez o fato básico fosse que as convulsões da guerra tivessem tornado possível uma retomada da expansão comunista, contida desde 191924.

Ao dizer isto, não está se referindo apenas ao avanço avassalador do Exército Vermelho a partir de 1943, mas também ao desenvolvimento de uma ampla resistência classista e popular, presente na Europa inteira e até no próprio centro do campo dos Aliados, os Estados Unidos.

Já em 1941, os mineiros franceses fizeram uma greve em Nord Pas-de-Calais, apesar da ocupação alemã. Após a greve, alguns jovens requisitados para o ST0 (Serviço de Trabalho Obrigatório) na Alemanha iniciaram uma resistência civil armada que seria encampada e dirigida pelo PC francês, no sentido de uma aliança com o representante da burguesia anti-nazista, o General De Gaulle (refugiado na Inglaterra). Desde 1942, as greves também explodiram na Grécia ocupada pelos nazistas. Na Itália, o movimento grevista foi explosivo em 1943, ameaçando criar uma situação de duplo poder, e é o pano de fundo do movimento dos partigiani e do golpe de Estado do próprio Conselho Fascista que derrubou Mussolini nesse mesmo ano (a abertura da segunda frente na Itália se deveu mais a considerações políticas do que estratégico-militares).

Nos Estados Unidos, houve duas greves dos mineiros, dirigidas e encabeçadas pelo burocrata John L. Lewis, em maio e novembro de 1943; e uma greve dos ferroviários, no mesmo ano. Apesar da legislação antigrevista, em 1944 houve 224 greves não-autorizadas, com 388 mil grevistas. Na própria Alemanha, segundo Ernest Mandel, o atentado contra Hitler de julho de 1944 é preparado junto com uma hipotética greve geral. Na Iugoslávia ocupada, os partisans já eram 300 mil em 1943 e, em outubro do ano seguinte, o comunista Tito entrou em Belgrado. Como não situar nessa perspectiva a luta mais heróica: o levantamento de 28 dias do Gueto de Varsóvia?

Do ponto de vista militar, foi decisiva a derrota do exército nazista na União Soviética. Mas esta não foi alheia aos fatores apontados acima. No início da Guerra, o ódio contra a burocracia era tão grande que

... as tropas alemãs eram recebidas como libertadoras na Ucrânia, até começarem a queimar as aldeias, expulsar as mulheres e crianças e executar os homens25.

Quando ficou claro que os planos de Hitler eram "naturalizar" a Rússia, transformá-la num vasto celeiro com o trabalho escravo dos russos, a mobilização patriótica foi imensa. Mas esta pouco teria conseguido sem:

... o transplante da indústria na segunda metade de 1941 e no começo de 1942 e·a sua reconstrução no Leste, que deve figurar entre as mais estupendas realizações de um trabalho organizado pela União Soviética durante a última guerra. O crescimento rápido da produção bélica e sua reorganização sobre novas bases dependiam da urgente transferência da indústria pesada das zonas ocidentais e centrais da Rússia européia e da Ucrânia para a retaguarda longínqua, fora do alcance do exército e da aviação alemães26.

Tal feito teria sido impossível num país onde existisse propriedade privada da grande indústria. Na França ocupada pelos nazistas, o grande patronato industrial colaborou quase na sua totalidade com o exército de ocupação.

A consciência das massas na URSS provou-se naquele momento. Depois da derrota inicial, que quase dizimou o exército soviético, a recomposição da sua força militar foi uma façanha econômico-social. A nova indústria, reconstituída nas regiões não ocupadas, produziu 800 mil tanques entre 1941 e 1945 e 400 mil aviões só em 1944. Como termo de comparação, basta dizer que, na Inglaterra que ganhou a guerra nos ares, essa cifra corresponde à produção total da Guerra. Foram mobilizados, na União Soviética, todos os recursos naturais e humanos. A ajuda dos Aliados não cobriu 10% da produção soviética. Foi uma vitória histórica do planejamento estatal, uma vitória moral dos princípios do socialismo. Vitória mundial, uma vez que foi a derrota do Terceiro Reich na União Soviética que livrou a humanidade da ameaça militar nazista, a maior máquina de guerra da história da humanidade até então.

A consciência por parte dos Imperialismos Aliados sobre a necessidade de evitar uma derrota revolucionária do nazismo foi tal que as bases da ordem mundial do pós-guerra começaram a ser lançadas já em janeiro de 1942, quando Roosevelt e Churchill lançaram o plano das Nações Unidas. Também em janeiro de 1942, os Estados Unidos convocaram a Conferência Pan-Americana do Rio de Janeiro, com vistas a alinhar firmemente atrás de si a América Latina (chegou-se a utilizar a ameaça de invasão militar contra os renitentes Argentina e Chile). A partir de 1943, sucedem-se as reuniões de cúpula dos Aliados, nas quais procura-se associar claramente a burocracia stalinista à ordem mundial contra-revolucionária do pós-guerra: novembro de 1943, Cairo; dezembro de 1943, Teerã; fevereiro de 1945, Yalta; agosto de 1945, Potsdam. Em Yalta, chegou-se a estabelecer que a União Soviética conservaria os territórios que lhe foram concedidos pelo Pacto Germano-Soviético.

A colaboração contra-revolucionária foi decisiva para que a derrota nazista não levasse à vitória da revolução proletária na Alemanha, que seria, como duas décadas antes, a peça chave da revolução européia. A política nacional-revanchista levada adiante pelo exército da União Soviética forçou a que as tropas alemãs defendessem até o último quarteirão de Berlim, inclusive quando toda resistência já era absurda. A concordância com os Imperialismos Aliados em ocupar e dividir militarmente a Alemanha fez pender uma espada de Dâmocles sobre a cabeça da classe operária alemã, que foi a arma principal para reconstituir o Estado burguês na Alemanha depois da degringolada nazista (permitindo inclusive a reciclagem de numerosos quadros nazistas na nova ordem). Mas foi, principalmente, a ação e a autoridade da burocracia que pesaram para combater a revolução operária na Alemanha, que teve inúmeras manifestações: criação de um Partido dos Trabalhadores, unindo ex-prisioneiros socialistas e comunistas na Turíngia, em abril de 1945; criação também de um Partido Socialista Unificado em Brunswick; organização de um Comitê de Unidade Socialista-Comunista no campo de concentração de Buchenwald.

Se foram as tropas inglesas as que dissolveram, em Hamburgo, o Comitê de Ação (socialista-comunista), foi a burocracia russa a responsável pela dissolução dos Comitês Antifascistas no país todo. Sobre a base desta repressão foi reconstituída, no Oeste, a social-democracia alemã, com a colaboração das tropas de ocupação do imperialismo anglo-saxão, para criar a peça-chave da reconstituição do Estado burguês na Alemanha ocidental.

A colaboração da burocracia stalinista com os Imperialismos Aliados foi decisiva para desarmar os elementos da guerra civil anticapitalista com que o segundo conflito mundial culminou na maioria dos países da Europa ocidental. Foi ela que permitiu o desarmamento dos partigiani italianos, que tinham derrubado a ditadura de Mussolini. Na Grécia também, a resistência anti-nazista se desdobrou em guerra civil:

A revolução grega de dezembro de 1944, apesar do controle total do país pelas tropas da ELAS, foi esmagada pela intervenção das tropas britânicas, depois da capitulação dos dirigentes stalinistas da ELAS que devolveram as armas, aplicando as diretivas de Stalin de unificação das forças patrióticas numa Frente Nacional27.

A Grécia se veria envolvida numa longa e sangrenta guerra civil, que culminou com a derrota das forças irregulares por volta de 194928, forças que deveriam enfrentar uma coalizão político-militar de todas as forças vencedoras da Guerra Mundial.

Na França, essa política alcançou dois de seus objetivos: 1) o desarmamento das forças armadas irregulares, como um aspecto da reconstituição do Estado imperialista francês; 2) a liquidação de toda possibilidade de um levantamento de classe como desdobramento final da luta antinazista.

Stalin estava interessado em um acordo claro com os Imperialismos Aliados, o que incluía, claro, um "cordão de segurança" para a União Soviética na Europa oriental (que o imperialismo tentou depois furar com o Plano Marshall, motivando a Cortina de Ferro e o início da Guerra Fria) mas, sobretudo, a desativação da "bomba" revolucionária nos países capitalistas mais importantes, os da Europa ocidental.

Na verdade, De Gaulle carecia de base social própria para reconstituir o Estado (a quase totalidade da burguesia francesa fora colaboracionista). O PCF lhe forneceu essa base. Dessa forma, o Partido, por um lado, colaborou com a reconstituição do imperialismo francês, praticamente desfeito durante a Guerra, tomando parte nos massacres de Sétif e de Guelma (na África do Norte), ao mesmo tempo em que, em nome da luta contra o imperialismo japonês, encorajou os ex-FTP integrados ao exército do General Leclerc a participar da retomada da Indochina Francesa, chamado a preservar o quadro da União Francesa, isto é, a apoiar a guerra colonial do imperialismo francês contra o Vietname. Por outro lado, isto permitiu não apenas a reconstituição do Estado, mas a reciclagem, dentro do mesmo, dos funcionários do regime colaboracionista de Vichy (incluindo o futuro Presidente "socialista" François Mitterrand), alguns dos quais foram transformados em "heróis da Resistência"!

Preservados os quadros fundamentais da burguesia e do Estado, foram liberadas à vingança popular algumas pobres mulheres que tinham dormido com soldados alemães.

Os acordos de Yalta e Potsdam tiveram por objetivo fundamental fornecer o quadro legal para toda essa política, que foi a continuidade legal e pacífica do caráter contra-revolucionário das hostilidades militares e do horror bélico. A desnazificação foi cuidadosamente planejada para ser a "perfumaria" suscetível de tornar populares os acordos contra-revolucionários. Dos supostos cinco mil alemães pertencentes ao alto escalão nazista, em 1951 apenas 50 permaneciam presos. No total, de mais de 13 milhões de alemães questionados, em 1949 havia apenas 300 presos. Dos 11.500 juízes em atividade na Alemanha do pós-guerra, 5.000 haviam atuado nas cortes nazistas. A execução dos carrascos julgados em Nuremberg foi a cortina-de-fumaça desta preservação da coluna vertebral do Estado burguês, fosse ele totalitário ou democrático. Os conflitos entre a burocracia e o imperialismo, posteriores a estes acordos, conhecidos sob o nome de Guerra Fria, chegaram certamente a ser muito agudos, sem no entanto jamais comprometer os acordos reacionários que deram continuidade até o fim ao caráter contra-revolucionário da Segunda Guerra Mundial, em especial contra a reação revolucionária das massas trabalhadoras que foram a sua vítima principal.

Notas

1. MANDEL, Ernest. O significado da Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1989, p. 182.

2. OLYMPIO, Guilherme. União Soviética & USA. Rio de Janeiro: Prado, 1955, p. 107.

3. PERNAU, José. História mundial desde 1939. Barcelona: Salvat, 1973, p. 10.

4. Cf. El Pais, (Madrid), 9 dez. 1933.

5. CLAUSEWITZ, Karl von. De la guerra. Barcelona: Labor, 1984, p. 17.

6. PRAGUER, R. (org.). Les Congrés de la Quatrième Internationale. Paris: La Brèche, 1978, p. 337.

7. Idem.

8. Id, ibid, p. 277.

9. BROUÉ, Pierre. Cours d'Histoire du XXe Siècle. Grenoble: IEP, 1977.

10. SHERWOOD, Robert. Roosevelt and Hopkins. Nova York: UP, 1950, p. 290.

11. TROTSKY, L. Revolução e contra-revolução na Alemanha. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

12. MILWARD, Alan. La Segunda Guerra Mundial: 1939-1945. Barcelona: Crítica, 1986,

13. RONCAYOLO, Marcel. Le Monde Contemporain de la Seconde Guerre Mondiale à nos jours. Paris: Robert Laffont, 1985, p. 52.

14. TAYLOR, Ernst. A Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

15. NOLTE, Ernst. Nazionalsocialismo e bolscevismo: la guerra civile europea 1917-1945. Firenze: Sansoni, 1988. p. 3.

16. MAYER, Arno. La "solution finale" dans l’histoire. Paris: La Découverte, 1990, p 505.

17. TROTSKY, Leon. Programa de transição. Porto Alegre: Combate Socialista, s/d, p. 28.

18. Idem.

19. Ver LAQUER, Walter. O terrível segredo. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. Ver também FRIEDLANDER, Saul. Pio XII et le IIIe Reich. Paris: Seuil, 1965.

20. Cf. Prensa Obrera (Buenos Aires), 189, 08 jul. 1987.

21. DEBORIN, G. A Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Fulgor, 1966.

22. Cf. Folha de São Paulo , 22 jul. 1991.

23. Ver SERGE, Victor. S'íl est minuit dans le siècle. Paris: Grasset, 1939.

24. THOMSON, David. Pequena história do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 1973, p. 166.

25. ABRAHAM, Ben. Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Sherip Hapleita, 1985, p. 40.

26. WERTH, A. A Rússia na Guerra: 1941-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: 1966, 157.

27. Cf. Les Cáhiers du Cermtri (Paris), n. 60, mar. 1991.

28. Ver ETCHEGOYEN, Miguel. Grecia: el movimiento guerrillero de liberación en la posguerra. Buenos Aires: CEAL, 1973.

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