In:  
Olho da História No. 1 Página Principal

 

As causas
da Segunda Guerra Mundial:
os indivíduos e as classes sociais

Ernest Mandel

Historiador e economista recém-falecido.
Era professor da Universidade de Bruxelas e foi prisioneiro de um campo de trabalho nazista durante a Guerra.

A primazia das relações e dos conflitos entre as forças sociais na determinação do curso da história é um dos pressupostos fundamentais do materialismo histórico. Nas sociedades divididas em classes, tais relações são, necessariamente, relações de classe. Deste modo, a história é explicada, em última análise, como a história das lutas entre as diversas classes sociais e suas frações essenciais, extensamente sobredeterminada pela lógica interna de cada modo de produção específico.

Esta concepção da história não está baseada na negação da individualidade humana nem no menosprezo pela autonomia individual, estrutura de caráter ou valores. A visão de que a história é configurada basicamente pelas forças sociais resulta, precisamente, do completo entendimento do fato de que um número infinito de pressões individuais tende a criar movimentos aleatórios, que se auto-anulariam amplamente, se fossem exclusivamente individuais.

Para que a história possua um padrão inteligível e não seja uma mera sucessão de fatos desconexos, aspectos comuns têm de ser descobertos no comportamento dos indivíduos. Deste modo, milhões de conflitos individuais, escolhas e direções possíveis parecem ter uma lógica determinada, que permite serem vistos como um paralelogramo real de forças, sujeitas a um número finito de resoluções e conseqüências possíveis. É isto o que acontece na história real.

Aqueles que negam a primazia das forças sociais na configuração do destino humano, de modo paradoxal, também atenuam o papel da maioria dos indivíduos na sociedade. Só em circunstâncias nas quais a vasta maioria tenha sido excluída do fazer história, poucos "grandes homens" podem ser dotados do poder de configurar eventos. Quando o materialismo histórico afirma a primazia das forças sociais sobre as ações individuais, na determinação do curso da história, não nega que certos indivíduos podem desempenhar papéis excepcionais. Se homens e mulheres fazem a história, é sempre com uma certa consciência que pode, é obvio,

ser uma falsa consciência, à medida que interpreta erroneamente seus interesses reais ou não prevê as conseqüências objetivas de suas ações. Segue-se nesse contexto que certos indivíduos, na liderança de movimentos sociais, podem ter influência incomum na história, não como super-homens, mas exatamente como conseqüência de suas relações sociais.

Personalidades excepcionais não podem mudar a tendência secular dos fatos. O déspota mais poderoso do mundo não pode escapar às implacáveis demandas da acumulação do capital, que resulta da estrutura da propriedade privada e da competição no mundo capitalista. Por exemplo, qualquer tentativa de repor a lógica da produção escravista (como Hitler tentou fazer) só poderá resultar em dificuldades enquanto persistir a tecnologia atual e a propriedade privada. Do mesmo modo, nem o talento individual nem a sede de poder podem alterar os limites da correlação material (sócio-econômica) de forças. Dessa maneira, dadas as respectivas forças produtivas da Europa capitalista e dos Estados Unidos em 1941, a Alemanha nazista, mesmo após ter subjugado toda a Europa, não teria nenhuma chance de vencer uma guerra contra o vasto poder econômico da América do Norte, a não ser que incorporasse com êxito todos os recursos naturais e industriais da União Soviética, um processo que levaria anos.

Nos limites globais, materiais e sociais, certas personalidades podem influenciar a história, seja por possuírem uma percepção mais clara do que os outros das necessidades históricas de sua classe, seja por retardarem o reconhecimento dessas necessidades objetivas. Através de sua influência, elas podem impor decisões que, a curto prazo, favoreçam ou contrariem os interesses das forças sociais que supostamente representam. Isto ocorre independentemente de sua vontade ou de suas intenções declaradas.

Hitler e as causas da Guerra

A distinção, entre os grandes movimentos seculares da história e as variações de prazo mais curto no desenvolvimento histórico, é apenas uma aproximação elementar da relação entre forças sociais e indivíduos na configuração do curso dos acontecimentos. Uma categoria adicional, essencial, inclui as necessidades conjunturais dos grupos sociais.

Hitler não pretendia reduzir o poder da classe dominante alemã à metade do Reich, tal como ocorreu a partir de 31 de agosto de 1939, mas essa perda de poder e de território foi precisamente a conseqüência da sucessão de eventos desencadeados pela invasão da Polônia no dia seguinte. Esses fatos, além disso, incluíram uma série de ações que não representavam a única escolha possível para o bloco social-nazista, para o qual Hitler, enquanto indivíduo, possuía uma responsabilidade imediata. A invasão da Polônia, é verdade indubitável, foi uma decisão, fundamentalmente, de Hitler. Ela expressou, de maneira surpreendente, as facetas contraditórias de sua personalidade: temeridade, monomania, oportunismo hábil, bem como uma alternância ciclotímica entre indecisão paralisante e hipervoluntarismo. Mas também é verdade que, já no ano de 1932, os círculos principais da classe capitalista alemã tinham decidido — em consideração aos seus interesses conjunturais — que a única saída para a crise econômica da Alemanha era estabelecer a hegemonia sobre a Europa ocidental e central.

Disparada a ação dessa estratégia e iniciado o rearmamento maciço, a guerra tornou-se virtualmente inevitável devido a dois fatores: 1) o rearmamento reativo dos principais rivais capitalistas da Alemanha — mais imediatamente, a Inglaterra, mas também os Estados Unidos —, que procuraram bloquear a suserania alemã sobre a Europa e sua conversão numa potência mundial. Por isso, a tentação, cada vez maior, para toda a liderança nazista, de desencadear a guerra antes que as enormes forças produtivas do capitalismo americano tivessem sido mobilizadas e enquanto a Alemanha ainda desfrutava de certas vantagens em blindados e aeronaves modernas; 2) o ônus do rearmamento maciço conduziu a uma crise financeira mais profunda no capitalismo alemão. As reservas em moeda tinham quase desaparecido e o pagamento de juros sobre a dívida nacional tinha-se tornado um peso insuportável. Era impossível continuar com a taxa de militarização sem a integração de recursos materiais adicionais aos estoques quase exauridos, que vinham de fora da Alemanha. Daí a necessidade de pilhar as economias adjacentes e procurar escalas continentais de organização industrial, comparáveis àquelas dos Estados Unidos ou da União Soviética.

Portanto, se a decisão final de ocasionar a Wehrmacht em 1o de setembro de 1939 foi sem dúvida de Hitler, o impulso em direção à guerra nasceu das avaliações, a curto prazo, da maioria da classe dominante alemã. Essas avaliações, em troca, foram condicionadas pelas contradições internas do imperialismo alemão, acentuadas pelas crises sucessivas de 1919/23 e 1929/32. O fato de que a classe dominante esteve mais ou menos unificada no projeto de modificar agressivamente a divisão mundial do poder econômico não foi certamente acidental. A Alemanha chegou, tardiamente, à arena das grandes potências para adquirir um império colonial fora da Europa que correspondesse a sua importância no mercado mundial. O seu "destino manifesto", portanto, foi interpretado como a busca da reposição de um império na Europa. A influência política desproporcional dos junkers — um resultado do fracasso das tentativas do século XIX de uma revolução democrático-burguesa na Alemanha — acentuou os aspectos ousados e arrogantes da política externa alemã e ampliou o suporte para a expansão militar.

Por isso, provavelmente não foi acidental o fato de a classe dominante alemã, apesar de seu orgulho cultural e suas tradições de sustentáculo da "lei e da ordem", colocar o seu futuro nas mãos de um aventureiro negligente. Naturalmente, sob circunstâncias normais, a burguesia escolhe suas lideranças políticas dentro de sua própria classe. Em períodos de crise, entretanto, a burguesia tem tentado repetidamente resolver os balanços desfavoráveis do poder de classe recorrendo à liderança parlamentar dos líderes trabalhistas reformistas, desejando preservar as estruturas e os valores básicos do regime capitalista: uma linhagem colaboracionista que vai de Ebert a McDonald, a Léon Blum, Clement Attlee e Van Acker, Spaak, Wily Brandt e Helmut Schimidt, terminando provisoriamente com François Mitterrand.

Para uma classe burguesa poderosa, patrocinar uma autoridade tipo Hitler implica circunstâncias muito excepcionais: uma profunda crise sócio-econômica que produz tensões sociais generalizadas de caráter pré-revolucionário. Sob tais condições de crise excepcional, os estratos declassés de todas as classes sociais, mais especialmente da pequena burguesia, lançam um grande número de caráteres desesperados com o propósito de "resolver os problemas da nação" indiferentes ao custo, em termos humanos ou materiais, e, muito menos, em termos de valores tradicionais. Trotsky caracterizou de forma competente os aventureiros deste tipo como wildgewordene kleinbürger (pequeno burguês tornado selvagem).

Hitler, enquanto um tipo de caráter político, é, portanto, o produto de uma concatenação específica de circunstâncias: a ruína dos pequenos lojistas, o desemprego em massa da casta dos funcionários públicos, a destruição de pequenas organizações financeiras, os receios competitivos anti-semitas de médicos e advogados de poucos clientes, a superprodução de acadêmicos etc. A mentalidade de gângster já era claramente visível na formação dos Freikorps, em novembro de 1918. Na verdade, havia, literalmente, centenas de Hitlers e Himmlers em potencial circulando na Alemanha após 1918 — muitos deles com feições ideológicas e de caráter quase idênticas àquelas do futuro Führer.

Assim, a maneira pela qual o Terceiro Reich emergiu do colapso da República de Weimar e pavimentou a estrada para outra guerra mundial foi determinada apenas em certa medida pelos talentos e debilidades particulares de Hitler como político individual. Incomparavelmente mais significativa, foi a crise social mais ampla da qual o "tipo Hitler" foi apenas um epifenômeno. Mesmo a monomania de Hitler sobre os judeus pode agora ser vista como uma demência difundida entre os estratos reacionários da sociedade alemã.

A psicologia social e a análise marxista

A mentalidade de bandido tornou-se característica de certas camadas da sociedade alemã entre 1918 e 1919. Porque ela obteve o endosso das classes dominantes? Primeiro é necessário entender o papel das estruturas mentais coletivas, as quais medeiam os interesses. A psicologia social deve ser uma instância necessária na interpretação marxista do processo histórico e deve elucidar como mentalidades específicas apoderam-se de um dado grupo social, mesmo quando expressam uma falsa consciência que distorce ou interpreta incorretamente interesses objetivos.

Os conceitos de mentalités ou estruturas de sentimento, agora tão úteis na história social ou nos estudos culturais, têm uma genealogia independente no pensamento marxista clássico. Kautsky, desse modo, insistiu corretamente na importância da solidariedade e do auto-sacrifício como características componentes de uma clara mentalidade proletária. Sem essa estrutura mental que tem origem na experiência do trabalho na fábrica e na exploração em larga escala, as greves e outras ações coletivas do proletariado seriam quase impossíveis (ao contrário, as greves por parte da pequena burguesia são extremamente raras). Engels, no mesmo sentido, insistiu sobre o fato de que os trabalhadores, vivendo nas grandes cidades e labutando nas novas fábricas dos anos 1880 e 1890, formam a primeira classe na moderna sociedade alemã que escapou à estreita perspectiva conformista. As atitudes admiravelmente não conformistas e anti-autoritárias da nova classe trabalhadora alemã para com o regime de Bismarck — especialmente a que foi revelada pela resistência maciça à lei Anti-Socialista (Sozialistemgesetz) — confirmaram a emergência de uma nova mentalité.

Não apenas classes mas também grupos étnicos podem manifestar estruturas mentais coletivas distintas. A maneira pela qual grupos especialmente oprimidos — judeus, negros, ciganos, palestinos, tribos de todo o mundo etc — apegam-se tenazmente às tradições lingüísticas, religiosas, étnicas e mesmo gastronômicas, comprova tanto uma práxis de resistência cultural como a manutenção de mentalités características, as quais fortalecem a identidade e o respeito próprio contra a extensa violência e indignidade. Mas esse tipo de estrutura mental geralmente persiste apenas enquanto o meio social básico é composto pela pequena burguesia pobre. Quando a ampla emergência do capitalismo irrompe nas antigas estruturas da opressão nacional ou étnica — mesmo se a discriminação mesquinha e o preconceito sobrevivem —, esse tradicionalismo defensivo pode ser repentinamente revertido em favor da assimilação quase fanática e mesmo da superidentificação com a cidadania recentemente adquirida ou do status nacional. O exemplo clássico dessa transformação ocorreu no século XIX no seio da burguesia judia assimilacionista da Europa ocidental, porém podem ser notadas tendências contemporâneas entre os elementos da jovem burguesia negra dos Estados Unidos ou entre os segmentos anglófilos da classe média indiana expatriada.

A Escola de Frankfurt, dirigida por Horkheimer, nos anos 30, tentou amplamente desenvolver uma psicologia social através da síntese de idéias de Marx e Freud. O fracasso fundamental desta ambiciosa reconstrução tem origem menos na interrogação de Freud do que na sua apropriação mecânica do marxismo. O papel dos impulsos inconscientes no comportamento social do homem havia, afinal, sido enfatizado por Engels meio século antes, mesmo não estando ele em condições de investigar sua precisa natureza. Trotsky, por sua vez, havia sido simpático aos esforços da psicologia profunda em teorizar a origem e a dinâmica daqueles impulsos.

A real debilidade da Escola de Frankfurt foi sua incapacidade em compreender os elos de mediação cruciais na dialética da infra-estrutura e superestrutura, as quais, em última análise, determinam o desenvolvimento histórico. Paixões individuais e impulsos inconscientes, por mais que determinem a personalidade, não podem diretamente dar forma às transformações sociais envolvendo milhões de seres humanos. Podem apenas criar potenciais ou disposições para tais desenvolvimentos. Ao mesmo tempo, porém, é muito mais provável que tais paixões criem disposições para desenvolvimentos completamente diferentes, senão opostos. Que linha de desenvolvimento ou ação será efetivamente empreendida não pode ser prevista pela análise desses próprios impulsos inconscientes. Mais propriamente, os resultados históricos reais dependem das lutas sócio-políticas concretas, as quais envolvem não apenas processos inconscientes mas também conscientes, idéias, estratégias e restrições materiais tanto quanto, ou mais, do que ideologias espontâneas e disposições inconscientes.

No caso da famosa análise da Escola de Frankfurt sobre o sucesso do hitlerismo, o tema central é a suposta ambigüidade das estruturas autoritárias na sociedade alemã. Mas como pode esta análise sócio-psicológica (nós preferiríamos dizer sócio-individual) fornecer uma explicação para fatos como a habilidade da mesma classe trabalhadora alemã, que fracassou na greve contra Hitler em 1933, ter tido sucesso, pouco mais que uma década antes, em 1920, em desencadear a greve geral mais bem sucedida na história contra o golpe de Von Kapp-Von Luttwitz? Certamente sua formação não tinha sido menos autoritária, nem suas frustrações sexuais menos marcantes nas décadas que precederam 1920, do que nos anos anteriores a 1933!

Mais uma vez, paradoxalmente, essas tentativas de reduzir o peso decisivo das forças sociais na determinação da história realmente suavizam o papel das idéias e das personalidades muito mais do que faz o materialismo histórico clássico. Os marxistas entendem que, apesar dos aspectos instintivos ou infantilizados da psique humana, as pessoas podem compreender as exigências de sua situação histórica e agir de forma amplamente congruente com seus interesses objetivos. Somente quando esta dimensão da vontade racional é admitida no complexo paralelogramo de causação histórica, nós podemos entender como os indivíduos com talentos ou inclinações particulares podem sobressair-se por si próprios.

Plekhanov e o papel dos "grandes homens" na história

A teoria marxista dos clássicos acerca do papel do indivíduo na história foi esboçada por Plekhanov em seu famoso ensaio que leva o mesmo título. Embora freqüentemente associado a um marxismo reducionista, o texto de 1898 de Plekhanov é, de fato, uma análise notavelmente sutil e atualizada. Ele desenvolve a tese básica de que, embora a infra-estrutura das relações de produção imponha certos limites materiais sobre a luta de classes, o caminho através do qual são na verdade expressos tais limites se dá sempre na forma de uma refração através dos papéis particulares das organizações de massa e de suas lideranças. Sob tais condições e, especialmente, nos pontos históricos decisivos ou nos momentos de crise, as peculiaridades pessoais dos indivíduos podem influenciar o tipo de organização e de liderança de classe que estão disponíveis.

Plekhanov ainda acrescenta dois pontos. Primeiro, como Hegel insinuou, "a sorte das nações depende freqüentemente dos acidentes de segundo grau"; mas esses "acidentes" estão entrelaçados com correlações particulares de forças sociais e materiais as quais, em troca, limitam a esfera autônoma do fator individual. Em segundo lugar, as classes sociais, em momentos de crise, necessitam de talentos de natureza específica, um tipo particular de liderança. Geralmente, nesses momentos, alguns ou mais indivíduos que personificam esses talentos estão disponíveis como candidatos para se tornarem os novos líderes de seu partido, classe ou nação.

A história da Segunda Guerra Mundial fornece amplas ilustrações da perspicácia das teses de Plekhanov. No caso da queda da III República, as personalidades políticas que conduziram a França à capitulação em 1940 haviam sido todas elas amplamente eleitas em 1936; quer dizer, com exceção de alguns deputados comunistas que haviam sido privados de seus direitos civis pela sua oposição à "falsa Guerra", foi um parlamento supostamente de "ala esquerda" que decidiu, por esmagadora maioria, substituir a República pelo État français de Pétain. Como isso pode ser explicado? A ascensão de Pétain não foi de maneira alguma a conseqüência inevitável da vitória dos tanques alemães.

Depois da derrota do corpo principal das forças francesas em maio-junho de 1940, outras linhas de ação eram facilmente concebíveis, mas somente a usurpação da democracia francesa por Pétain correspondeu aos instintos majoritários da classe dominante francesa, que estava determinada a usar a derrota para reparar os reveses e as humilhações da vitória da Frente Popular e da revolta trabalhista de 1936. Pétain foi o mecanismo que permitiu a ela alcançar o que seu mais talentoso e reacionário ideólogo, Charles Maurras, chamou une divine surprise. Isso também permitiu uma sublimação ideológica da derrota, na atávica restauração cultural de Vichy, com seu slogan "Trabalho, Família, Pátria".

Sob circunstâncias normais, tal reversão radical do balanço de forças sociais e políticas entre trabalho e capital teria sido impossível na França. Para ocorrer a transição de uma democracia parlamentar decadente para uma ditadura militar bonapartista aberta, três condições políticas foram absolutamente essenciais. Primeiro, o último gabinete parlamentar dirigido por Paul Reynaud teve de renunciar sem resistência. Em segundo lugar, o Presidente da República teve de recorrer a um defensor aberto do regime autoritário — neste caso, o Marechal Pétain — para formar um novo governo. Em terceiro lugar, a maioria do Parlamento, senadores e deputados juntos, tinha de estar disposta a enterrar a constituição da III República. Como realmente aconteceu, todas essas condições foram cumpridas sem hesitação quando surgiu uma necessidade social, e a tendência geral se tornou hegemônica dentro da classe dominante.

Até o fim de maio de 1940, Paul Reynaud havia sido considerado um político obstinado e violento, hábil em manipular gabinetes e deputados. No entanto, ele se permitiu ser manobrado numa ambígua votação de gabinete em que pedia não um armistício, mas apenas condições para um armistício com a Alemanha, atitude que o colocou em minoria e o conduziu — contrariando completamente sua natureza — a renunciar. Paralelamente, até então o presidente Lebrun era de modo geral visto como uma pessoa completamente sem importância, inábil, sem vontade própria, que tinha sido escolhido apenas por sua posição honorária e porque sua personalidade correspondia ao famoso dito de Clemenceau: "se você quer um Presidente, escolha o mais estúpido". Contudo, esta insignificância decidiu a crucial reviravolta dos eventos de 26 de junho de 1940. Tivesse ele chamado Reynaud de volta, em vez de convocar Pétain, a III República teria sobrevivido por mais tempo. Mas, com uma vontade e obstinação totalmente contrárias à sua natureza e possivelmente com a cumplicidade de Reynaud, ele impôs a ditadura de Pétain.

"Nós precisamos é de Pétain" foi o grito de guerra da extrema-direita desde 1936. No entanto, mesmo que o velho Marechal fosse bastante popular — especialmente entre as celebridades burguesas — sua atuação parlamentar foi limitada antes de maio de 1940, ainda que sua repentina candidatura como Primeiro-ministro fosse apoiada por uma maioria esmagadora de deputados e senadores (incluindo, como já observamos, muitos dos parlamentares de "esquerda" de 1936), orquestrados por aquele mestre de intrigas e chantagem, Pierre Laval. Na verdade, Laval estava disponível para essa operação desde, pelo menos, 1937 e vinha fazendo intrigas contra a República, freneticamente. Também é verdade que a completa desmoralização de muitos parlamentares em junho de 1940, como resultado da derrota atordoante e inesperada das tropas aliadas, tornou mais fácil o êxito de tal manobra.

Entretanto, é difícil negar que essa reversão radical das normas e hábitos comportamentais de centenas de políticos — seis ou sete dos quais desempenharam papéis decisivos na tragicomédia — pôde somente ocorrer porque estava de acordo com as necessidades coletivas e desejos conscientes da maioria da burguesia francesa. Para aquela classe, era imperativo não apenas trocar de lado no meio da Guerra, mas derrotar as conquistas reformistas do movimento trabalhista francês.

Uma conjuntura simétrica, mas oposta, surgiu quando a classe dominante francesa defrontou-se com a iminência de um desembarque dos Aliados. Aí, o problema para a maioria dos capitalistas franceses, profundamente desacreditados aos olhos das massas por sua colaboração com os nazistas, era salvar tanto o capitalismo francês como um Estado burguês independente (e o Império) diante de um balanço de forças muito desfavorável vis-à-vis tanto à classe trabalhadora francesa (armada, como resultado do avanço da Resistência) como às autoridades anglo-saxônicas. Uma mudança radical do pessoal político e das alianças estava novamente na ordem do dia.

Novos "homens predestinados", Charles De Gaulle e seus colaboradores mais próximos, estavam providencialmente disponíveis para empreender esta operação de salvamento, aparentemente miraculosa. Que ela tenha tido êxito foi uma surpresa para muitos contemporâneos acostumados aos líderes franceses pusilânimes. O arrogante e inepto Marechal-de-campo Keitel, quando chegou para assinar a rendição incondicional da Wehrmacht em 1945, não teve outro comentário a fazer ao Comando Aliado reunido do que a exclamação: "Mas como, antes dos franceses também?"

Certamente De Gaulle era uma personalidade excepcional, com uma mente brilhante e uma vontade de ferro superior à maioria de sua classe, não apenas na França, mas no resto da Europa. No entanto, enquanto suas virtudes não corresponderam às necessidades autodefinidas da burguesia francesa, ele permaneceu marginalizado, considerado meio louco e um aventureiro perigoso. Alguns o consideraram pró-fascista, outros mais tarde o condenaram como um simpatizante comunista. Mesmo um político e juiz de renome, normalmente astuto, como Franklin D. Roosevelt — o consumado corretor de ações na história americana moderna — ridicularizava com freqüência De Gaulle e suas pretensões de vanglória.

Em junho de 1944, os Aliados ainda estavam prontos para impor uma ocupação militar à França, que a teria conduzido provavelmente a uma guerra civil ao estilo grego ou pior. De Gaulle, tendo a sua disposição forças desprezíveis, julgou corretamente as necessidades do capitalismo francês (e, naturalmente, internacional) e obteve êxito ao estabelecer, através de um diplomático coup de main, um regime parlamentar renascido, incorporando a Resistência Comunista.

O caso de Churchill fornece outro tipo de corroboração para a visão de Plekhanov da relação entre personalidades decisivas e as exigências do domínio de classe. A historiografia tradicional, se admiradora ou crítica dos prévios papéis históricos de Churchill, tem sido quase unânime em elogiar sua mudança para Downing Street, 10, como chefe de um governo de coalizão incluindo o Partido Trabalhista, como principal ponto decisivo na Guerra.

Churchill indubitavelmente incorporou a decisão inabalável da classe dominante britânica e da larga maioria do povo inglês em não capitular à Alemanha sob quaisquer circunstâncias. Mas, ao romantizar seus atributos pessoais, em vez de partir de uma análise das atividades das forças sociais mais amplas, a maioria dos historiadores burgueses fracassou no teste do exemplo comparativo. A questão central não é quais acidentes de biografia fizeram de Churchill um indivíduo mais decisivo do que Chamberlain (ou, de forma similar, distinguiram De Gaulle de Pétain), mas por que Churchill foi capaz de reunir a maioria de sua classe e o povo em torno de si enquanto De Gaulle permaneceu uma figura isolada na França, em junho de 1940.

Com certeza, o fato de que as Forças Armadas francesas tivessem acabado de sofrer uma derrota humilhante, enquanto os britânicos foram capazes de evacuar a maior parte de seu exército derrotado para sua fortaleza insular, fez diferença. Mas, novamente, os mais informados observadores — incluindo o Embaixador americano Joseph Kennedy — consideraram a posição britânica como basicamente desesperançada. Entretanto, a França, mesmo que por um lado destruída nas Ardenas, ainda possuía uma frota não derrotada (a segunda maior da Europa), uma ampla esquadra na África do Norte — mais forte do que a que os ingleses tinham à sua disposição —, uma significativa reserva aérea e um Império Colonial intacto.

De fato, a diferença real entre a situação britânica e a francesa era menos suas condições militares do que as predisposições de suas classes dominantes. A burguesia francesa tinha-se tornado derrotista de modo crescente, por sólidas razões materiais. Ela havia-se mostrado econômica e militarmente incompetente para garantir o sistema de Versalhes na presença do rearmamento e da expansão agressiva da Alemanha. Prosseguindo sob este aspecto, ela estava obcecada principalmente em conter sua própria classe trabalhadora, a qual se tinha tornado uma prioridade política mais elevada que a tentativa de derrotar a competição alemã.

Por outro lado, a burguesia inglesa não estava nem desmoralizada, nem derrotada. Ela já havia reprimido seu próprio movimento trabalhista, economicamente em 1926, e politicamente em 1931/35. Ao mesmo tempo, sua posição mundial (mesmo se rapidamente sendo ultrapassada pelos Estados Unidos) era ainda mais forte do que a da Alemanha, embora a hegemonia de Hitler sobre a Europa tenha comprometido claramente o Império Britânico. Além disso, a elite britânica estava convencida de que a ajuda eventual dos Estados Unidos, junto com a matéria-prima e a mão-de-obra do Império, fazia da guerra contínua contra a Alemanha uma estratégia realista.

O momento era dramático e cheio de perigos, mas o futuro pareceu amplamente garantido, desde que a Inglaterra pudesse vencer a crise imediata. "Se nós resistirmos por três meses, enfrentaremos a vitória em três anos", profetizou Churchill corretamente num discurso secreto na Câmara dos Comuns. E Churchill foi a escolha quase ideal para fortalecer a decisão inglesa até que os americanos entraram na Guerra. Aí está por que, após ter sido considerado durante anos uma figura independente e ultrapassada, uma voz clamando no deserto, ele pôde ser repentinamente ressuscitado como o deus ex-machina de sua classe. Através de uma abrupta virada de eventos e de necessidades sociais, o deserto havia sido preenchido com milhões de pessoas.

A seleção social das lideranças

Para se entender esses vários exemplos de seleção de liderança em crise — Pétain, De Gaulle, Churchill —, é necessário ampliar o conceito de Plekhanov de "disponibilidade socialmente determinada", com uma análise mais precisa dos vários mecanismos de escolha e promoção de pessoal político dentro de diferentes classes sociais. Embora esses mecanismos de seleção sejam nacionalmente específicos, certos aspectos comuns podem ser notados entre a burguesia moderna. O ponto inicial, naturalmente, é a divisão funcional do trabalho dentro da classe capitalista. Comparada com a vida da classes desocupada — a aristocracia —, o negócio do lucro é uma profissão extraordinariamente absorvente. Por esta razão, em geral, apenas aquela parte da burguesia que não atua diretamente como empresária será capaz, ou desejará, optar por carreiras políticas.

Em condições extraordinárias ou de extrema riqueza, pode ocorrer uma união pessoal entre os altos capitalistas financeiros e o topo do aparelho de Estado. Mas isto é uma exceção à regra. Mais tipicamente, empresários e políticos profissionais surgem lado a lado como fluxos separados de carreira dentro do estrato burguês.

O que atrai uma classe média ou um indivíduo abastado a seguir uma carreira política em vez de profissões liberais ou de negócios? A ambição pessoal, a convicção ideológica, o fracasso em outros campos, a tradição de família, ou fatos exteriores podem todos desempenhar papéis na orientação da escolha pessoal, porém, mais freqüentemente do que se supõe, as pressões e circunstâncias sociais pesam decisivamente sobre as disposições individuais.

Habitualmente, os indivíduos são recrutados por grupos iguais ou nomeados pelos superiores para iniciar carreiras políticas ou para ser responsáveis por cargos públicos. Do mesmo modo, o que freqüentemente aparece como força da convicção ideológica é ainda mais o peso da circunstância social e da pressão dos pares. Além disso, através dessas redes de seleção social (como o famoso "gabinete não-oficial" de patrocinadores ricos de Ronald Reagan), as fileiras políticas são selecionadas para que apenas poucos milhares de candidatos seletos sejam enfeitados e promovidos para os níveis de autoridade e poder nacionais. Afora isso, dessa elite, entre um terço e a metade encontrará algum sucesso nos cargos públicos, e de suas fileiras reduzidas alguns continuarão a sobreviver aos testes finais de seleção política, como ministros, primeiros-ministros, presidentes ou ditadores. Mesmo os ditadores militares devem passar pelo crivo do processo de seleção de sua própria classe, embora pela via do círculo dos militares ligados ao ambiente burguês ou aristocrático.

Nos níveis mais elevados do poder político, o processo de seleção envolve testes de vida e morte de força de vontade, de precaução e astúcia. As classes dominantes raramente permitirão que pessoas ascendam a posições do poder central sem que elas tenham dado garantia prévia de que defenderão, de forma responsável, as estruturas existentes de propriedade e de acumulação. A função da hierarquia de poder é precisamente sua habilidade de eliminar candidatos erráticos ou indignos de confiança. Por essa razão, muitos luminares locais ou demagogos (pense em Enoch Powell na Inglaterra) jamais chegarão ao topo da estrutura de poder racional.

Mas o processo de seleção não é de forma alguma puramente negativo. Qualidades positivas têm de ser selecionadas e testadas antes que a classe, ou os seus principais representantes, aceite uma pessoa como candidato à liderança nacional. A habilidade para entender e articular as necessidades coletivas de classe é vital, assim como a correspondente capacidade para julgar as relações de força e para formular táticas de acordo com algum plano estratégico. Naturalmente, as qualidades necessárias em tempos de prosperidade e em tempos de crise, na paz e na guerra, são diferentes. Combinações particulares de habilidades, as quais qualificam candidatos para a liderança em uma conjuntura, podem na verdade desqualificá-los para o comando em uma outra situação transformada. Sob essas circunstâncias, a forma real na qual o processo de seleção ocorreu torna quase inevitável que, em cada país dado, haja sempre no mínimo quatro ou cinco líderes centrais disponíveis para implantar soluções completamente diferentes. Geralmente a burguesia escolherá aquele que melhor preencha o que ela considera ser as necessidades prioritárias do momento.

A burguesia, normalmente, pode cometer erros na escolha dos "homens predestinados". Nenhuma lei automática assegura que uma classe social escolha a liderança que ela precisa. Além disso, há sempre certa discrepância entre os interesses de classe a curto e longo prazos, o que torna inevitável uma margem de erro no processo de liderança. Nenhuma coletividade pode sempre ser totalmente consciente da totalidade dos seus interesses de forma completamente objetiva, se devido à sua própria práxis política sempre altera a situação em certa medida, impossibilitando um cálculo exato das conseqüências da ação. Além disso, na sociedade burguesa, o peso tremendo dos interesses privados remove qualquer congruência automática ou completa entre os motivos privados e os interesses de classe.

Contudo, após todas essas qualificações e esclarecimentos serem admitidos, persiste o caso de que o processo de seleção da liderança é irresistivelmente social e específico de classe. Nenhuma teoria de conspiração é necessária para entender como isso funciona; o papel dos grupos informais, salons, agrupamentos, "rede de  panelinhas" e similares é completamente suficiente. Não é uma questão de altos monopolistas escolherem X, Y ou Z para posições elevadas, ao invés de A, B ou C. Mais propriamente, os altos monopolistas — ou alguma rede mais ampla de poder de intermediários dentro da classe dominante — estabelecem barreiras suficientes e testes preliminares para assegurar que os defensores dos interesses da classe dominante que sejam "fracos de caráter" ou "indignos de confiança" não passarão o limiar do poder de Estado. Deste modo, em última análise, o homem certo (ou, ocasionalmente, a mulher) geralmente será encontrado no lugar certo, no tempo certo.

O problema do papel do indivíduo na história tem sido freqüentemente formulado de uma maneira que contrapõe o indivíduo ao grupo social. Mais recentemente, isto tem sido traduzido numa contraposição entre fatores biológicos e sociais. A Escola de Sociobiologia e a Escola de Psico-história têm desafiado a capacidade do materialismo histórico em explicar a mudança histórica de uma maneira compreensiva. Mas ambas as aproximações são insatisfatórias, à medida que ignoram o fato de que indivíduos importantes, socialmente relevantes, que influenciam a história através de sua práxis individual, apenas o fazem em virtude de características as quais são primariamente formadas pela sociedade.

Os substratos biológicos ou instintivos das personalidades apenas criam potenciais os quais estão abertos a uma variedade de desenvolvimentos que depende de contextos sociais mais amplos. A verdadeira plasticidade das disposições biológicas ou psicológicas significa que uma personalidade individual formada definitivamente apenas emerge após muitas forças ambientais terem operado para preencher certos potenciais enquanto anulam outros. E essas forças ambientais são, em grande parte, nada além de instituições sociais, as quais moldam o indivíduo politicamente relevante através de sucessivos estágios de sua biografia.

Na sociedade burguesa, essas instituições incluem a família nuclear patriarcal, o sistema de educação (incluindo a instituição religiosa e outros aparelhos ideológicos), as várias instituições estatais através das quais o indivíduo busca o poder e, finalmente, a matriz particular das organizações partisans, as quais seletivamente promovem candidatos promissores (partidos, corporações, redes de poder, associações de empregados, etc). É um truísmo que nenhum indivíduo pode escapar à influência destas instituições poderosas, e é contenda específica do materialismo histórico que elas exercem a influência decisiva na formação da liderança social, moldando talentos e disposições em certas direções e não em outras. Elas são, em outras palavras, as poderosas fontes do conformismo social, produzindo personalidades que correspondem às necessidades das classes sociais ou de suas frações principais. Elas geram personalidades que asseguram a defesa e a reprodução de uma ordem social dada, à medida que elas "internalizam" os valores básicos que correspondem à estrutura e aos interesses daquela ordem.

Além disso, na sociedade burguesa, todas essas instituições tendem a canalizar o impulso humano básico para a auto-afirmação (Lustprinzip) no sentido da competição individual para a riqueza privada e o poder. Mas em estruturas sociais fundamentalmente diferentes — comunalismo tribal, feudalismo ou socialismo — este impulso primordial pode formar personalidades completamente diferentes com valorizações de auto-estima radicalmente diferentes. Numa sociedade baseada numa produção socializada e democratizada, por exemplo, o impulso para a riqueza e o poder se tornariam socialmente irracionais, e mesmo contrários à natureza humana. Isto não é porque a necessidade de auto-afirmação teria sido suprimida; antes, ela se expressaria através de um sistema inteiramente diferente de comportamento social: competição pela excelência em habilidade artística ou atlética, competição pelo reconhecimento social, competição por servir à comunidade sem expectativa de recompensas materiais ou de poder, e assim por diante.

Reconhecer esta especificidade histórica da individualidade formada socialmente é apenas admitir um fato empiricamente demonstrável e cientificamente visível e que não necessariamente requer um julgamento de valor. Mas os marxistas certamente formulam julgamentos e têm tradicionalmente afirmado que uma sociedade na qual o domínio do homo homini lupus prevalece, produzirá personalidades mais alienadas, agressivas e destrutivas, do que uma sociedade na qual as relações básicas de produção estabelecem a cooperação voluntária e a solidariedade consciente como valores sociais centrais.

Os cavaleiros brancos do apocalipse

Impressiona o fato de que os historiadores têm-se inclinado a desvalorizar ou ignorar o processo de seleção institucional na ascensão de Hitler ao poder. Muito antes de seu sucesso eleitoral em 1930, Hitler teve de sofrer críticas severas do seu próprio e relativamente pequeno partido, a fim de estabelecer sua inquestionável autoridade no microcosmo do futuro Terceiro Reich. Estes anos iniciais foram, sem dúvida, o período mais difícil de sua carreira política, e em vários pontos ele esteve à beira de perder o controle sobre o seu próprio partido para personalidades como Röhm.

Para o nacionalista alemão, a direita era uma verdadeira floresta de führers imaginários, entre os quais Hitler era inicialmente apenas primus inter pares. As lições que ele aprendeu durante sua luta implacável pela liderança determinaram seu modus operandi, uma vez que atingiu o poder instalando padrões de crueldade, oportunismo e falsidade. Procurar a origem desses traços na primeira biografia de Hitler, ao invés de procurá-la no ambiente social da direita alemã pós-Versalhes, distorce a verdadeira seqüência de eventos.

Longe de ser um gângster de nascença, Hitler estava inclinado a uma carreira medíocre em arquitetura ou arte. Se ele se tornou o gângster-mestre do século XX, foi porque lutou pela conquista da liderança durante uma década numa organização quase clássica de gângsters — o Partido Nazista —, que não era diferente de organizações como a Máfia da Sicília e dos Estados Unidos.

A derrota de Mussolini, em 1943, é outro exemplo impressionante de como forças sociais mais amplas são capazes, sob circunstâncias imprevisíveis, de capturar os indivíduos, não como as aranhas capturam as moscas em sua teia, mas como um escultor que martela continuamente os blocos de mármore. Mussolini, um mestre da intriga e do frio exercício do poder, foi facilmente manobrado por seus auxiliares: o Monarca fantoche Vitório Emanuel III e o Marechal Badoclio. O Rei e o Marechal, durante vinte anos, foram cúmplices servis do Duce, totalmente ofuscados por sua inteligência e força de vontade. Não foi nenhum reservatório insuspeito de gênio ou de resolução que lhes permitiu depor Mussolini, mas a reversão dramática das fortunas da classe dominante italiana, colocada em pânico pela Invasão Aliada, que despojou o líder fascista do seu poder e suporte social.

As necessidades coletivas da burguesia italiana permitiram que a instituição da monarquia (bem como a repentinamente revivida liderança coletiva do Partido Fascista) se reativasse virtualmente de um dia para outro, promovendo o Rei de fantoche supino a conspirador principal. Frente à unanimidade da classe dominante italiana, o outrora "Todo-poderoso Duce" foi preso por um punhado de carabineiros, incapaz de mobilizar mesmo algumas centenas de seguidores para defender uma ditadura que havia durado vinte anos!

Assim também, o Imperador Hiroito havia sido um símbolo passivo para o grupo militar que governou o Japão desde meados dos anos 30. Por tradição, ele foi uma figura decorativa, que nunca se intrometeu nos negócios de Estado ou impôs seus pontos de vista. Mas, quando se evidenciou que a Força Aérea americana poderia destruir as bases urbano-industriais do capitalismo japonês e que não mais havia qualquer possibilidade séria para uma paz negociada, o Imperador — aconselhado por Tsugeru Yoshida e seu círculo de políticos burgueses — habilmente manobrou os teimosos militares para uma capitulação incondicional. Repentinamente, foi transformado de mera figura decorativa no líder político da classe dominante. Ele, literalmente, impôs a paz sobre os líderes militares intransigentes, aumentando sua voz através do rádio, apanhando-os numa contradição político-ideológica inextricável. Tendo legitimado o militarismo japonês através do culto à divindade do Imperador, eles não foram capazes de agir contra o seu apelo "divino".

Nos dois casos, o italiano e o japonês, a transformação de figuras decorativas em detentores do poder foi somente temporária. Vitório Emanuel e sua dinastia inteira foram rapidamente banidos de cena, enquanto Hiroito, sob a clemência de McArthur, refugiou-se em seu tradicional papel cerimonial. Suas funções de curta duração como figuras nacionais decisivas foram o resultado de circunstâncias excepcionais que temporariamente dotaram instituições decorativas com poderes de emergência, a fim de salvar os aparelhos de Estado da destruição iminente. Além disso, em nenhum dos casos foi necessário iniciativa ou habilidade pessoal extraordinária: preferivelmente, as redes de poder tradicional — ao redor do Conde Acquarone em Roma, e ao redor do Príncipe Kanoye e do Marquês Kido em Tóquio — foram mobilizadas para juntas tecer intrigas sob a vigilância cuidadosa da classe dominante.

Na Alemanha, uma operação de salvamento ainda mais ambiciosa foi tentada após o Desembarque dos Aliados na Normandia. Por volta de 1944, tornou-se claro para a maioria dos líderes financeiros e industriais alemães — sobretudo para as dinastias junkers prussianas — que a guerra estava perdida e o Reich seria desmantelado a menos que o avanço do Exército Vermelho fosse detido por uma paz separada com os americanos. Ainda mais que nos casos japonês, italiano ou francês, a sobrevivência absoluta de amplas seções da classe dominante alemã — sobretudo a elite prussiana — estava em risco. Quando, de fato, os conspiradores militares se lançaram contra Hitler em 20 de julho de 1944, os soviéticos estavam ainda além do Vístula e é impossível dizer que seqüência de eventos poderia ter seguido o sucesso do seu golpe — se teriam ou não tido êxito em apelar para o anticomunismo para dividir o Bloco Aliado.

Mas, no caso, sua ação foi um fracasso. Por quê? Deveria alguém aceitar explicações convencionais de que a conspiração sofreu um colapso devido a uma contingência técnica — a colocação errada da bomba de Stauffenberg — ou, alternativamente, a opinião de que Beck, o verdadeiro líder dos conspiradores, era uma personalidade "hamletiana" que, vacilando no momento crucial, foi logrado e manobrado pelo diabólico Goebbels (auxiliado pela admiração pessoal do major Remer pelo Führer)? É evidente que não.

O General Ludwig Beck foi, por muitos anos, o Chefe do Estado-Maior, responsável não apenas pelo rearmamento eficaz do Reich, mas também pela idealização de muitas das primeiras vitórias militares. Ele foi um planejador soberbo que, comparado com Vitório Emanuel, Hiroito ou Goebbels, sem falar no major Remer, aparece como Gulliver entre os liliputianos. Mesmo este planejador hábil e experiente fracassou miseravelmente até em assegurar regras elementares do coup d’état tais como ocupar as estações de rádio, apoderar-se do controle do sistema de telecomunicações de Berlim, ou cortar as linhas telefônicas entre o ministério de Goebbels e a casamata de Hitler em Rastenburg. Por quê? Teria ele repentinamente perdido sua ousadia?

É difícil crer numa análise do fracasso do golpe que recai sobre as fraquezas pessoais do General Beck ou de seu parceiro político, Carl Goerdeler, o major de Leipzig. Incomparavelmente mais importante é a diferença na situação objetiva que os conspiradores alemães enfrentaram, comparada com a posição dos conspiradores italianos de 1943 ou com o círculo social do Imperador do Japão durante o verão de 1945.

Na Itália e no Japão, o exército tinha sido derrotado e os centros urbanos, sem auxílio, foram expostos à Força Aérea Aliada. Havia apenas um caminho aberto para a classe dominante: terminar a Guerra imediata e incondicionalmente. Havia, deste modo, um desejo unânime da burguesia de seguir uma trajetória de ação clara. Na Alemanha, ao contrário, enquanto a Guerra estava obviamente perdida, o exército ainda não havia sido vencido. Ele ainda possuía vastos recursos materiais e humanos para sustentar sua capacidade de luta por muitos meses. Além disso, ao contrário dos casos italiano e japonês (ou dos primeiros exemplos da França e da Inglaterra), a classe dominante alemã enfrentava um perigo particularmente ameaçador: não apenas a perda de parte de seu poder e de sua riqueza, mas a expropriação e a destruição de sua posição de classe pelo Exército Vermelho.

Nessas condições específicas, a classe capitalista alemã, em contraste com a italiana ou a japonesa, estava profundamente dividida quanto aos rumos a serem tomados. Embora estivesse unida contra qualquer capitulação aos soviéticos e completamente convencida de que algum tipo de capitulação aos aliados anglo-saxões era a alternativa preferida, estava dividida quanto à avaliação se os americanos e os ingleses aceitariam um acordo separado. Havia uma profunda diferença de opinião sobre esta questão nos círculos burgueses alemães. Enquanto alguns clamavam a imediata destituição de Hitler e a capitulação aos americanos, outros duvidavam se valia a pena correr o risco do colapso da linha de frente sem garantias prévias dos Aliados. Este último bloco era a maioria.

Como resultado dessas diferenças estratégicas, o Exército e o aparelho de Estado ficaram totalmente divididos. Foi esta divisão — resultante do dilema objetivo do imperialismo alemão no verão de 1944 — que explica a vacilação fatal que levou ao fracasso do golpe. Se o anteriormente resoluto Beck vacilou no momento decisivo, foi porque compreendeu que, por mais que fizesse, teria dividido o seu Exército e assegurado a guerra civil ou um colapso da linha de frente, ou ambos. Se o Estado-Maior alemão tivesse apoiado Beck, como os italianos fizeram com o Rei e Badoglio, o golpe teria tido êxito em horas. A hierarquia do Partido Nazista tinha-se tornado profundamente desacreditada e poucas pessoas se teriam levantado para defendê-lo contra o Exército, o qual ainda desfrutava de imenso prestígio entre as classes médias.

Dessa forma, não foi o caráter "hamletiano" do General Beck que sentenciou o golpe, mas as hesitações da totalidade da classe dominante alemã, que era, por sua vez, um reflexo das contradições objetivas e confusões reais. Não foi o indivíduo que causou o desastre da classe, mas, antes, a classe que impediu o indivíduo de agir com êxito.

Mas há um epílogo para esse incidente que coloca o destino dos conspiradores do 20 de julho dentro de uma perspectiva irônica. Enquanto Beck, Goerdeler, Stauffenberg e seus associados estavam preparando o seu golpe, altos funcionários do Ministério Nazista de Negócios Econômicos (sob a proteção de um dos líderes da SS) estavam pacientemente preparando um plano para uma Alemanha pós-guerra integrada a uma economia internacionalmente aberta, baseada em livres movimentos do capital e em um marco conversível — isto é, uma ruptura completa com todas as práticas autárquicas comerciais e financeiras do Terceiro Reich. Os arquitetos desta visão — compreendida posteriormente como o "milagre da República Federal"— não foram outros a não ser Ludwig Erhard, o futuro Chanceler, e Ludwing Emminger, futuro Presidente do Bundesbank. Enquanto eles haviam colaborado com os nazistas durante uma década, quando se tornou necessário para a sobrevivência de sua classe, mudaram sua trajetória em 180 graus. Suas maquinações hábeis contrastaram com o fracasso da Conspiração de Julho, a qual assegurou a liquidação dos junkers e a perda de quase a metade do Reich alemão.

Deve-se ainda observar que o terror nazista, desencadeado por Himmler após o fracasso do golpe, além dos efeitos do arrasador bombardeio dos Aliados, destruiu o potencial que ainda restava aos setores da classe trabalhadora alemã para intervir como força autônoma para terminar a Guerra. O maciço afluxo de mais de 10 milhões de refugiados da Prússia oriental e outros territórios alemães perdidos criou um imenso exército industrial de reserva que manteve os salários baixos durante 15 anos e preservou as altas taxas de lucros originariamente geradas pela redistribuição da renda entre as classes, na ditadura nazista.

O rumo preparado por Erhard e Emminger, patrocinado pelo imperialismo americano e tolerado inicialmente por Stalin, permitiu à classe dominante alemã emergir 20 anos depois com maior poder industrial e financeiro do que antes, embora dentro de um Estado de território menor. Não poderia haver ilustração mais convincente de como a astúcia da história funciona através da apropriação dos talentos individuais pelas necessidades de classe, dentro dos limites de um dado modo de produção.

[e-mail]   topo